quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Coisas da Guiné - 13

O heroísmo de viver!

Isto hoje parece estar mal.
Não sei por onde iniciar mais uma presença neste blogue.
Os temas e os assuntos são vários. Desde coisas locais, passando pelo «velhinho» "Jornal da Caserna" que ia fazendo na Guiné e me ajudou a passar o tempo, até que encontro nesta «auto-estrada» internauta várias manifestações sobre um programa da RTP, que tem como principal interveniente Catarina Furtado, que foi apresentado há dias.
Optei por este caso. Por que é da Guiné? Exactamente por ser da Guiné.
E comecei a pensar o que havia de dizer sobre aquilo que vi nesse programa, do princípio ao fim. Alguns locais que calcorreei outros que nunca lá fui, mas que sabia onde eram e onde são.
E em vez de alinhavar palavras desconexadas, que o sentimento não é capaz de suster e acabam por resvalar para a berma da emoção, do impossível, do intolerável, verifiquei que seria «mais fácil» para mim deixar aqui dois testemunhos de uns camaradas que, militarmente, também por lá passaram e deixá-los ao livre arbítrio e interpretação de quem os ler. Aqui ficam, ambos publicados no blogue «Luis Graça & Camaradas da Guiné», de cuja tertúlia faço parte, sendo o blogue denominado http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/. Os autores vão identificados no fim da cada testemunho. No final, a música que um deles recomenda como terapia para esquecer aquilo que agora vimos, filmado e montado pela RTP e Catarina Furtado, como Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para a População (UNPF).
Um local do mundo onde a esperança média de vida é de 47 anos! Um local do mundo onde a cada trinta segundos morre uma pessoa com malária (que já tive, lá e cá)! Um local do mundo onde as pessoas têm de viver com 1,5 € por dia! Um local do mundo onde a mortalidade infantil e de mulheres em situação neo-natal é assustadora.
Eis os testemunhos:

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O PRIMEIRO:
Não sei ao certo se viram o documentário que eu acabei de ver, "Dar a Vida sem Morrer".
É o segundo que vejo. O primeiro foi há bastante tempo. Este agora visa fundamentalmente dar à mulher Guineense melhores condições de vida, para a redução da mortalidade materna e neo-natal.
A esperança média de vida é de 47 anos, vive-se com um Euro e Meio por dia e acredita-se, olham as câmaras com os olhos de antigamente, olham-nos fundo, tão fundo e nós arrepiamo-nos por dentro, bem lá no fundo e vemos o hoje, recordando o ontem de há décadas.
Pergunto a mim se este Povo, esta Gente não vive hoje pior. Mas acredita, canta, sorri e do pouco faz a esperança. Com tão pouco, tão pouco e uma Mulher, Catarina Furtado, continua a dar esperança, a contactar directamente no terreno com Técnicos e com o Povo. Eu espero que olvide caciques e certas organizações e beneméritos.
E o Homem Grande falava e as suas palavras eram traduzidas para a língua oficial, o português, e mais uma menina nascia, uma Catarina, e a mãe olhava com o olhar de sempre, o agradecimento nesse olhar e a cesariana feita porque o Hospital de Gabu tem um gerador. Raio, um gerador...e a mulher dá uma vida sem morrer.
Eu só agradeço à Catarina Furtado e a todos os que partilharam neste projecto, portugueses, guineense e sei lá quem mais.
Sinto aquele Povo de uma maneira muito minha e nem palavras encontro. A escrita que fique para outros mais dotados, mais frios e menos emotivos.
Eu fico agora quieto, vou ficar um pouco só e, à minha maneira, vou estar com eles na penumbra de minha varanda.
Fico por aqui, espero que tenham visto o que eu vi... A Guiné mexe connosco, não mexe?
A cada trinta segundos uma morte com malária? Eu percebi bem? Oxalá - queira Alá, o Deus da maioria daquele Povo - tenha percebido mal!
Não vos aborreço mais, não vou reler e espero que tenham visto o documentário.

Torcato Mendonça
Fundão-ex-Alf.Mil. CArt 2339-Bambadinca (Guiné)

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O SEGUNDO:
Aqui fica uma reflexão minha:
Não sei se hoje é noite de luar mas as imagens ontem transmitidas no programa "Dar a vida sem morrer" da Catarina Furtado, suscitaram-me a sensibilidade e levaram-me a ouvir Moonlight Sonata de Beethoven que recomendo vivamente.
Infelizmente, aquela é a realidade guineense e, julgo, todos nos deveremos ter sentido espezinhados nos nossos íntimos, amarfanhados nos nossos corações, sem que, contudo, esses tão cristãos sentimentos resolvam, por si sós seja o que for.
Aquelas caras daquelas mulheres-meninas;
Aquelas caras daqueles meninos(as) num inqualificável abandono aos mais elementares direitos à saúde;
Aquele médico "louco" que vai batalhando num campo de batalha onde o inimigo é incomensuravelmente mais poderoso;
A ternura que a repórter-embaixadora ia lançando em pequenos carinhos às crianças e às mães sofredoras;
Todo aquele cenário enfim, é demasiado indigno do séc. XXI, e a proximidade que mantivemos em tempos com aquela terra torna-nos mais ávidos de justiça e clamorosos por dignidade humana tão ausente na Guiné.
Em tempos de guerra assiste-se, por vezes, a verdadeiros actos de grandiosidade moral. Porém, são momentos raros pois aquela realidade sobrepõe, as mais das vezes, a preservação da integridade física do beligerante às necessidades primárias das vítimas inocentes.
Fica-me esta reflexão no intuito de provocar outras e outras e outras...

António Matos
Ex-Alf Mil Minas e Armadilhas-CCaç 2790-Bula (Guiné)

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Nota: - o Camarada António Matos esteve em Bula de 1970 a 1972. Também eu lá ia várias vezes, tantas que "estacionei" por lá alguns meses integrado numa Companhia operacional. E já tinha, nesta altura de "estacionamento" 16 meses de permanência na Guiné. Bula era uma zona muito perigosa já em 1964/65. Este camarada chegou lá já cinco anos depois do meu regresso. Nesta localidade, era, ao meu tempo, o comando do BCaç 507 e depois o comando do BCav 790.


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