sábado, 10 de outubro de 2009

Eleições de antigamente

A secção ZERO



O primeiro recenseamento que tornava o sistema permanente (logo, o recenseamento era definitivo, desde que as pessoas não mudassem de residência e quando o faziam havia um mecanismo de controle), foi organizado e posto em execução, no cumprimento da legislação que a isso obrigava, na altura em era presidente da Junta de Freguesia o sr. José Lopes Falcão. Este foi o primeiro presidente da Junta eleito em eleições livres.
Eu ocupava, naquele tempo de mil novecentos e setenta e qualquer coisa (77/78), a função de secretário, a quem competia, com a ajuda (imagine-se o trabalho) de outras pessoas a elaboração do recenseamento. Foram algumas semanas, principalmente aos domingos, a recensear definitivamente toda a população, para efeito de ogrnaização dos cadernos eleitorais. Era tesoureiro, o José Simões Fernandes, já falecido.
É evidente que aquilo que estou a contar, é para se perceber o ambiente que se vivia naquele tempo à volta das eleições. Uma particularidade; as eleições realizavam-se, como agora, nas escolas de Arrancada. Sempre foi consensual não só a centralidade do local, mas as condições que as salas ofereciam. As primeiras eleições democráticas foram ainda realizadas nas antigas salas, que foram demolidas. No final da campanha, já era tradicional que o último local a ser "enfeitado" pelo pessoal das respectivas candidaturas, para colar cartazes, era a escola. Era também fatal, que as pessoas das várias organizações concorrentes às eleições, também lá se iriam encontrar.
Não havia problemas, ao contrário do que as notícias agora propalam com abundância. Todos tinham local, espaço e as áreas a ocupar com publicidade política chegava para todos, culminando este ambiente com o empréstimo ou troca de ferramentas e colas uns aos outros para terminar algum trabalho e cujo material estaria a escassear a alguns. Até as escadas eram usadas por todos alternadamente.
Depois vinha o dia das eleições. Nesse dia, e por isso é que intulei este post de «A secção zero», entre as salas (antigas) havia um compartimento de arrumos. Então, quer da parte da manhã, quer da parte da tarde, esse compartimento era designado pela «secção zero» e servia para se «votarem» uns tintos e umas chouriças ou outra especialidade carnívora na urna corporal (estômago) e era assim passado o dia das eleições, até ao fecho, em amena e democrática petisqueira.
Uma última curiosidade: no fim, após o encerramento e papéis postos em ordem, era o presidente da secção que tinha de ir levar o material a Águeda (durante alguns tempos), mas a maior parte do pessoal que tinha feito parte das mesas das Assembleias de Voto, reunia-se no Jacinto, e lá tínhamos uma jantarada à maneira, culminando o final com as tradicionais contas à moda do Porto...
Sem desprimor, porque nalguns casos uma parte destas coisas lá se vai mantendo, penso que eram outros os tempos e outras maneiras de ser... não sei dizer de outra maneira, mas parece que havia outra transparência e aproximação humana e camaradagem, sem descuidar os deveres e as responsabilidades.
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