quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Casa do Povo de Valongo do Vouga - 8

A inauguração-II

Novas Instalações da Casa do Povo, utilizadas por vários serviços há pouco tempo

Dizíamos no final do post anterior que Sousa Baptista, perfilado, diante da bandeira nacional do Brasil, agradeceu profundamente emocionado à pátria brasileira o seu acolhimento e o seu sucesso. Mais ou menos assim...
 
A partir daqui, apenas podemos mencionar os discursos, que, pela retórica do que está escrito na «Soberania» enveredavam pelo mesmo tom, quase todos evidenciando estar-se a viver uma «revolução». Mas esta não tinha cravos… (passe a piada).As frases, os termos, a vivacidade, a inflamação colocada na redacção da notícia era o corolário disso mesmo. O regime que se vivia naquele tempo.
As referências ao Sub-Secretário de Estado, ao governo que ele personificava, ao Chefe da Nação e ao Presidente do Conselho, eram uma constante nos discursos.
Falou em primeiro lugar o Presidente da Câmara de Águeda, Joaquim de Melo, que terminaria assim segundo o correspondente da «Soberania»: “No final, o sr. Presidente ergueu calorosos vivas ao sr. General Carmona, Dr. Oliveira Salazar, Sub-Secretário das Corporações, Governador Civil, ao povo de Valongo do Vouga, etc., vivas que foram vibrantemente correspondidos.”
 
Esta a parte inferior da página da «Soberania» que completa a digitalização do post anterior
 
A seguir falou o sr. Conde da Borralha. «O seu patriótico discurso foi, igualmente, muito aplaudido. Tomou então a palavra o sr. Joaquim Soares de Sousa Baptista, que pronunciou um belo discurso, sendo, no final, calorosamente aplaudido.» Isto, no meu entender, é de pouca relevância naquilo que devia ser dado ao ilustre orador. Ou seja, era necessário conhecer algo mais do conteúdo do seu discurso.

Reparemos nesta particularidade da reportagem: «O sr. Sub-Secretário das Corporações fez a saudação nacionalista ao sentir-se alvo das ovações da numerosa e selecta assistência, que pejava por completo o salão. Lá fora, o público seguia, ansioso e interessado o desenrolar da sessão solene, escutando por intermédio de alto-falantes, os discursos proferidos.»
Um ilustre Valonguense, agricultor, natural de Fermentões, que muitos de nós conheceu, usou de seguida da palavra. Foi António da Silva Magalhães, que falou em nome dos pequenos agricultores.
Também não podia deixar em claro o discurso de um proeminente Valonguense, ilustre e erudito escritor, Arménio Gomes dos Santos, inspector escolar que «iniciou em seguida o seu discurso. Sóbrio, cheio de conceitos, formoso na exposição, nele foi posta em evidência a necessidade da intervenção do governo na organização económica do país. O orador referia-se ao desequilíbrio que provocaria no meio social português os lucros excessivos e miséria degradante. E a reforçar o seu conceito aponta a «balbúrdia do volfrâmio».
Não podemos deixar em branco este pormenor do Inspector Gomes dos Santos: «Cita a propósito, um caso muito edificante, ocorrido em Viana do Castelo. Um volframista adquiriu uma pena de tinta permanente por 400$00; e, quando o comerciante lhe deu os parabéns por poder adquirir objecto tão útil e de tanto valor, o homenzinho respondeu ingenuamente:
- Ah! Mas eu não sei escrever…»
E continuou o Inspector Gomes dos Santos: «O nosso povo tem andado ao acaso. Está o Governo da Nação empenhado na solução do problema. Para os meios rurais criou as Casas do Povo, que são uma das bases seguras do sistema corporativo.» Enumerou as vantagens que destas Casas advêm para os proprietários e trabalhadores. Rematou o seu discurso tecendo justíssimo elogio à obra do sr. Sousa Baptista e de sua virtuosa esposa, que tão largamente vêem praticando a Caridade, mitigando a fome de tantos lares, proporcionando trabalho a famílias inteiras, construindo escolas, igrejas, fontes, etc. - «Uma obra grandiosa e de vasto alcance social!» - exclamou, reconhecido, como filho de Valongo que é. Calorosa salva de palmas abafou as suas últimas palavras.»
A encerrar discursou, como seria de esperar, o Dr. Trigo de Negreiros, «ilustre Sub-Secretário das Corporações.» Não vamos aqui transcrever o muito que está descrito no Jornal «Soberania do Povo» de 4 de Julho de 1942, porquanto a ideia base era, naquele tempo, transmitir a doutrina do regime político então vigente. Mas terminamos com esta transcrição: «E S. Exª, voltando-se para a numerosa assistência, disse: - Habitantes de Valongo! Não percais nunca da vossa memória o nome do signatário desta doação.»
E os habitantes de Valongo não perderam mesmo a memória do nome do doador…
E mais havia a dizer. Mas por agora terminamos.
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