sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Coisas da Guiné - 21

O DIA DO EMBARQUE

Já o disse aqui. Repito-o sem entusiasmo…
Embarquei naquele local conhecido de todos, em Lisboa, no dia 14 de Julho de 1963.
Já pouco tenho gravado em memória esse dia. Quase que não sei como foi. Talvez psicologicamente anestesiado, quase não dei pela minha entrada no barco. Não tinha ninguém a despedir-se de mim na Rocha do Conde de Óbidos, ou por ali perto, mais umas centenas de metros para baixo ou para cima.
Dessa anestesia, ficou-me o desejo, lembro-o hoje, que poderia ter evitado isso…não sei. Quase perdi a percepção dessas coisas. Há pelo menos uma que fiz. Nunca apresentei o documento comprovativo das minhas habilitações literárias ao tempo do ano de 1963, porque tinha receio de ir para a tropa muito tarde e de ir cair a sítios que, naquele tempo, seriam considerados de maior risco, estando, na linha da frente, Angola.
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Maçarico para a Guiné, a bordo de um monte de sucata
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Na Guiné, as coisas não estariam tão más quanto isso, pois nesta terra vermelha de sangue, suor e lágrimas (Armor Pires Mota), a guerrilha estava em «preparação» e «organização». E não me enganei. Embora já existissem zonas de constante actividade guerrilheira.
Voltemos ao princípio.
E lá entrei, qual carga de gado vivo, num barco que se chamava «Sofala».
Como era preciso cumprir as ordens de Salazar (porra, sempre este nome a vir à baila, quando falamos da nossa juventude passada, toda ela, sob o síndrome da guerra colonial) que dizia «rápido e em força». Nem que fosse preciso tratar as pessoas como meros animais, que entravam num cargueiro sem condições para transportar o que quer que fosse, quanto mais pessoas!!!
Eram porões e mais porões, num cargueiro enorme, “carregado” de milhares de homens uniformizados militarmente, qual quantidade abismal de carne para canhão, ali metidos, tendo ainda, por baixo desses porões, uma quantidade enorme de outros com viaturas, armamento, máquinas e munições, muitas munições.
Quer isto dizer que aquele barco, o «Sofala» que nos levava, com pouca preparação, para um distante desconhecido e estranho, ia carregado até mais não poder.
E partimos. Iniciava-se, naquela altura, a construção da ponte, que nem o nome me atrevo a pronunciar e que lhe deram após terminada. Não é que o actual “baptismo” da mesma me seja acomodatício. Gostaria que um crânio mais iluminado lhe tivesse atribuído outra “nomenclatura”.E lá fomos. Penso que saímos de tarde, ou terá sido de manhã? Não, não estou a brincar, já não me lembro do que deveria ter sido o dia em que me ficariam gravados todos os momentos e acontecimentos.
Sei é que no mesmo dia, ou no dia seguinte, todo aquele monte enorme de ferro em que eu ia, deitado numa enorme fonte de perigo, sujeito a ir pelos ares e ficar feito em frangalhos, se é que os frangalhos se pudessem ver, avariou. E estivemos à deriva, em alto mar, em balanços constantes, até ao meio da tarde. Raro era aquele que não «deitava a carga ao mar». Eu fui um deles.
Avaria consertada, lá continuamos até à foz do Geba.
Já se cheirava às águas do Geba e das bolanhas, quando fomos sobrevoados por alguns aviões, que certamente vinham ao nosso encontro e, como já estávamos perto da costa, pela «valiosíssima» carga que transportava, não fosse o diabo tecê-las.
Como outros, aquela abantesma, chegado a Bissau, teve de ficar aproado no meio do Geba. E de imediato a «descarga» começara…
Fomos transportados para a Escola Primária “Teixeira Pinto” próxima do depósito de água, no Pilão, e ali permanecemos uma semana. Já aqui contei este pormenor…
Depois, «ferramenta» nova (G3) e lá partem para Ingoré.
Era o momento ideal para terminar aqui esta estória. Mas não o quero fazer, sem evidenciar mais uma vez, as miseráveis condições em que fomos transportados naquele famoso, velho, quase apodrecido navio… no qual cheguei a ir ver a casa das máquinas. Eram indescritíveis as condições de trabalho daquela gente.
Mas também vi peixes voadores, e «mar chão» que nunca tinha experimentado! Que grande coisa! O barco deslizava qual automóvel em tapete de alcatrão!

J.M. Ferreira
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