terça-feira, 25 de agosto de 2009

Coisas da Guiné - 9

A morte à frente dos olhos!




Piloto de helicópteros, só para a foto... andar com os pés no chão, é bem melhor!
As velhinhas e saudosas avionetas “Auster” eram uma maravilha para transportes rápidos nas guerras coloniais. A “Dornier” ainda era melhor. Com mais bojo de capacidade, mais espaço, nem que fosse sentado na base que servia de apoio entre o pavimento do aparelho (era o chão) e a altura em que sobrevoava.
Todos nós temos algumas ‘estórias’ com estes aparelhos da força aérea. Eu tive alguns e num deles parece que não chegava ao destino tal foi a reacção que o “gregório” me provocou, que mais parecia sair também o estômago…. precisamente porque o piloto passou a viagem a fazer piruetas, subindo e descendo constantemente em picanços de arrepiar. Isto de Bissau para Ingoré. E lá íamos largando o correio, através do postigo lateral, junto dos respectivos aquartelamentos, que não tinham pista para aterrar (de terra batida, é bem de ver)nomeadamente no dos meus camaradas de Sedengal.
Um dia surgiu a necessidade de ir ao quartel-general a Bissau, fazer qualquer coisa que não recordo. O que não esqueço foi o que aconteceu antes de chegar a Bissau, melhor dizendo, quase não chegava a sair de Ingoré.
Havia uma serração próximo do aquartelamento. Certo dia apareceram lá pessoas responsáveis pela empresa proprietária da serração, numa avioneta que, talvez, nem fosse uma “Auster” e que apenas tinha capacidade para três passageiros.
O comandante da companhia contactou essas pessoas no sentido de nos permitirem essa deslocação. E quem havia de ir, eu, «o administrador» da companhia. Penso que ia tratar de algum problema daquela área.
A preocupação foi saber qual o peso que eu transportava. Não podia levar armas, cartucheiras, munições, nada… apenas uma pasta, talvez com meia dúzia de documentos.
Feitas as apresentações, lá entramos na avioneta. Como certamente é desnecessário esclarecer, nada percebo de avionetas ou veículos do género. Entrei, avioneta a funcionar, fomos ao início da pista, coisa que outros pilotos com veículos idênticos não faziam, ouvi estranhamente uma aceleração muito anormal, avançamos em grande velocidade em direcção à estrada que dava de frente com a pista e, na berma do lado contrário, algumas moranças nativas.
Em Ingoré, esta pista, de terra batida, ficava junto à estrada para S. Vicente, a pouca distância daquela localidade. Continuemos…
O aparelho deslizava, mas nada de fazer esforços para levantar voo. E eu via a aproximação da berma da estrada e das referidas moranças a uma velocidade vertiginosa. E lá pensava eu que ficávamos esborrachados ali. Até que, numa espécie de golpe rápido, a avioneta levanta, faz roncar o seu motor por cima das moranças e toca de ganhar altura.
Não vos digo nada, mas foi um susto pior que alguns tiros em terra firme… quase borrei as calças ou calções…
Mas, lá em cima, já com perfeita noção que o pior tinha passado, começo a verificar que quem pilotava, ia em direcção, não de Bissau, mas um pouco a nordeste pelo que, passado pouco tempo, estaria no Senegal. Ia na direcção de Barro, um pouco “inclinado” para a fronteira, portanto lá iria entrar, mais perto ou mais longe, sem licença de quem quer que fosse.
Quando olhei a paisagem e vi as vias que eu conhecia, só me restou fazer uma coisa simples; bater no ombro de quem pilotava (eu ia no banco traseiro) e, por gestos, dizer-lhe que a direcção a tomar era a estrada que estava por debaixo e atrás de nós, melhor dizendo, na direcção do nosso lado direito. É que lá dentro fazia tamanha barulheira que não se contactava com ninguém.
O homem viu que ia mal, mudou de direcção em ângulo recto e começou a orientar-se pela estrada que ia de Ingoré-S.Vicente-Bula-Bissau.
Chegamos, finalmente e em pouco tempo, a Bissau. E só aqui é que me apercebi que aquele aparelho, excluindo, talvez, a bússola, não tinha um mapa, um rádio, nada… isto porque, para aterrar no aeroporto, deu uma volta e aguardou que da torre de controlo, através de sinalética com bandeiras, no passadiço exterior (não sei como se chamam as áreas de varandas que rodeiam estes equipamentos), lhe fosse dada autorização para aterrar.
Aos meus visitadores só posso dizer uma coisa: isto pode não ter graça nenhuma ou interesse algum, mas, a mim, foi a experiência que me provocou um cagaço tal que nem quero recordar…
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