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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Coisas da Guiné - 41

A minha vida andou para trás! 
14 de Julho de 1963


António Silva, José Ferreira e Augusto Silva, em Bissau
Com efeito não me parece que se adapte melhor título sobre o que a seguir se descreve. E há tantos que não sentem a mínima vontade de recordar factos como este, que, ao mesmo tempo, e posteriormente, por eles passaram. Na realidade faz hoje 54 anos - foi a 14 de Julho de 1963 - que após consultar a minha caderneta militar - não vá esquecer-me (o que não seria nada mau, sinal que não teria ido para os trópicos), embarquei em Lisboa com destino à Guiné, fazendo parte da CCaç. 462, desembarcando em Bissau em 21 de Julho...
Primeiro impacto após o desembarque: o calor e o suor (pela humidade) que incomodava violentamente. Segundo impacto, que ainda retenho, o modo de vida de uma população que, concluí mais tarde, eram os militares que minimizavam alguma coisa do que faltava para a sua sobrevivência.E ainda as salas da escola primária de «Teixeira Pinto», logo à saída de Bissau, que nos deu guarida enquanto a logística se reorganizava. Escassos oito dias depois, lá fomos recambiados para o mato (Ingoré, mesmo juntinho da fronteira com o Senegal, onde cheguei a entrar. Mas isto é outra história que já aqui contada). A escassas dezenas de quilómetros de Bissau (agora não sei, mas para aí cerca de 90 Kms), foi aguentar a deslocação com o calor e a dita humidade, que nos fazia suar as estopinhas, durante quase um dia inteiro!
Falta de comunicações terrestres, atravessar rios larguíssimos - quando a maré estava alta - sem pontes (hoje já há, financiadas pela União Europeia) e que eram atravessados com ligeiras barcaças que se cognominavam de «Jangadas», onde cabia tudo: veículos, pessoal militar, civil, animais, enfim uma democracia total!
Chegados ao local, sem preparação prévia alguma, foi uma desilusão. Não tínhamos nada. Logo no dia seguinte, com o tal calor, foi trabalhar para obtermos o mínimo de condições.
Diz depois a dita caderneta militar: «1965 - Embarcou em Bissau de regresso à Metrópole a 7 de Agosto, desde quando deixa de contar 100% de aumento no tempo de serviço. Desembarcou em Lisboa em 14 do mesmo mês.» Nesta data já passei por baixo da ponte «Salazar», renomeada, como sabemos, «Ponte 25 de Abril», que estava na sua fase final de construção.
'Turista na Guiné, frente ao Hospital Militar, berma da estrada
 de acesso ao aeroporto
Anos mais tarde, memorizei que naquela localidade de Ingoré estiveram Armando Santos, Manuel  da Silva Ferreira Martins (recentemente falecido) e Manuel Coelho de Pinho. Entre outros que de momento não recordo. Cheguei a encontrar Fernando Gomes de Oliveira (radio-montador), que estava no Quartel General, cuja foto já aqui deixei e ainda dois camaradas que estavam no Hospital Militar e que estão na foto abaixo: O António Silva, hoje morador na Alagoa (Águeda), onde casou, filho do sr. Anarolindo da Silva, de Arrancada, que todos conheceram e o Augusto Domingues da Silva, meu companheiro de trabalho na fábrica Amaro, Lda., que apoiava os médicos nas intervenções cirúrgicas do Hospital Militar em Bissau. O António, também no Hospital, foi o responsável pelo refeitório dos doentes. Foi o meu "hotel" durante 30 dias de férias em Bissau.

«Troféu de guerra»
  
Local: Bula. Dinheiro nos ombros, nos braços, nas mãos 
e nos bolsos que, nestes, não se vê. Mas era dinheiro 
em circulação na Guiné. Hoje, coisa rara, andamos todos 
à procura e não se encontra!





domingo, 14 de julho de 2013

Coisas da Guiné - 40

14 de Julho de 1963
14 de Julho de 2013
E lá vão 50 anos!!!
 
À beira da estrada para o aeroporto.
Do lado oposto ficava o Hospital Militar.
É evidente que, por estes números, para quem não conheça ou não saiba, haverá por aí gente a pensar que está, deste lado, um «cota» dos diabos. E é, em parte, uma verdade. Mas a aparência é diferente... obrigado, se o pensou...
Faz hoje precisamente cinquenta anos que, nos cais de Alcântara, me enfiaram, como quem transporta animais, num barco velho, a cair de podre (quase), chamado «Sofala», e me enviaram para a Guiné, onde desembarquei em 21 de Julho de 1963.
Não quero relembrar saudosamente a data. Preferia que não tivesse existido, que não tivesse acontecido. Como a tantas centenas de milhares de jovens que, como eu, naquela data, tinha feito 20 anos em Dezembro anterior. E tantos outros da nossas terras.


Primeiro distintivo a ser usado na Guiné pela CCaç 462,
mandado fazer em Lisboa com a minha participação e de
outros camaradas da Companhia. Passados tempos,
já iam as unidades munidas do seu distintivo próprio.
Mas o acontecimento não pode fazer esquecer momentos de ansiedades, de medos, de riscos incalculáveis, de possíveis situações dolorosas, de sacrifícios, doenças, etc. E que para muitos foi fatal...
Poderia ocupar por aqui muito mais espaço, tentando debitar algumas ténues lembranças, algumas das quais o tempo se encarregou de passar a borracha pelos carrilhões encefálicos.

*****

Do livro «Estranha Noiva de Guerra», de Armor Pires Mota, 2ª edição, Setembro de 2010, Editora Âncora, romance ficcionado, sendo o tema de fundo a guerra na Guiné, respigamos estas parágrafos, que dão uma pequena imagem do que fora vivido há quase cinquenta anos:

terça-feira, 2 de julho de 2013

Tarrafo - Guerra no Pântano

Armor Pires Mota - Guiné 1963-1965

EDIÇÃO FAC-SIMILADA DE “TARRAFO”,
- O ÚNICO LIVRO PROIBIDO DE TODA A GUERRA COLONIAL



No dia 15 de Junho findo, foi o lançamento do livro "Tarrafo-crónicas de um alferes na Guiné", de que é autor Armor Pires Mota, que faz o favor de nos dispensar a sua amizade de longos anos. Fui a Oliveira do Bairro, naquele dia. Primeiro, porque a amizade a isso me obrigava. Depois, porque dos livros do Armor e, principalmente, aqueles que tratam o tema GUERRA COLONIAL são-nos nostalgicamente caros. Não admira, quando calcorreámos aquelas terras vermelhas de pó, lama, suor e sangue no mesmo período - 1963/1965!
E este livro, obrigatoriamente, tinha de ser colocado na estante ao lado dos outros.
Li-o (devorei-o) mais rápido que uma rajada de G3. Porque está escrito em pequenos episódios, e, por isso mesmo, em diário, com datas (logicamente), locais e episódios. Este diário foi publicado no Jornal da Bairrada, para onde o Armor enviava os originais.
Quando regressou decidiu transformá-lo em livro e, como já disse no post de 30 de Abril, foi colocado à venda na Livraria Vieira da Cunha, em Aveiro. Pouco tempo depois, a PIDE apreendeu-os.
Outros exemplares estavam guardados no escritório do advogado Manuel Granjeia e outros ainda foram escondidos no caixão de milho de um amigo. Quando, um dia, o Armor regressava do trabalho, montado na sua bicicleta que utilizava desde a estação de Oiã, onde embarcava e desembarcava para e do trabalho (ia para Aveiro de comboio), encontrou duas pessoas, embrulhadas em gabardines, junto da casa de seu pai.
Já sabia quem eram porque tinha sido alertado por telefone. E lá lhes deu os livros que tinha em casa, deslocando-se depois, os três, numa carrinha, ao escritório daquele advogado. Este, aproveitou para fazer as suas alegações políticas e contra a guerra colonial. Mas teve que lhes entregar os restantes livros. Parece que ficou sem nenhum.
Esta história teve, afinal, um fim feliz, porque alguém conseguiu obter um livro original, todo ele riscado, sublinhado, pelos serviços de censura, com carimbos do Ministério da Defesa Nacional e de Confidencial. Há ainda anotações à margem das frases e dos parágrafos.
Foi uma relíquia, uma satisfação, transformadas, agora, nesta edição fac-similada e que a delegação da Liga dos Combatentes de Oliveira do Bairro ajudou, comemorando, assim, os 50 anos da mobilização do Armor (e minha) para a Guiné.
No regresso, fomos "empilhados" e viemos no mesmo barco, o «Niassa», que saiu de Bissau em 7 de Agosto e chegou a Lisboa em 14 do mesmo mês do ano de 1965.
Deixamos por aqui as digitalizações de um dos diários, que ocuparam quase quatro páginas. Outros episódios, tão ou mais dramáticos que este, estão espalhados ao longo do livro. Os acontecimentos foram mesmo nas datas indicadas ou logo a seguir àqueles. São mesmo filmes (em palavras) de cenas que nunca deviam ter acontecido.
Faça favor de clicar nas imagens para poder ler o seu conteúdo, se o pretender.
 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Tarrafo - Guerra no pântano

Armor Pires Mota - Guiné 1963-1965


EDIÇÃO FAC-SIMILADA DE “TARRAFO”,
- O ÚNICO LIVRO PROIBIDO DE TODA A GUERRA COLONIAL


Armor Pires Mota que combateu na Guiné, entre 1963-1965, vai lançar no mercado, através da Editora Palimage, a edição fac-similada do livro TARRAFO Crónicas de um alferes da Guiné, o único livro de toda a guerra colonial que foi censurado, recolhido pela PIDE e proibido de circular. Edição fac-similada, apresenta, em toda a sua nudez, todas as anotações e sublinhados dos censores, o que faz de Tarrafo, que significa pântano, um documento único em toda a literatura de guerra colonial. Acontece isto nos 50 anos da mobilização do seu batalhão 490 de Cavalaria.
O primeiro lançamento será, no próximo dia 9, 16 horas, na Messe dos Oficiais, na Batalha, cidade do Porto. Presidirá à cerimónia o general Chito Rodrigues, presidente da Liga dos Combatentes e integra-se na Tertúlia Fim do Império. Será apresentador o escritor, historiador e poeta transmontano, João Barroso da Fonte. Entretanto no dia seguinte (10 de Maio) será apresentado em Coimbra, na Liga dos Combatentes, Rua da Sofia, tendo a presidir à sessão igualmente o presidente da Liga, às 15 horas.
 Livro incómodo para o governo e FA  
“Este livro comporta, desde o início da sua escrita, muitas histórias de guerra, páginas escorrendo nervos, gritos, sangue e lágrimas, chagas, cicatrizes, feridos e mortes. Retrata a guerra em toda a sua violência e brutalidade, por vezes, ao pormenor com esta originalidade: era escrito na sequência dos acontecimentos. O que foi uma novidade no jornalismo, quando começou a ser publicado no Jornal da Bairrada (1964). Era uma ousadia, um desafio quase inocente.
Mas a este livro, o primeiro sobre a guerra colonial, escrito por um combatente, foi acrescentada uma outra história, única em toda a literatura da guerra. Após alguns dias sobre a colocação da obra numa única livraria, a Vieira da Cunha, em Aveiro, era incluído no número dos livros proibidos. Havia de ser censurado e recolhido pela PIDE. Foi considerado um livro demasiado incómodo, muito desconfortável para o governo. Afinal, havia guerra. Não escondia nada. Nem os mortos, nem o desânimo e as lágrimas, muito menos as aldeias incendiadas e seus nomes, os bombardeamentos e o tipo dos aviões utilizados nas operações”, reconhece o autor.
    Passados muitos anos sobre a sua apreensão e o 25 de Abri, “eis que, como que, por mera sorte do acaso, o exemplar censurado veio parar às minhas mãos”, realça o autor. Tem os carimbos do Ministério de Defesa Nacional e de “Confidencial”. “Rara é a página que não tem sublinhados a vermelho, no sentido vertical, à margem, ou na horizontal por baixo da palavra ou da frase, considerada corrosiva ou subversiva, no mínimo incómoda. Há também notas a lápis, deixando a impressão de que houve dois censores, qual deles o pior”.

Nota: - O lançamento deste livro também vai ser feito em Oliveira do Bairro, em Junho...

Desculpem qualquer coisinha!...

Pois. Porque desde Outubro de 2012 abandonei este cantinho blogueiro, sem dar cavaco a quem quer que fosse. Foi uma imposição feita a mim mesmo. Terminar um trabalho para voltar aqui.
Terminei e cá estou.
Melhor esclarecendo, terminado não está. Falta o rabo...
Mas já tenho mais liberdade de minutos, de horas, de dias até!
Penso que acertei em cheio e com um bom motivo para recomeçar.
Falando de um Amigo, que esteve comigo na Guiné, em pleno apogeu da guerra colonial, com quem regressei no mesmo barco, o «Niassa». Já lá vão muitos anos.
A postagem que está acima fala disso. Por isso, nada melhor que ficar por aqui...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Coisas da Guiné - 39

O «Flecha» em Angola

Joaquim  Ferreira Pinto em Angola. E dizia ele
no verso da foto: tourada à Manuel dos Santos... olé...
Estas coisas da Guiné nem sempre parecem o que são. E, no caso de hoje, estando «estacionado» na Guiné, dávamos, por assim dizer, um saltinho a Angola. E era assim que o fazíamos:
Em 1963, a juventude de todas as terras de Portugal estava quase toda  «destacada» em terras africanas, «na defesa das suas províncias ultramarinas».
Ora, da freguesia, era fácil saber e contactar companheiros de escola, de brincadeiras, de passatempos (que os não havia), por essas lonjuras africanas, no que de místico e de mistério têm estas terras daquele grande e rico continente.
Foi assim que me veio parar às mãos esta fotografia, de um companheiro de passatempos dos costelos, das pescas ao cesto, dos jogos de futebol no Cabeço Gordo e de outras coisas mais.
Eu na Guiné.
E quem é o companheiro da fotografia? Falta desvendar....
Chama-se Joaquim Ferreira Pinto, é de Aguieira, foi parar a Angola e daqui enviou-me esta fotografia, como outras que tenho em meu poder. E foi através do SPM, que era, naquele tempo, um dos melhores e mais bem organizados serviços postais que os militares possuíam.
Aquele companheiro, que depois foi também emigrante, se não me engano, na Alemanha, e há já uns bons pares de anos que se encontra a residir em Aveiro, por ali próximo da praça do peixe, na freguesia da Vera Cruz.
Em Angola, esteve na localidade, pelo menos identificada no verso da fotografia, de Buela. Isto em 1964. E entre os amigos da tertúlia era conhecido pelo «Flecha». Lembram-se dele?



domingo, 12 de agosto de 2012

Coisas da Guiné - 38

A secretaria versus turismo na Guiné

Penso que já o disse por estes lados que a minha vida da Guiné não foi para 'armar' em heroi. Também não foi assim tão descansada e despreocupada. Admito ser repetitivo. O que é certo é que por lá fiz um pouco de tudo e, como costumo dizer, até turismo...
Participei em operações, em emboscadas (que já também contei por cá), em patrulhas, em guardas às jangadas, principalmente aquela que agora tem uma ponte enorme feita por portugueses dos quais, ainda não há muito tempo, cheguei a contactar com um engenheiro que lá esteve alguns anos na direcção da sua construção. Trata-se de uma obra internacional que fica para contar em próxima historia.
Em cima, Ingoré 1964
Em baixo, Bula 1965
Esta ponte é  chamada a Ponte de S. Vicente, tal como o local de passagem da jangada - que atravessava o rio Cacheu transportando viaturas, pessoas (civis e militares) - que era a nossa tábua de salvação. Para fazer a segurança a esta geringonça, dormi lá algumas noites, no meio do rio, largo e enorme, principalmente quando de maré cheia.
Porque os cursos de água, na Guiné, como se sabe, são quase todos braços de mar e influenciados pelas marés, que lhe dão, quando os barcos por eles passavam maior ou menor calado.
Nste local - que me lembre de momento - também lá devem ter passado muitas vezes o Manuelda Garagem -  Manuel Silva Ferreira Martins - com oficina na Póvoa e ainda  o Armando Dinis Tavares dos Santos, do Carreiro, e com a loja da Cafer em Águeda. Penso que há mais que me sucederam em Ingoré, aquela povoção com muita população, mesmo nas barbas da fronteira com o Senegal. Já lá fui, algumas vezes... pela internet... e revejo como agora está e como era, nomeadamente aquilo a que se chamavam estradas (pior que alguns carreiros que temos por aqui).
Ora, para dizer, que a maior parte do meu tempo foi passado na secretaria, embora em termos militares nada tivesse a ver com a especialidade.
Então, em Ingoré, tive de substituir as funções do 1ºsargento, porque num acidente de jipe teve de ser evacuado para Lisboa. Depois acompanhei o serviço até vir embora, passando por Bula, sendo a secretaria numa casa alugada fora das instalações do aquartelamento. E depois em Bissau. Ajudei o homem da contabilidade (um alferes que não recordo o nome) a fechar as contas do Batalhão de Caçadores 510.
E são estas duas imagens que confirmam a situação. Na primeira, na varanda do edificío do comando, em Ingoré, onde estava situada a secretaria. Em baixo, à porta da mesma, mas  em Bula. Nesta com ar de quem espera o apito para iniciar o trabalho, ou à espera do chefe, que já tinha sido substiuído. Num caso e noutro, estava mesmo com ar de «grande trabalhador».


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Coisas da Guiné - 37

14 de Agosto de 1965

Este local ficava frente ao Hospital Militar 241-Bissau
Eu bem que tinha colocado no calendário do Outlook, deste dia do mês de Agosto, um lembrete, para ver se não me esquecia! E que chatice, ia mesmo passando... conto o que é:
Esqueci-me por que já foi há muitos anos... (desculpa esfarrapada...)
Porque estas coisas nunca esquecem.
A minha juventude, como a de tantos outros, foi «atirada» para África, concretamente para a Guiné. Os documentos daquele tempo que nos «ofereciam» na tropa não mentem, porque escriturados minuciosamente, onde nada faltava.
Então li e reli e a coisa foi assim, segundo o documento:
«1963. Embarcou em Lisboa, em 14 de Julho, com destino ao CTI da Guiné, fazendo parte da CCaç 462. Desembarcou em Bissau em 21 de Julho, desde quando conta 100% de aumento no tempo de serviço.
1965. Embarcou em Bissau de regresso à Metrópole em 7 de Agosto, desde quando deixa de contar 100% de aumento no tempo de serviço. Desembarcou em Lisboa em 14 do mesmo mês».
Aqui fica a efeméride, triste efeméride (enquanto obrigado a ir e a permanecer na Guiné), alegre efeméride, porque iria, finalmente, ser livre (em parte). E lá tive de ir de comboio, um dia inteiro, em 1965, de Lisboa a Campanhã, depois daqui à Régua e para finalizar naquele comboio «horrível», da linha do Corgo, mas agora saudoso, da Régua até Chaves.
Ali chegámos estava o dia quase a acabar. Tivémos de desfilar, como era da praxe, pelas ruas da cidade. Mas até tinham refeição preparada para a malta comer. E local para dormir. Mas qual quê, ninguém ou poucos comeram (eu um deles) e quase ninguém, ou mesmo ninguém lá ficou. O que eu e outros queríamos era chegar a casa. E metemo-nos numa aventura.
Fomos direitos a um táxi, discutidos preços, lá vem um homem trazer-nos ao Porto. Por ruas e estradas que, actualmente, nem o diabo delas gostaria. Lembro-me de ter chegado, com mais outros, salvo erro 5 camaradas, às cinco da manhã a S. Bento.
Aí mesmo, logo que as horas se tornassem convenientes, toca de requisitar bilhete e vir até Aveiro.
Interessante recordar agora, tinha dito à minha mãe e ao meu pai, que chegaria cerca das 17 horas ao apeadeiro de Aguieira, o mais próximo da minha residência, no comboio (o saudoso Vouguinha) que ali passava mais ou menos àquela hora. Isto já no dia 16 de Agosto, porque entretanto ficámos uma noite em Lisboa no Regimento de Engenharia, de 14 para 15 de Agosto. Já nem sei, tal era a ansiedade, porque pouco tempo lá estive. Penso que apareci, como outros, no quartel, de manhã cedo, para o pequeno almoço e para o transporte até Santa Apolónia.
O que é certo é que ainda durante a manhã do dia 16 já estava em Aveiro. O dia 15 foi passado na viagem de comboio até Chaves...
Mas como tinha informado que a minha chegada era àquela hora (17h), fui passear e rever esta bela cidade capital do meu distrito, tão diferente em dois anos de ausência, almocei já não sei onde, e, chegada a hora, lá apanhei o comboio de regresso a casa.
Ia, finalmente, acabar de vez com as preocupações principalmente da minha mãe (e de tantas outras, ao tempo), pois meu pai tinha ido a Lisboa ao Cais de Alcantâra, se não estou em erro.
E assim, foi aquele dia 14 de Agosto de 1965, que terminou no dia 16 por volta das 17 horas.
Que deixou dois anos de marcas, menos incisivas que as de outros camaradas...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Coisas da Guiné - 36

Um poema na Guiné:
ESPERANDO...

Certamente que muitos dos visitadores  hão-de pensar que estou a insistir muito em coisas da Guiné, do tempo da guerra colonial. É natural.
A digitalização que se segue é de um poema, que tem uma história. O seu autor, o ex-Alferes Armando Augusto Geraldes Soares, da Póvoa de Varzim, que foi um amigo, que me ajudou, e muito, na elaboração do «Jornal da Caserna», cuja história, de tantas vezes contada, não vou repetir.
Um dia encontrei um papel que tinha escrito qualquer coisa. Pela caligrafia, que identifiquei com a maior facilidade, e pelo texto, só podia ser daquele militar companheiro de permanências na Guiné.
Achei graça ao conteúdo, nostálgico, como era a nossa vida em terras de África, e o Geraldes mostrou-se bastante surpreendido quando lho mostrei.
É evidente que isto foi escrito por ele num momento de inspiração e então colocámo-lo no «Jornal da Caserna», com as suas expontâneas ilustrações. Veja, leia, aprecie, que vai gostar.
Com sua licença, dedico este poema aos românticos, aos poetas e poetisas que por aí andan disseminados. Clique na imagem e aumente que fica melhor...


sábado, 30 de abril de 2011

Coisas da Guiné - 35

A oração do galo

Para ser breve e usando uma frase que muito se utilizava, principalmente na TV, antigamente, quando se pretendia repetir um programa qualquer, dizia-se: «A PEDIDO DE VÁRIAS FAMÍLIAS....»
Então vou dizer que a pedido de várias pessoas, reproduzo do «Jornal da Caserna», nº 12, Ingoré-Guiné, de Julho de 1964, a oração dita pelo galo, e que cantava assim conforme a digitalização deixa antever, se clicar na imagem e depois a ampliar. Ora faça lá isso, principalmente por parte de quem pediu...

Nota: - Já antigamente metia o pé na argola. Na redacção há erros; "própoia", queria dizer PRÓPRIA. E mais abaixo, aquela muito conhecida frase de origem francesa, não é "Noblisse". É "Noblesse oblige". Não vale a pena estar a fazer a tradução, ou é?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Coisas da Guiné - 34

Jornal da Caserna
Oração do Burro

Para alguns distraídos, o «Jornal da Caserna» era, com o material existente na altura (stencyl, chapilógrafo, etc.) um periódico que fundei na Guiné e teve, em 24 meses, 15 edições.
Retirado do baú de pó e teias de aranha, reproduzo, hoje, um texto «inocente», mas com alguma graça e, também, com algumas verdades.
Era a Oração do Burro.
Cliquem, ampliem e leiam... se quiserem.
Obrigado!


Ilustração de um amigo - o Alf. Armando Augusto Geraldes Soares

terça-feira, 19 de abril de 2011

Coisas da Guiné - 33

A oração do cão

1-Introdução
Nas minhas coisas da Guiné, há aqui muita coisa que me «obrigou» a inventariar e a saber quantos episódios aqui foram publicados, sobre os factos e vivências da minha passagem e permanência, durante mais de dois anos, naquelas terras africanas.
Desta forma, numerei todos os títulos que às Coisas da Guiné dizem respeito. A outros temas e séries já devia ter feito o mesmo e não fiz. Fá-lo-ei logo que possível.
Já aqui contei, mais de uma vez, a história do «Jornal da Caserna». Que na Guiné fundei. Não vou repetir.
Mas dele respiguei esta nota, que acho engraçada (ou sem graça nenhuma, depende dos feitios). Essa nota dizia respeito a uma série, que arranjei não sei onde, e, em cada número, ia colocando uma oração, normalmente com uma redacção concernente ao animal respectivo.

2 - A Oração
Não é para brincar com coisas sérias. Mas para se poder aquilatar daquilo que ao «animal homem» também pode ser adaptado.
Se alguém imaginou e teve a inspiração para apresentar uma redacção (que a memória lhe ditou) deste género, também não pode ser insensível às coias que ao espíritual dizem respeito.
Em vez de estar a prolongar estas desalinhavadas frases, deixo a digitalização da oração do cão... neste mundo da mesma espécie e neste país conturbado.
Ao menos sejamos fieis e leais, como é o cão. E vigilantes...
Para ler clique na imagem, que ela deve aumentar...


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Coisas da Guiné - 30

Sátira com as fotos da Guiné...
...À minha maneira


Em 25 deste mês de Junho, tinha dito que gostava de apresentar algumas fotografias que ainda guardo e obtidas na Guiné, colocando em cada uma delas alguma história satírica.
Essa história, pode não ter graça nenhuma, mas é pelo menos aquela que cada uma das fotos me sugere, inclusivé com o local, as pessoas, os actos que as mesmas representam, etc.
Algumas já estão por aqui.
Para não tornar demasiadamente longa a exposição dessas fotos, ficam aqui algumas delas. Outro trabalho idêntico ainda se poderá fazer com o uso de muitas outras. Eis as primeiras:
Porque há mais!
Como se montava um bom par de cornos. Não era para todos. 

A melhor equipa de basquete em Chaves .

Aqui só há uma hipótese: dois macacos!
(esta raça, e mais algumas, de macacos, gostava muito de «limpar» os pelos)

Utilizando linguagem local: Manga de patacão (muito dinheiro) espalhado pelo corpo
(Foto um dia destes aqui colocada a propósito de uma história de dinheiro que transportava)

É dali que eles vêm... tudo a postos...
(Foto tirada do telhado do aquartelamento de Ingoré. A direcção que aponto - norte - era para o Senegal, ali perto)

Um turista na Avenida de Bissau que ia do palácio do governador, na Praça do Império, até ao cais.
(Há quem saiba. Pode ser que daqui a pouco me lembre. Mas já não sei como se chamava)

Isto é que era um salão de beleza. Equipamento, material, mobiliário. Uma maravilha!

Que guerra... até dava para ir à praia de Varela, próximo do Senegal

Qual é o problema? A malta era limpa e asseada!
(Foto que também já aqui passou a propósito de uma história)

É assim... eu estava aflito com o peso. Agora admito o quanto deve pesar algures
(Foto que já passou por aqui a propósito de uma história)
Não ameaces, se não levas um murro...
(No quartel-general, em Bissau, com o meu amigo Fernando Gomes de Oliveira, que ali era radiomontador)

Isto era um tipo (?) em cima de um monte de sucata, em alto mar, a caminho da Guiné
(Em direcção à Guiné, como todo o ar de maçarico, no navio Sofala)

Um pequeno «burguês militar» de férias, junto de num morro de baga-baga, frente ao Hospital Militar

Estes tipos são do concelho de Águeda, nas traseiras do Hospital Militar.
(O da esquerda e do meio são da freguesia de Valongo. O da direita da freguesia de Espinhel e ainda hoje é músico. Lá era o ajudante da sala de operações.)

Quantos são?... quantos são?... que venham todos
(Já não sei onde isto aconteceu, mas o da esquerda no para brisas, parece que sou eu)

Este tipo não sou eu, porque era muito elegante, junto da bolanha de Ingoré

Um Opel Record e nele um pseudo condutor do governador
(Já não sei de quem era o automóvel, com matrícula do Exército - MG-01-31 - mas este estava no Hospital Militar)


Se à frente desta casa está um tipo, este só pode ser o seu habitante
(Era o palácio do governador da Guiné, Praça do Império)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Coisas da Guiné - 26

O DISTINTIVO DA COMPANHIA

Quando em 14 de Julho de 1963 tive de embarcar para a Guiné, num navio de carga conhecido pelo nome de «SOFALA», ao qual já aqui me referi há uns tempos atrás, não existia nos militares, salvo uma ou outra excepção como, por exemplo, marinha, comandos, força aérea, etc., já determinado superiormente, usarem-se distintivos e coisas semelhantes que lhe emprestassem alguma identidade e particularidade.
É claro que as Unidades Mobilizadoras onde se organizavam as Companhias, entregavam ao respectivo comandante, antes de sair do quartel, em cerimónia própria, o estandarte que não era mais que uma cópia do estandarte utilizado, oficializado e adoptado por essa Unidade Mobilizadora.
No caso que quero mostrar e contar, deixo aqui uma amostra do estandarte da Unidade Mobilizadora. Mas quanto a crachás ou outras insígnias, para serem usadas pelos seus elementos, não era lá muito habitual existirem, principalmente no exército.
Já depois de estar na Guiné, passou-me pela cabeça propor a quem de direito mandar confeccionar tais distintivos. Mas como? Eu não tinha jeito para desenho, não tinha mais nada que não fosse o estandarte que regressou depois com a Companhia em que me inspirasse.
E foi baseado nestes pressupostos que dei a ideia a um camarada de armas, que tinha um dom para o desenho e para a caricatura fora do comum. Com base nessa ideia, saiu o distintivo que está aqui exposto.
É evidente que é elementar que se diga o autor desse desenho, que foi o  1º Cabo 408/63 (identificação numérica usada ao tempo, completamente diferente da que se passou a usar - o número mecanográfico). Nunca mais tive contactos com o José de Sousa Piloto, nem onde reside, nem nada acerca dele.
O desenho foi enviado para Lisboa, a uma casa da especilidade e passados uns tempos lá apareceu a encomenda com os crachás ou distintivos que diferenciavam a Companhia de Caçadores 462 das demais, durante todo o tempo que nos faltava para o regresso e que era ainda bastante para atingir os 24 meses!
Creio que, se não foi a primeira, terá sido uma das primeiras Companhias do Exército a usar, na Guiné, estes distintivos, em plástico, que eram presos por molas no vestuário do braço esquerdo, mas apenas com a farda número um, ou seja, a farda domingueira... pelo menos o calção (ou calça) e camisa, ambas do velho caqui amarelo.
Mais tarde já era vulgar o seu uso por todos os militares com este tipo de distintivos, que lhe davam alguma particularidade, evidência e até identificação.
Reminiscências de 1963, que ainda guardo por cá.

terça-feira, 9 de março de 2010

Coisas da Guiné - 25

Tínhamos, desde há muito, decidido que o que dissesse respeito à Guiné, por onde andamos nos anos sessenta, seria conhecido com o título de «COISAS DA GUINÉ»
Penso que não havia mal algum chamar-se assim. Mas também admito que ficará melhor passar a ser conhecida esta secção como «Curiosidades da Guiné», pois na realidade para todos nós (até para mim) a Guiné era sempre constituída por curiosidades. Por isso, vamos hoje relembrar uma dessas curiosidades daquelas gentes, que chegou a ser publicado no «Jornal da Caserna» (um jornal da CCaç. 462), em Outubro de 1964, com o título:


Hospital Militar em Bissau. Aqui não se faziam partos, porque todos os que, infelizmente, lá davam entrada eram militares. Só muitos anos depois é que passaram a existir mulheres nas Forças Armadas da Guiné, especialmente na Força Aérea, nas fnções de enfermeiras paraquedistas. Os que estão na foto, dois são da freguesia de Valongo e um terceiro da freguesia de Espinhel, do concelho de Águeda. Um deles, natural de Arrancada e o outro do Casainho, eram «funcionários do Hospital»
O PARTO NOS BIJAGÓS
Como sabemos, existem diversas raças de índigenas na Guiné. Cada qual tem os seus costumes próprios e também alguns que sendo comuns a várias outras raças, não deixam por isso de ter certas características que lhe dão individualidade. Muito resumidamente, vamos ver algumas noções curiosas àcerca do parto na raça Bijagó.
A parturiente tanto pode ser uma rapariga solteira (campune) como uma mulher casada (ocanto), como é óbvio.
Tratando-se da primeira, quando está nas proximidades do parto recolhe a casa e manda chamar algumas "mulheres grandes" que possam servir de parteiras.

Uma dessas mulheres, e enquanto a parturiente vai enumerando o nome dos indivíduos com quem manteve relações sexuais até à altura do parto, conserva-se ao lado da cama, tendo na mão um molho de palha a arder, na ânsia de afastar os maus espíritos.
Se a parturiente é uma mulher casada, tal enumeração não se dá, pois se parte do princípio que a mulher é fiel ao marido (?!).
A seguir ao parto o recém nascido é lavado com água do mar, limpo de todas as sujidades e esfregado com óleo de palma. Cerca de três dias depois a mãe é levada a uma praia e lavada com água do mar.
No entanto, o mais vulgar entre as raparigas solteiras (campunes) é a provocação do aborto. Como o nascimento dum filho a coloca numa posição social diferente, embora continue campune, ela prefere resolver o problema da forma mais simples: elimina-o.
Esta resolução, ao mesmo tempo que tira a preocupação à rapariga, evita também problemas ao rapaz se acaso ainda não foi ao fanado.
É que está decidido que os rapazes antes de irem ao fanado não podem ter relações sexuais e admitir a existência de um filho antes da época própria, é admitir uma fraude àquele princípio.
Além disso, todo o filho que nasça antes do fanado deixa de pertencer ao pai, e até à mãe, e passa a pertencer aos pais desta.
Cremos que é apenas nos Bijagós que este costume se segue como o descrevemos.

DOC
(Dr. Ramiro Fernandes de Figueiredo)
(Ex.alf.mil. médico da CCaç. 462-Guiné 1963/1965)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Coisas da Guiné - 24

Vídeo de Aniversário do blogue Camaradas da Guiné


Este vídeo, de acordo com o título que lhe deram, foi montado por camaradas que estiveram na Guiné, como eu. Ele faz parte do blogue hhtp://blogueforanadaevaotres.blospot.com, do qual faço parte como tertuliano (termo muito usado entre nós) e como colaborador. Além de membro da tabanca (Tabanca é a palavra indígena que significa aldeamento, agrupamento de moradias, na nossa linguagem, uma espécie de aldeia). Todos os que fazem parte dele, obedecendo a regras simples de ética, no qual todos, como ex-militares, se tratam por camaradas e por tu. Não há, agora, hierarquias militares, postos militares, e coisas do género. Pertence ao passado. São necessárias duas fotos, uma como militar e outra actual, a unidade militar, os locais da Guiné por onde passou e algumas histórias, de preferência ilustradas com fotografias é o ideal. Por lá estão já algumas dezenas das minhas «estórias» e de outros camaradas que comigo colaboravam. Neste vídeo também lá estou, quase a meio do vídeo, um tipo em cima de um morro de baga-baga alto e que mal se reconhece, por isso mesmo. Chegado a esse local onde estou, basta clicar no vídeo para parar. Deixo esta relíquia para quem tenha vontade de ver. A montagem é excelente e não podia ser mais lento porque os envolvidos também são muitos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Coisas da Guiné - 23

- 4 de Fevereiro de 1961 -
O princípio da guerra colonial


Palácio do Governador em Bissau (Praça do Império)

Hoje, dia 4 de Fevereiro [1961], é uma data que assinala de «forma oficial» o início da guerra colonial, em Angola, em que Portugal se viu envolvido durante 13 anos. Pouco tempo depois foi a vez da Guiné e de Moçambique.
Foram anos duros, que marcou pela negativa toda uma geração de jovens, com repercussões que ainda hoje influenciam muitas vidas e saúde.
Entrei nessas fileiras, donde muitos desertaram, em Janeiro de 1963. Já expliquei isto.
O que é certo é que já em Julho de 1963 desembarcava na Guiné. E durante dois anos, não «sofrendo» muito, mais pela sorte que por muitos outros factores, de lá saí em Agosto de 1965, chegando a Lisboa em 14 daquele mês e ano, tendo o navio passado já por baixo da ponte a que haviam de chamar «Salazar» e em 1974 rebaptizada de Ponte «25 de Abril» que se mantém.
A minha unidade militar (uma companhia), 'dormiu' em Lisboa e, ao outro dia, por volta das sete da manhã, embarca de comboio em direcção a Chaves, onde tinha sido treinada e formada.
O Batalhão de Caçadores 10 (agora denominado de Regimento de Infantaria de Chaves), foi uma das unidades militares que muita gente preparou e «forneceu» para a guerra colonial.
Percebe-se, hoje, porquê, como outras Unidades Militares ainda existentes pelo país. A geografia local, o mato, os trilhos, os caminhos, tudo era propício ao treino de ambientação militar da guerra de guerrilha. Chaves, tinha tudo para a preparação dos militares nestas acções. Aliás, a guerra de guerrilha foi coisa nova que apareceu no mundo (como agora o terrorismo), logo a seguir ao términos da II Grande Guerra e cujo objectivo era a emancipação e autodeterminação dos povos (países).
Este tipo de acções, de manifesta revolta contra o dominador, quando o dominado não tinha possibilidades, recorria a esta via com o intuito de provocar o desgaste, influenciar psicologicamente e «consumir» estas energias, e as energias económicas do dominador. Porque se sabia que, mais tarde ou mais cedo, o dominador iria ceder.
Foi quase o que aconteceu, porquanto as provas e os historiadores e políticos já antes de Abril de 1974 diziam e escreviam (nalguns casos), que as coisas não poderiam durar muito mais, não fosse a sua antecipação ter surgido com a «revolução dos cravos», como ficou conhecido o 25 de Abril de 1974. Inclusivé, na Guiné, passou a ser notório que a guerra com o PAIGC estaria praticamente e irremediavelmente perdida.
Há muitos episódios que confirmam isso.

No meio de tudo isto, muita gente morreu (da nossa freguesia apenas um faleceu em Angola e, pelo que julgamos saber, de doença. Era da Aguieira.) Muita gente ficou mutilada, deficiente e com outras maleitas para a vida inteira.
Da minha companhia, entre cerca de 130 militares, apenas dois faleceram. Um, José Gonçalves Ruas, 1º cabo de minas e armadilhas, de Penude-Lamego, faleceu em 27 de Agosto de 1964, quando próximo de uma localidade junto à fronteira com o Senegal, chamada Sedengal, foi atingido pelos efeitos de uma armadilha que montava, que desarmou e o atingiu mortalmente.
Naquele dia eu não estava em Ingoré. Tinha ido ao comando de Batalhão, a Bula, e lá soube, pelos camaradas de transmissões, o que se tinha passado naquele local. Nesse mesmo dia e ao princípio da tarde, os meus camaradas da companhia, passaram em Bula a toda a velocidade em direcção a Bissau, levando o corpo do infeliz Ruas, como todos lhe chamávamos. Está sepultado ainda, segundo creio, em Bissau, na campa 1020.
O segundo falecimento foi o do 1º cabo atirador, Artur Branco Gonçalves, de Vilarelho da Raia-Chaves, no dia 13 de Outubro de 1964, no Hospital Militar 241, em Bissau, para onde fora evacuado de helicóptero, por motivo de doença. Está também sepultado em Bissau na campa 1108, admito. A doença que o vitimou, embora não tendo a certeza, terá sido uma úlcera gástrica, que, certamente, pelo seu estado, já não foi a tempo de qualquer intervenção cirúrgica.

Esta e outras efemérides, estou certo que não se apagarão, mesmo que desapareçam todos os protagonistas que nela participaram durante aqueles treze anos.
A este assunto voltarei.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Coisas da Guiné - 22

As indecências necessárias

Hoje estou para estas coisas. Não porque me apeteça, mas apenas para manifestar alguma revolta e indignação, passados tantos anos, por aquilo que vivemos, sofremos, sacrificamos, para dar naquilo que todos sabiam: EM NADA. Melhor, iria dar naquilo que era lógico e que pouco tempo antes dos anos anteriores a 60, as outras nações já tinham iniciado. A autodeterminação das suas colónias, com o império inglês a fazer marcar o passo.
.....
Até o escriturário cava com uma enxada. Era capaz de estar a fazer a piscina
.....
E tudo isto apenas por causa desta fotografia.
Fui eu que a tirei. E o que ali se passa, quero que fique aqui à disposição dos internautas, para confirmar que as condições de vida eram estas que algumas e muitas outras imagens que andam por aí podem mostrar para confirmar.
E isto não era uma situação para nos queixarmos. Ou seja, era considerada uma situação de muita, ou altíssima, condição para poder viver sem problemas. Outros viveram pior, como autênticos animais, metidos em buracos.
É isso mesmo. Um grupo de camaradas meus, todos eles ainda meus conhecidos (se os vir agora, devem estar todos um pouco mais gordinhos, de certeza. Mas nunca mais nos encontramos), em grupo (fazia parte da segurança) a tomar o seu banhinho numa espécie de ribeira ou nascente, ali mesmo próximo de Bula, local este para onde se ia a pé. Portanto não era longe. Nesta altura já tínhamos saído de Ingoré.
E era assim... como todos sabem. Dentro do aquartelamento poderiam existir algums condições, mas não me lembro. Porque ali era mais cómodo, limpo e a água era melhor... para a pele. (?)
Pronto, aqui fica uma amostra de uma outra faceta de vida da Guiné.
E daqueles jovens!

Coisas da Guiné - 21

O DIA DO EMBARQUE

Já o disse aqui. Repito-o sem entusiasmo…
Embarquei naquele local conhecido de todos, em Lisboa, no dia 14 de Julho de 1963.
Já pouco tenho gravado em memória esse dia. Quase que não sei como foi. Talvez psicologicamente anestesiado, quase não dei pela minha entrada no barco. Não tinha ninguém a despedir-se de mim na Rocha do Conde de Óbidos, ou por ali perto, mais umas centenas de metros para baixo ou para cima.
Dessa anestesia, ficou-me o desejo, lembro-o hoje, que poderia ter evitado isso…não sei. Quase perdi a percepção dessas coisas. Há pelo menos uma que fiz. Nunca apresentei o documento comprovativo das minhas habilitações literárias ao tempo do ano de 1963, porque tinha receio de ir para a tropa muito tarde e de ir cair a sítios que, naquele tempo, seriam considerados de maior risco, estando, na linha da frente, Angola.
......
Maçarico para a Guiné, a bordo de um monte de sucata
......
Na Guiné, as coisas não estariam tão más quanto isso, pois nesta terra vermelha de sangue, suor e lágrimas (Armor Pires Mota), a guerrilha estava em «preparação» e «organização». E não me enganei. Embora já existissem zonas de constante actividade guerrilheira.
Voltemos ao princípio.
E lá entrei, qual carga de gado vivo, num barco que se chamava «Sofala».
Como era preciso cumprir as ordens de Salazar (porra, sempre este nome a vir à baila, quando falamos da nossa juventude passada, toda ela, sob o síndrome da guerra colonial) que dizia «rápido e em força». Nem que fosse preciso tratar as pessoas como meros animais, que entravam num cargueiro sem condições para transportar o que quer que fosse, quanto mais pessoas!!!
Eram porões e mais porões, num cargueiro enorme, “carregado” de milhares de homens uniformizados militarmente, qual quantidade abismal de carne para canhão, ali metidos, tendo ainda, por baixo desses porões, uma quantidade enorme de outros com viaturas, armamento, máquinas e munições, muitas munições.
Quer isto dizer que aquele barco, o «Sofala» que nos levava, com pouca preparação, para um distante desconhecido e estranho, ia carregado até mais não poder.
E partimos. Iniciava-se, naquela altura, a construção da ponte, que nem o nome me atrevo a pronunciar e que lhe deram após terminada. Não é que o actual “baptismo” da mesma me seja acomodatício. Gostaria que um crânio mais iluminado lhe tivesse atribuído outra “nomenclatura”.E lá fomos. Penso que saímos de tarde, ou terá sido de manhã? Não, não estou a brincar, já não me lembro do que deveria ter sido o dia em que me ficariam gravados todos os momentos e acontecimentos.
Sei é que no mesmo dia, ou no dia seguinte, todo aquele monte enorme de ferro em que eu ia, deitado numa enorme fonte de perigo, sujeito a ir pelos ares e ficar feito em frangalhos, se é que os frangalhos se pudessem ver, avariou. E estivemos à deriva, em alto mar, em balanços constantes, até ao meio da tarde. Raro era aquele que não «deitava a carga ao mar». Eu fui um deles.
Avaria consertada, lá continuamos até à foz do Geba.
Já se cheirava às águas do Geba e das bolanhas, quando fomos sobrevoados por alguns aviões, que certamente vinham ao nosso encontro e, como já estávamos perto da costa, pela «valiosíssima» carga que transportava, não fosse o diabo tecê-las.
Como outros, aquela abantesma, chegado a Bissau, teve de ficar aproado no meio do Geba. E de imediato a «descarga» começara…
Fomos transportados para a Escola Primária “Teixeira Pinto” próxima do depósito de água, no Pilão, e ali permanecemos uma semana. Já aqui contei este pormenor…
Depois, «ferramenta» nova (G3) e lá partem para Ingoré.
Era o momento ideal para terminar aqui esta estória. Mas não o quero fazer, sem evidenciar mais uma vez, as miseráveis condições em que fomos transportados naquele famoso, velho, quase apodrecido navio… no qual cheguei a ir ver a casa das máquinas. Eram indescritíveis as condições de trabalho daquela gente.
Mas também vi peixes voadores, e «mar chão» que nunca tinha experimentado! Que grande coisa! O barco deslizava qual automóvel em tapete de alcatrão!

J.M. Ferreira

Coisas da Guiné - 20

O MACHO DESEJADO

Velho nas giras balantas, de coxas musculosas – mas já flácidas -, mascando o tabaco em pó guardado em pequena extremidade de chifre de vaca, barba crescida e já entremeada duns laivos prateados, com o chapéu de esteira quadrangular na cabeça, lá estava o velho SAMUD olhando o capim que crescia em alvoroço em bolanha fértil.
Com aquela idade já pouco podia fazer.


Morro de baga-baga, na Guiné, alto e forte, feito por formigas. O «pássaro» lá no alto, sou eu

Ano após ano esperava em vão o filho que sonhara; sentado no ourique empapado e negro, imaginava-o troncudo e enorme que rasgava a lama fecunda com a precisão de um veterano e o entusiasmo de rapariga em noite de batuque.
A cada sulco, a cada golpe, o velho abanava a cabeça numa aprovação muda e amarga. Acariciava a barba requeimada por anos de cachimbadas apreensivas e sôfregas.
Como lhe tardava a nascer um filho, como ele o desejava! Chuvas e chuvas de canseiras, lavrando e suando; beijando a terra que lhe daria o arroz, na mira de pecúlio para aumentar as cabeças de gado. Trabalhador e honesto jamais aparecera no Posto por furtar uma vaca.
Luas e luas, na época do seco, enganando a fome, fugindo da loja onde a aguardente de cheiro activo e adocicado tentava um santo; para que não se endividasse, para não ter de entregar, na hora da colheita, toda a produção a título de pagamento.
Quantas dores não recalcara, silencioso e grave no dia que lhe roubaram três vacas amarelas e possantes que o seu suor, a sua fome, o seu isolamento haviam pago com moedas de sangue!
Por fim casara. Não tivera de mendigar mulher, de porta em porta requerendo prazos, firmando contratos. Aparecera, um belo dia, com um bom partido. Pudera escolher, fazer-se exigente, impor condições. De nada lhe servira.
Ano após ano esperava em vão o filho que sonhara. Nem o jambacosse, nem as viagens que a mulher, só, de povoação em povoação fizera, nem os mèzinhos, nem as sovas, nem as pragas.
NADA.
Vezes sem conta arrumara as alfaias e as esteiras, pronto para a mudança de terra. Mas aquelas bolanhas férteis e negras, incansáveis, agarraram-no sempre, e sempre o acorrentaram à grilheta eterna.
Arranjara outra mulher. Desta vez, porém, pagara-a bem paga – que a notícia da esterilidade correra toda a Administração de Posto e lhe assacaram a culpa. Trouxera-a mimada, enchera-a de panos e lenços, de aguardente e tabaco. Fechara os olhos, complacente, à sua malandrice. E não ouvira – nunca as pragas e as queixas, as revoltas espectaculosas que a primeira fazia, em gritos furiosos que toda a povoação escutava.
Um filho. Ele mais não queria que um filho, um macho valente que juntasse aos seus braços novos músculos, aos arados novas mãos. E o filho tardara. Sofreu a injúria das piadas mordazes, a afronta dos desrespeitos, a dor de novos roubos – que homem sozinho é arado sem cabo.
Pedira apoio, gritara, ameaçara. Naté, aquele porco que deixou a mulher morrer no mato, depois de partir, empunhara o terçado quando lhe pediu ajuda e fizera-o calar. Estava bêbado o cão!
Tudo passava pelo seu espírito, sentia-se só, muito só e tristonho. DAVATAMBE, ainda a resfolgar, sem fôlego, borracho como um porco dissera a contorcer-se num riso rouco ao passar junto do velho SAMUD: - “Então a tua Cumba não fica prenhada?!...”Samud emudecera. Como aquele cretino adivinhara o que pensava! E, aumentava a sua dor que mastigava e engolia silencioso. Rolou-lhe uma lágrima pelo rosto e olhou distante até aos confins do capim selvagem que lhe invadia as terras da bolanha outrora férteis.
E ali ficou parado e mudo, olhando estupidamente para a água muito clara, para a canoa encalhada, para a sua Cumba que se aproximava indiferente e sorna.

“OKEY”
Pseudónimo de Ramiro Fernandes Figueiredo
Ex. Alf Mil Médico da CCaç 462
Guiné – Ingoré, 11 de Abril de 1964
Um conto integrado no «Jornal da Caserna» (nº 5)
Periódico daquela Companhia

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