segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As Meninas Mascarenhas

O Livro - XXVII

Já vimos como as Meninas sairam de casa do cidadão francês, Pedro Ransam e a artimanha que ludibriou tudo e todos, sem que ninguém tivesse notado nas trouxas da corpulenta criada do Dr. Lima. Aquele cidadão admitiu a hipótese que a sua habitação viesse a ser invadida, pelo que mandou fechar as portas pondo-lhes trancas de ferro.
Os Bandeiras, pessoas de prestígio e bastante influência, montaram no Porto uma teia de muitos agentes, espiões, mais ou menos espertos e activos. E um deles chamava-se Francisco António de Resende, médico, dedicado à política, pessoa de recursos e alguns expedientes, natural de Aveiro, cujo círculo representou algumas vezes no parlamento.
O cidadão francês, Pedro Ransam, estava em casa quando os soldados e a polícia invadiram a rua de Belomonte.
Perante a quase certeza que tinha de que iria ser «visitado», como antes se diz, aparecia a polícia que bateu fortemente à porta e após Ransam ter perguntado quem era, uma voz do exterior ordenava que abrisse em nome da lei, proclamado pelo chefe da diligência. E Pedro Ransam respondeu da forma que vamos transcrever, por se entender delicioso, com alguma malícia e cinismo, o que proclamou deste modo:
- respondeu Ransam acentuando a linguagem no seu sotaque estrangeirado.
«Em nome da lei! Não pode haver lei neste país que obrigue uma pessoa, que não praticou crime algum, a abrir a porta da sua casa a qualquer agente policial que não venha munido de um mandato legal de legítima autoridade pública. Pelo menos, é o que se pratica em todas as nações civilizadas.»
O Chefe da Diligência não se conformou, concordando que isso seria assim, mas tinha de abrir e já, initmando-o a abrir a porta. Pedro Ransam, em tom decidido e seco, disse: «Não abro».
Claro que aquele chefe utilizou formas intimidatórias, afirmando que se não abrisse ao bem, abria ao mal, por serem as ordens que tinha.
Pedro Ransam contra-argumentou fazendo notar que lhe estavam a violar o domicílio pela força. E afiançava que não o fariam. Uma voz ordenou o arrombamento da porta. Nesse momento, Ransam ergueu um pau tricolor da sua janela com a bandeira francesa e solenemente clamou:
«Se arrombarem as portas da minha casa, hão-de pisar primeiro o meu corpo que vou envolver na bandeira sagrada da minha pátria.»
Os pretendentes ao arrombamento ficaram suspensos perante esta ameaça. E Ransam acrescentou:
«Digo que não permitirei a entrada em minha casa sem uma ordem expressa do meu cônsul. Tragam mandado do cônsul francês, e esta casa poderá ser patenteada a quem a quiser ver.»
O chefe desta diligência era o acima dito Dr. Resende. Apesar de este ser um homem de coragem e inteligente, percebeu a delicadeza da situação e demonstrou alguma hesitação. Do que se passasse, poderia resultar um conflito internacional e isso não era conveniente e devia ser evitado.
Após alguma conferência da força policial, lá foram à procura do cônsul francês no Porto para obter o mandato. O Dr. Resende, representante dos Bandeiras, tios das Meninas, acompanhado por um polícia encarregou-se deste passo diplomático.
Mas o cônsul não estava em casa. Foram procurá-lo a vários locais da cidade que era hábito frequentar, encontrando-o após aturado e moroso trabalho. Localizado foi logo contactado dizendo-lhe o Dr. Resende o que se passava e o que pretendia, nomeadamente com todos os pormenores da atitude tida pelo cidadão francês, pedindo-lhe o mandato para entrar em casa deste.
Começou logo o cônsul por responder que não sabia com quem tinha a honra de falar. E o Resende lá esclareceu quem era e que representava a mãe das duas órfãs roubadas. Mas o cônsul fez ver que não era com um simples pedido verbal que ele iria tomar uma resolução numa situação tão melindrosa, e apenas a pedido do Dr. Resende. Este respondeu que por isso é que ia acompanhado de um agente policial.
E o cônsul acabou com esta insistência, dizendo que estas questões diplomáticas tratam-se de modo muito diferente. E acabou aqui esta diligência, quando o cônsul informou que não podia passar a ordem que o Dr. Resende solicitava. Este compreendeu que era impossível qualquer insistência, retirou-se cumprimentando o representante francês e dirigiu-se de imediato para o governo civil, onde Pedro Bandeira esperava pelas suas sobrinhas.
Que não apareceram, claro...
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