sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Coisas da Guiné - 14

A noiva mandinga
A noiva mandinga acabava de chegar num jipe da Administração. Vinha marcialmente escoltada por cipaios, que se apilhavam na viatura. À frente o cabo cipaio e entre este e o condutor indígena – A NOIVA. Atrás distinguia-se um animador do cortejo com o "calandim", uma espécie de bandolim indígena – que tirava uns sonidos exóticos.
O noivo que não era outro que o sherif, chefe religioso muçulmano, pagara "manga" de pesos ao tocador; e este, ciente da sua missão e responsabilidade desfazia-se em trejeitos para arrancar do instrumento toda uma amálgama de ruídos. Sempre com um sorriso aberto, descortinavam-se uns incisivos faltosos e uns molares apodrecidos. O carro virou em direcção da casa do cabo cipaio, onde a noiva ficou religiosamente guardada.
À noite chegou a formação do batuque para a conduzir em festança até casa do sherif. O batuque era composto por um mandinga alto e esguio de óculos doutorais, que regia a barulheira. O apito de marcação de ritmo mordia-lhe os lábios; e as mãos batiam cadenciada e diabolicamente num "tântano" alongado, mais parecendo que a fúria do seu entusiasmo poria em breve o tambor de pantanas. Outros dois acólitos tamboreiros completavam o grupo musical.
À frente vinham as "bajudas", raparigas virgens – candidatas ao "fanado", garridamente vestidas (não destoando o usual pé descalço…), na singeleza e simplicidades dos corpetes e panos colados às carnes. Bamboleavam-se em movimentos cheios de graça dos braços e os pés nus batiam abafada e energicamente no chão poeirento.
Chegado o cortejo a casa do cipaio tudo redobrou de entusiasmo e vigor. Abriu-se um círculo. Crianças à frente e uma ou outra "bajuda" que era bailarina; atrás as mulheres grandes também "roncas" nos seus trajes vistosos. Irrompe pela casa uma onda de bajudas virgens que são envolvidas pelo homem do violino que não arredou pé. Dirigem-se ao quarto da noiva, que cândida e tímida recebe "mantanhas" e votos de vida feliz.
A virgem casadoira era uma dessas belezas mandingas que geralmente se encontram por aí. Esguia, alta e esbelta; olhos negros, talhados oblíquos – misteriosos. O cabelo é típico – sulcado de risquinhos transversais conjugando-se aos lados numas pequenas madeixas, que mais pareciam pequenas espigas de trigo. Cingia-lhe a cinta um pano senegalês, que lhe moldava as formas delicadas e elegantes; e o tronco era revelado pelo pequeno corpete, que discreto lho cobria, sem realçar nada que não fosse proporcionado.
Era na verdade uma autêntica Vénus negra que valia "uilli lulo", ou sejam os cinco mil pesos pagos pelo felizardo que a escolhera. Formou-se novamente o cortejo e a noiva lá foi rodeada pela frescura das jovens virgens. O tocador redobrou em ritmo, agitação e ruído musical. Chegados fronte da casa do sherif, este veio ao encontro da noiva com o seu grupo religioso e conduziu-a à entrada numa cerimónia que o noivo repetia pela quarta vez – já que Alá é generoso quanto ao número de mulheres. Cá fora as "bajudas" faziam coro em cânticos, outras entravam em círculo, arrancando sapatadas cheias de vida e erguendo delicadamente as mãos, contorciam-se ao sabor do ritmo do apito e "tântanos".
O negro esguio do tambor suava por todos os poros. Lá dentro a noiva era apresentada aos membros da seita religiosa e estava tudo a postos para o banquete geral ao ar livre, que a generosidade do chefe deu a toda a gente muçulmana da "tabanca".
O Ramadão tinha acabado e a ocasião era propícia para refazer algo do que havia perdido toda esta gente em quarenta dias de jejum…
"ÓKEY"
(Ramiro Fernandes Figueiredo-Médico da CCaç 462)
Guiné - Ingoré, Março de 1964.
Nota: - Este texto, um pouco ficcionado, procurava retratar a beleza da mulher de uma etnia guineense - MANDINGA - principalmente nesta altura de um casamento que, como o texto deixa perceber, era um contrato que se fazia entre o pai da noiva e o interessado «noivo», ficando neste contrato devidamente assente quanto era e como era que o noivo pagaria ao pai da noiva. Mas também havia festa e jantarada para toda gente da tabanca (aldeamento indígena). E o noivo, com esta, era a quarta mulher que lá iria morar com as outras. Isto num resumo, resumido, para brincar aos pleonasmos. Já não tenho a certeza, mas penso que a bajuda da foto (termo guineense, em crioulo, que quer dizer rapariga, virgem, jovem, que ainda não foi ao «fanado», termo este que define, após a acção desencadeada sobre a mulher, numa cerimónia em que é amputado o clitóris, entre outras acções, a passagem de menina a mulher), é mesmo de etnia mandinga (ou manjaca?).
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