sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coisas da Guiné - 18

O regresso
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Por acaso tenho presente todas as datas da minha prestação de serviço militar obrigatório. Mesmo que não as tivesse, a caderneta militar daquele tempo faz a história de todo o percurso que dizia respeito ao seu titular, como é do conhecimento geral.
Fui incorporado em 28 de Janeiro de 1963. Embarquei em Lisboa em 14 de Julho de 1963, no navio Sofala com destino ao CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné), fazendo parte da CCaç 462, tendo desembarcado em Bissau em 21 de Julho.
Embarquei de regresso em 7 de Agosto de 1965, a bordo do navio Niassa, tendo desembarcado em Lisboa em 14 de Agosto.
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Depois há outras pequenas histórias que não faz mal nenhum partilhar, quanto a estas viagens. Comecei pela última (o regresso), embora tenha na forja a da partida para a Guiné, sobre a qual, a 40 e tal nos de distância apetece-me (agora) comentar. Digo entre parêntesis «agora», porque antes não podia, e se o fazia cruel destino me esperava.
Como já disse aqui várias vezes, cheguei à Guiné e estivemos (todos) "alojados" numa escola primária em Bissau, chamada Escola Teixeira Pinto, próximo do Pilão, junto do depósito de água. Ali permanecemos uma semana. Após isso, organiza-se uma coluna auto e lá fomos em direcção ao mato. Armas G3 novas em folha, creio que as primeiras armas automáticas a serem utilizadas. Destino, Ingoré.
Um tormento para lá chegar, a menos de 100 Kms. de distância! Hoje não acontece isso, pela existência das pontes de João Landim e de S. Vicente. O resto da Companhia é distribuído por Sedengal, S. Domingos, Susana e Varela. Uma área enorme. Não vou agora falar de cada uma das localidades. Uma região sempre junto da fronteira com o Senegal. Nesta região, com algumas alterações pelo meio, aqui estivemos durante dezasseis meses. «Na pousada do sossego!»
Na altura em que se começava, com aquele tempo, a pensar na contagem decrescente para o regresso, enfiam-nos na zona de Bula, onde a Companhia que substituimos ficou reduzida a quase metade entre mortos, feridos, hospitalizados, evacuados, etc. (é só para demonstrar o quanto sofreu aquela gente, cuja companhia já não lembro qual era, mas tenho aqui próximo (no concelho) um camarada que dela fez parte, era condutor e chegou a andar pelo ar com uma mina na sua GMC, na estrada Bula-Binar-Bissorã). Todos se interrogavam o porquê, com aquela «idade» de Guiné, terem-nos metido num local daqueles, quando até aí nunca tivemos de dar tiros contra o que quer que fosse.
Pouco tempo lá estivemos. De Bula, fomos ocupar a área compreendida entre Có, Ponate, Jolmete e Pelundo, onde não havia nada que permitisse um mínimo de condições (como outros). Tivemos de fazer tudo a partir do zero.
Passados uns meses, lá fomos novamente de tralha às costas para Mansoa. Para aqui já eu não me desloquei, porque era a permanência para a espera de regresso. Como tinha sido 'aproveitado' para «administrador» da Companhia, como já referi, essa administração era feita a partir de Bissau e então aqui permaneci até ao dia da chegada do Niassa. Inclusivamente estive com o alferes da área administrativa a fechar as contas do BCaç 507, que entretanto tinha terminado a comissão de serviço.
Fiz a lista identificativa do pessoal a embarcar, (que ainda guardo) assinada pelo capitão Luís Manuel das Neves e Silva, que substituiu o Cap. Mil. Jorge Saraiva Parracho, entretanto regressado, entregue nos vizinhos da Amura (QG), e como estava na secretaria, mantinha-me sempre de ouvido alerta para saber quando chegava o barco e quando podíamos entrar.
Um dia chega uma circular a anunciar o facto. Fui o primeiro a ler e fiquei assustado porque não via na lista a identificação da minha Unidade Militar. Tenho um assomo de lucidez e viro a página. Porra, no verso lá estava a CCaç 462... Era a última da lista... que alívio!
Recebida a ordem de embarque, fui o primeiro da Companhia a entrar no navio, após o almoço. Durante a tarde começaram a chegar os meus camaradas de Mansoa. E quando todos iam para a farra, em Bissau, comemorar a felicidade de regressar e gastar os últimos "pesos" que tinham no bolso, desafiaram-me a ir também. Respondi negativamente, porque dali já ninguém me tirava.
Efectivamente foi assim. Já dormi no barco nessa noite até à saída no dia 7 de Agosto de 1965. Quer dizer que terei entrado no navio Niassa, que me transportou até Lisboa, no dia 6 de Agosto de 1965.
Para recordar, acima o postal do Niassa...

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