sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A história local

As Meninas Mascarenhas
O livro - IV
......
O apontamento anterior terminou com o barco atracado à margem direita do rio Vouga, no Carvoeiro, junto ao Penedo. Dizia o Dr. José Joaquim da Silva Pinho: «Do Carvoeiro até ao sítio do Rodo fomos numa singradura. Era uma maravilha essa linda manhã de 15 de Janeiro (faz agora anos, porque esta cena pertencerá, talvez, ao ano de 1847, já que antes tinha falecido o Morgado do Sobreiro, Joaquim Mascarenhas de Mancelos Pacheco), o céu azul, o sol brilhante, as águas do rio límpidas (poderá afiançar-se que, naquele tempo, não estariam como estão hoje), o Vouga descendo na sua pureza imaculada, entre montanhas, as montanhas cobertas de murtas.
D. Ana e as órfãs saíram da proa. Olhavam para as serras de granito, talhadas a pique e estavam absortas. O espectáculo era soberbo.»
......

Capela de Santo Estêvão - Brunhido

De seguida, o narrador explana as suas vistas pela natureza envolvente, pelas brincadeiras e risadas das crianças, que cortavam flores, admitindo que os Bandeiras estavam lomge e tinham perdido, decerto, o seu trilho. A refeição ao ar livre «foi uma festa, o ar temperado e livre, o apetite inexcedível.» Passaram para a outra margem, subiram a escarpa e refugiaram-se numa gruta donde se avistava tudo e os fugitivos não seriam notados. «Não me esqueci mais desse sítio selvagem, por onde hoje passa, dominando o Vouga, que acompanha em tantas sinuosidades caprichosas, a nova estrada de Aveiro a Viseu. Muitas vezes sulco aquele rio na minha pequena bateira, leve como uma gaivota, cheia de redes e de fisgas, para as pescarias do poço de S. Tiago, e, sempre que passo junto da caverna antiga, lá vou, em romagem de saudade, recordar a um tempo as horas benfazejas e atribuladas decorridas nesse calmo dia ao lado de dois anjos adorados e errantes e de uma santa senhora sacrificada ao amor da sua família.»


Junto da gruta tomaram a refeição do almoço (no livro diz-se jantar, na sua forma antiga e rural), com uma farta fogueira assaram-se castanhas, que acharam deliciosas, e foi a sua sobremesa. Conversava o narrador - Dr. José Joaquim da Silva Pinho - e D. Ana sobre os incidentes que já tinham passado, em que estavam envolvidos e prevendo ainda o que poderia acontecer.
De repente ouviu-se uma voz que ecoava e ia soando cada vez mais perto, até que a ouviram mais distintamente e reconheceram voz amiga.
- Silva!...
- Escura!... respondia com toda a força dos seus pulmões robustos, como diz.
Era a senha e contra-senha combinada.
- Silva!...
- Escura!... continuava o narrador a gritar a plenos pulmões.
Pouco depois ouviu pronunciar claramente o seu nome.
- Ó sr. dr. Pinho!
- És tu, José Branco?
- Sou, sim, senhor!
«Saí da gruta, desci à beira do rio e vi na margem oposta o José Rodrigues Branco, de Brunhido, um valente da velha guarda, que vinha à nossa procura, por entre cerros e alcantis, seguindo o curso do Vouga, saber do nosso destino.»
E narra-se ainda: «Em Aguieira havia grandes cuidados, temendo um naufrágio pela impetuosa corrente do rio. Joaquim Álvaro e os irmãos mandavam aquele pajem a saber dos fugitivos. Falei para o outro lado, informando o Branco de que estávamos bem e que fosse dizer a Aguieira que nada nos faltava. O José Branco partiu à desfilada, galgando os ásperos caminhos com as boas novas que levava.»

*****

Este capítulo da narrativa fica por aqui. O que pretendemos mostrar foi o que se passou com o tal homem de Brunhido, José Rodrigues Branco, que desconheço quem terá sido naquele lugar. Também não cuidei em saber ou pesquisar. O que importa é demonstrar o que se passou, o que era a vida e as possibilidades dos contactos existentes... nenhuns, a não ser mandar recados ou mensagens... por pessoas...
Como esta parte da história se refere a Brunhido, fica a ilustrar uma imagem deste lugar, perfeitamente actualizada, como se compreende.
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