sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Coisas da Guiné - 16

(Imagem de tornado obtida no Google em antenaparanoica.blogger.com.br)

O tornado
A noite fora de cavalo-de-inferno à desfilada e rasgara-se em dilúvios de entontecer. Eu dormia numa tenda erguida atrás da escola. E com os meus três companheiros tive de retesar os braços e ferrar os dentes raivosamente na lona para a tenda não subir no redemoinho.
Um violento tornado. Ao meio da tarde, o vento rodou para oeste em rajadas fortes. O tornado veio e veio como sempre. Vento e chuva. Nuvens de chumbo escondendo o sol violento, disparado sobre as tabancas, como asas de jagudis, enormes, sinistras. O vento começa de arremeter aos repelões, como touro furioso: escarva, muge, tropeça, arranca. Derruba cerce um tronco seco, arranca um bissilão pujante, leva no assalto a cangra duma palhota, prende-se ao chão num redemoinho de poeira e medos, varre o azul para semear nuvens, tempestades. E as nuvens atropelam-se, alastram-se como um borrão de dilúvio e acabam por estoirar em violências de fogo que se pega à selva, que fende e incendeia o ar morno e cinzento. Então, o vento mais forte, sacode as crinas. O céu estremece e as nuvens desmancham-se em cordas de água que enchem caminhos, bolanhas, tudo. A selva ganha fúrias e as árvores exibem, desgrenhadas, a sua cabeleira verde, sempre verde e gestos alienados. O calor sufoca, mas, quando vem a calma, derrama-se uma frescura muito doce sobre as coisas e as bajudas e o garotio saem para o terreiro a lavar os corpos numa algazarra de quase festa.

(Armor Pires Mota, no seu livro «Guiné, Sol e Sangue», editora Pax, 1968, página 27)
(Esta é uma descrição apropriada e completamente fidedigna do que é um tornado. Mas também deve ser dito que ler é uma coisa e viver a situação debaixo de um tornado é completamente diferente).
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