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sábado, 12 de junho de 2010

A Junta de Freguesia na história - 44

Um facto histórico sobre baldios 

Panorâmica no Vouga entre a planície e a serra

Na última acta que aqui transcrevemos, fazia-se menção às necessidades da freguesia e que a Junta só tinha possibilidades de as realizar com a união e o esforço de todo o povo de Valongo. Por isso ficou deliberado que se faria uma sessão extraordinária. Essa sessão realizou-se no dia 16 de Fevereiro de 1913 e a ela assistiu um grande número de pessoas. É disso prova a transcrição que a seguir se faz. E em que deu essa reunião? A resposta está na redacção da acta.

«....os quais se constituíram em sessão extraordinária, conforme a convocação feita na última sessão, para tratar dos baldios.
E aberta esta sessão pelo referido presidente, depois de lida, aprovada e assinada a acta da sessão anterior, foi de novo exposto ao numeroso auditório ali presente, o motivo da reunião ali efectuada extraordinariamente neste dia, ficando resolvido, por proposta do referido presidente João Baptista Fernandes Vidal, elaborando-se uma representação com um abaixo assinado por todos os cidadãos que o quizessem fazer, sendo da freguesia ou tendo nela interesses a defender, a fim de pedir que a administração dos baldios da freguesia fosse entregue à respectiva Junta de Paróquia, - proposta esta que foi muito aplaudida e unanimemente aprovada por todo o povo presente. Em seguida e ainda por proposta do mesmo presidente, foi nomeada uma grande comissão para cuidar do assunto e que foi agregada à Junta de Paróquia, composta dos cidadãos: - José Correa de Bastos, Artur Martins Pereira, Álvaro de Oliveira Bastos, Fernando dos Santos Ferreira Estimado, João dos Santos Ferreira Paula,, Abílio Augusto dos Santos, Adjuto Fernandes d'Oliveira, Joaqui Luis Ferreira de Castro, Joaquim de Arêde, João da Fonseca Morais, Joaquim Morais, Augusto Marques Nogueira, José Martins Saraiva, Pedro Fernandes Vidal, Manuel Casimiro de Bastos, Joaquim d'Oliveira, José Gomes da Fonseca, Ernesto Gomes da Silva, José Ferreira Paula, Agostinho Gomes, Pedro Luis Fernandes da Silva, António da Fonseca Vidal e Júlio Francisco Corga.
Por fim foi deliberado que as sessões ordinárias continuassem a efectuar-se na casa da Escola para o sexo masculino d'Arrancada, como até aqui.
Ficou também assente que a Junta de Paróquia e a Comissão acima mencionada poderão agregar a si todos os indivíduos que acham conveniente, para tratar do assunto versado nesta reunião.»

*****

E assim termina esta sessão, cujo propósito principal era congregar vontades para que os baldios fossem entregues à administração da Junta. A este caso se refere, em 1947, o prof. João Baptista Fernandes Vidal, numa nota histórica sobre os baldios (mais tarde conhecidos por foros), quando foi aprovado o primeiro Código de Posturas da Junta de Freguesia, que aqui já referimos. Por isso é que ele refere que abaixo-assinados, representações e outros actos esbarravam sempre com aguma dificuldade de ordem legal, que terminou com uma ideia brilhante e muito simples; a compra pela Junta, à Câmara, dos baldios.
Hoje, a essa imensidão de hectares de terrenos e árvores não teve a interferência e apropriação, como aconteceu noutras freguesias, dos Serviços Florestais do Estado, que muito recentemente muita tinta fez correr, nomeadamente nos meios de comunicação social. De uma equipa de reportagem da Soberania do Povo, tivemos o previlégio de fazer parte, mesmo antes de Abril de 1974, quando calcorreávamos os trilhos e caminhos das serras da freguesia do Préstimo. O «chefe» dessa equipa foi Armor Pires Mota, que deu origem a um seu livro, que recebeu o título, como as reportagens feitas semanalmente, de «O Préstimo a caminho de Lisboa».

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Gravar a história

A história das placas


Há umas semanas atrás, fiz aqui um apontamento sobre as placas e a história que as mesmas podem conter e transmitir. Uma dessas placas foi a de Joaquim Soares de Sousa Baptista, que em 1935 foi colocada numa das capelas laterais da Igreja Paroquial. Como diz a placa, ali ficou gravado que a referida capela foi construída a expensas suas.
Dizia também, que para além da lápide sobre o órgão de SMI o Duque de Bragança, há uma outra, muito mais recente que está num local discreto e "meio escondido" logo no lado direito da entrada principal da igreja. Essa placa, que agora fotografamos e aqui trazemos diz o que a mesma transmite e que se pode ler com muita facilidade e clareza.
A mesma marca uma outra data na vida deste templo paroquial e que diz assim:

RESTAURAÇÃO
FEITA COM A AJUDA DE DEUS
COM A COLABORAÇÃO DO POVO
E DOS AMIGOS
1984 - 1989


Esta placa pretende assinalar as obras de conservação e restauro a que o templo da igreja paroquial foi sujeito durante este período de tempo. Era pároco o Pe. António Ferreira Tavares e é dele a autoria da redacção daquelas palavras. Por sinal enquadradas perfeitamente no espírito do que foi realizado. Não vale a pena dizer as coisas de outro modo. Foi assim, e pronto.
Essas obras, resuma-se, tiveram incidência na cobertura, que já permitia a invasão de humidades e água, do restauro dos principais altares, do tecto, da capela-mor, do pavimento e dos bancos, isto para resumir.
Porém, hoje, ao visitá-la, faço a comparação de que as obras de restauro da família Sousa Baptista, em 1935, tiveram uma vida de cerca de 50 anos, após os quais se realizaram estas em 1984. Mas passados cerca de 25 anos, já são visíveis deteriorações graves, ao nível das madeiras e dos dourados que, nalguns locais, se estão a transformar, por efeitos estranhos, ficando, nalgumas zonas, em vez de dourado, estãos os mesmos a adquirir uma acentuada e, para mim, estranha cor preta.
Não somos especialistas, nem estamos aqui para apontar ou resolver coisas de que não percebemos, tanto mais que certamente os actuais responsáveis conhecem. Por isso, não existe intenção, com tais observações molestar as boas acções e boas intenções das pessoas. Nem tão pouco chamar a atenção. As obras de conservação e restauro, no tempo que medeia desde as últimas, é relativamente curto. Porque necessita, a breve trecho, de uma atenção minuciosa para que não se deteriore ainda mais.
Repito: que não sejam levantadas erradas interpretações sobre o que acabo de expôr. Apenas se reproduz o que vimos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A história local

As Meninas Mascarenhas
O livro - XXI

Após o aviso para comparecerem no Governo Civil - Dr. Joaquim Álvaro e o Dr.Silva Pinho - reuniram-se, este e o administrador de Gaia, tendo-se lembrado de vários expedientes, tendo ambos optado por um alvitrado pelo Dr. Silva Pinho.


Um aspecto da Praça da Batalha, há muitos anos, no blogue Atuleiros

Chamaram o secretário, Carneiro, já citado anteriormente e o Dr. Silva Pinho ordenou-lhe:
-Escreva, sr. Carneiro.
-O que é que hei-de escrever? - rematou.
-O que eu lhe vou ditar, finjindo que sou o administrador de Gaia.
O secretario sentou-se, pegou na pena e foi-lhe explicado que era um auto, devendo começar pelas palavras de estilo nestes documentos.
Então o que tratava este auto? Era um documento, assinado por várias pessoas, pelo qual o administrador relatava uma ocorrência, de que todos ficavam cientes como intervenientes e provando os factos relatados. Era a descrição que não vamos agora repetir, dos factos passados desde Avintes até Gaia, dizendo que foram presos o Visconde de Aguieira, tutor das Meninas Mascarenhas, o Dr. Silva Pinho, porque não eram portadores de passaporte, mas cuja identificação e comportamento insuspeito de todos, lhe tinha sido abonado pelos cidadãos Alves Souto e Francisco Veloso da Cruz, de Vila Nova de Gaia, e que estes afiançavam que o «bacharel Joaquim Álvaro se dirigia à referida cidade com as duas Meninas suas tuteladas, a fim de entrarem num colégio de educação.».O secretário Carneiro, no fim, ergueu-se entusiasmado com a peça jurídica do Dr. Silva Pinho e deu-lhe um apertado abraço pela habilidade com tinha sido redigido. O administrador sorria agora. Obtidas as assinaturaas daqueles dois intervenientes, lá foram ao Governo Civil que, na época, por ficar numa casa antiga, a Casa Pia, não se dizia «ir ao Governo Civil», mas «ir à Casa Pia». E foram muito mal recebidos, logo que chegaram, pelo dito Governador que nem esperou nenhum cumprimento e a interpelação surgiu imediata e brusca:
- Sr. administrador de Gaia, chamei-o aqui para o obrigar a apresentar as Meninas Mascarenhas que teve em custódia em Vila Nova. Onde estão essas Meninas? Diga onde estão e não admito desculpas.
O administrador ficou pálido. Aí percebeu o Dr. Silva Pinho que era o momento de intervir, porque o administrador hesitante, confuso, praticamente envergonhado, não conseguiu esboçar uma explicação.
O Dr. Silva Pinho pede licença para dar um esclarecimento. E o Governador pergunta:
- Quem é o senhor?
O Dr. Silva Pinho diz que é um bacharel formado em Direito e que acompanhou as duas órfãs e o seu tutor até à cidade do Porto e que queria informar «o nobre governador civil do Porto» das razões do seu procedimento, uma vez que também fora intimado para estar ali. Respondeu o Governador:
- Pois fale lá então o sr. bacharel!...
O Dr. Silva Pinho usou e abusou da sua oratória e lá conseguiu convencer o governador que não havia crime algum no que estava a ser feito, pois tais factos estavam pendentes no tribunal da Relação, sobre um despacho do juiz de Tondela e o que esse tribunal disser é o que se vai cumprir, rematou o Dr. Silva Pinho.
E do que foi dito, podia prová-lo, pois o administrador, o que fez é o costume em condições idênticas. E pediu para ler o auto, que por si próprio tinha sido escrito na administração do concelho.
Convém esclarecer que o Governador tinha o título de Visconde (de Valongo, coincidência), que mais tarde havia de ser atribuído também a Joaquim Álvaro, mas de Aguieira.
O Governador manifestou-se esclarecido, dizendo que se era um negócio pendente em tribunais, estes que decidam como for de justiça. E terminou dizendo:
- Podem retirar-se.
E lá voltaram a Vila Nova, nome da localidade, hoje cidade, muito usado no livro, que, parece, o seria também em meados do século XIX. Não era chamada de Vila Nova de Gaia. E as aventuras não terminam já... porque senão não tinha piada nenhuma...

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Junta de Freguesia na história - 43

Os limites da freguesia

Ainda não há muito tempo em que, de vez em quando, se debatiam os limites das freguesias, originando, nalguns casos, algumas divergências, principalmente entre autarcas, quer antes, quer depois de 25 de Abril.
As delimitações das freguesias estão perfeitamente identificadas, cartograficamente, nas Câmaras Municipais, mas, em outras situações, essas delimitações apareciam escritas ou reduzidas aos respectivos marcos, em tudo seguindo a tradição e a lei quanto a estas matérias.
O rio Marnel é citado a constituir os limites da freguesia

É por isso que trago aqui este factor curioso e interessante das delimitações da freguesia de Valongo do Vouga, que passaram a constar no Código de Posturas da Junta de Freguesia de Valongo do Vouga, aprovado em 1947. E trata deste assunto logo no artigo 1º que se passa a transcrever.

«Artigo 1.º - O território desta freguesia de Valongo do Vouga, limita com as freguesias de Águeda, Trofa, Lamas, Macinhata e Préstimo.
§ 1.º - A demarcação com as freguesias de Águeda, Trofa, e Lamas é feita por uma linha divisória conhecida e mutuamente por todos respeitada.
§ 2.º - A divisão com as de Macinhata e Talhadas é formada por uma linha que liga marcos de granito, colocados em pontos de referência, por onde passa a referida linha.
§ 3.º - A quando da divisão com a das Talhadas ficou assente, por acordo de ambas as partes contratantes, como consta do respectivo auto por todos assinado, que ficasse considerada de logradouro comum das duas freguesias, uma faixa de terreno de cerca de 80 metros de extensão para cada lado da Corga do Pereiro, para bebedouro e apascentação dos respectivos gados. Da margem esquerda essa faixa é formada pela largura que vai da linha dos marcos à corga. Da margem direita, a largura é a mesma. Dentro desta zona ou área são iguais os direitos dos povos de Valongo e Talhadas, quanto a logradouro de gados.
§ 4.º - A divisão com a freguesia do Préstimo é determinada por uma linha que tem os seguintes pontos de referência: - Pelo sul o rio Marnel, desde o extremo da freguesia, a Oriente, até alturas do moínho do Cabo; daqui atravessa o rio para Sul e segue peloCabeço do Mouco; aforado de Ernesto Gomes da Silva, na Fonte da Feira, pelo Nascente; estrada; pinhal de Manuel Lisboa; Cabeço da Trofa; Cabeço do Vale das Perdizes, junto ao terreno de cultura de Júlio Domingues; Cabeço do Junqueiro, atravessando terrenos de cultura de herdeiros do Arcanjo; Vale das Taxas; Cabeço do Vale das Taxas; Cabeço da Igreja, por Nascente; Almas da Maçoida e, finalmente, Troviscal, onde existe um marco de pedra vermelha.»

No final do enunciado no § 4.º, existe uma nota de roda pé, com o número (1), que também se transcreve:

«Para esta demarcação foram já comprados os marcos de granito, que estão sob a guarda de José Luiz Ferreira, herdeiros, de Adosferreiros de Baixo.»

Estes elementos seriam motivo de alguns comentários históricos, que fariam «esticar» muito este post, mas há um que refuto importante. O artigo 1.º, que é a transcrição acima feita, tem, quanto a mim, uma lacuna, porque refere que o território da freguesia limita com as freguesias ali descritas. Penso que esta descrição deveria, tecnicamente, referir os limites de todas as freguesias e só depois é que faria a descrição particular entre cada uma delas. Omite a freguesia das Talhadas e só a seguir é que a ela se refere, com as suas particularidades, pois mais existem com a freguesia do Préstimo e esta não foi omitida na descrição dos referidos limites. Penso que se percebe o que devia ter sido feito na altura... mas não há mal de maior que faça agora alterar as coisas...

A história local

As Meninas Mascarenhas
O Livro - XX

Quando em 27 de Maio findo aqui deixamos o último apontamento sobre esta história, que, recordamos, se realizou uma edição, em livro, pelo jornal «Valongo do Vouga» então existente em 1984, de que foi director o Padre António Ferreira Tavares, dizia-se que o Dr. Silva Pinho, autor da narrativa inserida naquele livro, manifestava alguma liberdade da opressão em que se tinha envolvido. Poderia deduzir-se, pela manifestação, que tinham acabado ali os problemas.
E descreve que quando viu as Meninas desembarcarem na Ribeira, do lado oposto onde se encontrava (V. N. Gaia), sentiu-se bem consigo mesmo como que aliviado de um infinito sobressalto e de muitas preocupações, pelo que, naquele momento, o que queria era uma refeição e um bom sono.
Naquele tempo as hospedarias em V. N. Gaia eram muito sujas, quase repugnantes e a única que se aceitava, mesmo assim, era a hospedaria da Mariana, ao Cabeçudo, onde ele já se havia alojado em Novembro anterior. Pediu o almoço e um quarto. Fosse como fosse, o que queria era dormir um longo sono reparador, que lhe faltava há muito. Deitou-se e adormeceu imediatamente.
Mas entretanto foi violentamente sacudido por um tropel de gente, fazendo muito barulho, que o acordou, era meio dia. E ouviu distintamente as palavras «agarra, está preso», e espavorido levantou-se quando dois homens, fingindo-se serem misteriosos desconhecidos o agarraram e abraçados a ele soltavam estridentes gargalhadas.
Eram o Dr. José Maria (governador de Gaia) e o seu secretário Carneiro, que lhe pregaram esta partida. Depois da euforia conversaram e separaram-se ficando de se encontrarem depois de jantar.
De tarde começou a correr um boato que duas Meninas roubadas tinham entrado escondidas na cidade do Porto sendo procuradas pela polícia. No dia seguinte os jornais matutinos davam a notícia do rapto de duas órfãs que se verificou em Aveiro, por cavalheiros da indústria, com a conivência do administrador de Gaia. Estava tudo descoberto, cogitava o Dr. Silva Pinho e a polícia já se movimentava às ordens dos Bandeiras.
Seriam dez horas da manhã, quando o Dr. Silva Pinho passava a entrada da hospedaria, para se encontrar com o administrador, quando um beleguim surge e o intima bruscamente a apresentar-se no governo civil ao meio dia. Perante este inesperado acontecimento dirigiu-se a casa do administrador, encontrando-o pálido e abatido. Ele tinha recebido também um aviso para lá comparecer à mesma hora e julgava-se já perdido, porque a sua demissão seria certíssima.
Vamos ver o que aconteceu...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Coisas da Guiné - 26

O DISTINTIVO DA COMPANHIA

Quando em 14 de Julho de 1963 tive de embarcar para a Guiné, num navio de carga conhecido pelo nome de «SOFALA», ao qual já aqui me referi há uns tempos atrás, não existia nos militares, salvo uma ou outra excepção como, por exemplo, marinha, comandos, força aérea, etc., já determinado superiormente, usarem-se distintivos e coisas semelhantes que lhe emprestassem alguma identidade e particularidade.
É claro que as Unidades Mobilizadoras onde se organizavam as Companhias, entregavam ao respectivo comandante, antes de sair do quartel, em cerimónia própria, o estandarte que não era mais que uma cópia do estandarte utilizado, oficializado e adoptado por essa Unidade Mobilizadora.
No caso que quero mostrar e contar, deixo aqui uma amostra do estandarte da Unidade Mobilizadora. Mas quanto a crachás ou outras insígnias, para serem usadas pelos seus elementos, não era lá muito habitual existirem, principalmente no exército.
Já depois de estar na Guiné, passou-me pela cabeça propor a quem de direito mandar confeccionar tais distintivos. Mas como? Eu não tinha jeito para desenho, não tinha mais nada que não fosse o estandarte que regressou depois com a Companhia em que me inspirasse.
E foi baseado nestes pressupostos que dei a ideia a um camarada de armas, que tinha um dom para o desenho e para a caricatura fora do comum. Com base nessa ideia, saiu o distintivo que está aqui exposto.
É evidente que é elementar que se diga o autor desse desenho, que foi o  1º Cabo 408/63 (identificação numérica usada ao tempo, completamente diferente da que se passou a usar - o número mecanográfico). Nunca mais tive contactos com o José de Sousa Piloto, nem onde reside, nem nada acerca dele.
O desenho foi enviado para Lisboa, a uma casa da especilidade e passados uns tempos lá apareceu a encomenda com os crachás ou distintivos que diferenciavam a Companhia de Caçadores 462 das demais, durante todo o tempo que nos faltava para o regresso e que era ainda bastante para atingir os 24 meses!
Creio que, se não foi a primeira, terá sido uma das primeiras Companhias do Exército a usar, na Guiné, estes distintivos, em plástico, que eram presos por molas no vestuário do braço esquerdo, mas apenas com a farda número um, ou seja, a farda domingueira... pelo menos o calção (ou calça) e camisa, ambas do velho caqui amarelo.
Mais tarde já era vulgar o seu uso por todos os militares com este tipo de distintivos, que lhe davam alguma particularidade, evidência e até identificação.
Reminiscências de 1963, que ainda guardo por cá.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eclesialmente

Profetas sem mordaça

Tal como acontece todas as semanas, no jornal diocesano «Correio do Vouga» (opinião), D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro, costuma ali mencionar alguns escritos opinativos de sua autoria. Com a qualidade e competência que lhe é reconhecida, as suas opiniões são sempre cáusticas, mas concretas. São de discernimento simples, porque a vida só a complica quem tem vontade de a complicar. E sucessivamente por aí adiante...
Desta feita, o título e o tema é aquele mesmo que está antes. Profetas sem mordaça, que pode consultar onde está assinalado.
Dado o facto de ser leitor quase assíduo destas opiniões de D. António Marcelino, tenho de acentuar algumas passagens que ali se encontram a marcar o cunho pessoal de uma pessoa que sempre olhou de frente os problems dos outros, da sua vida, das consequências, nunca olhando a meios para afirmar o que, para todos, é concreto e correcto.
Porque como «A vida nem sempre foi fácil para os profetas. Perseguidos, amordaçados, calados, apedrejados, eles remam sempre contra a maré. A consciência da responsabilidade nunca os deixou sucumbir ante as dificuldades. Proibidos de falar, respondem, convictos e decididos: "Não podemos é ficar calados".
E a seguir o que considero serem os mais marcantes pensamentos sobre estes profetas, diz assim, D. António Marcelino:
«Ser profeta não é para os ambiciosos de poder, os obececados por carreiras vistosas, para os que só se ouvem a si próprios. Só para os que cultivam um ideal elevado, têm uma personalidade forte, estão marcados pelo sentido do dever, são humildes e corajosos.
Os profetas incomodam sempre o poder, tanto o civil como o religioso. Jogam fora do sistema. Não o canonizam nem o favorecem. Os guardiães do sistema não gostam de quem levanta problemas, denunciam mazelas, aponta caminhos novos. A gente do sistema quer ficar na história, sonha e prepara o pedestal da sua estátua. Os profetas olham o futuro dos outros, sonham uma sociedade mais justa e fraterna, resistem ao tempo.»

Originais e sábias palavras que assentam quem nem a luva, como se costuma dizer, em muitas passagens da nossa vida. E até da minha, que pouco incomoda aos outros, mas da qual também já fui profeta naqueles termos.
E afirmo com veemência e verdade, que não fui profeta da desgraça. Mas de tudo o que ali consta, já esteve pendente na minha cabeça, e na própria pele, com todas as consequências, inclusivé as de assédio, com resultados e consequências atrozes e demasiadamente prejudiciais na minha carreira desta vida que fenece.
Este é o caminho, as provas e os espinhos que Deus coloca na nossa estrada para nela caminhar. E não desisto nem cultivo ou sou possuidor de outro sentimento. Percorrerei essa estrada... custe o que custar! Mas sempre fiel àqueles princípios, nem que para isso sinta o sofrimento da pele, da carne, dos ossos... como já aconteceu.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Junta de Freguesia na história - 42

O Cemitério



Já em 1947, ou até antes desta data, como vamos ver a seguir, o caso do cemitério e do seu alargamento é posto em causa no próprio Código de Posturas, aprovado naquele ano e durante muito tempo em vigor, pelo menos até 1974 e alguns anos seguintes.
O Capítulo VIII, a partir do artº 39º, do Código de Posturas trata da regulamentação do cemitério. Não vou transcrever as diversas posturas regulamentares que ali constam quanto ao que ao cemitério dizia respeito, nomeadamente as taxas, construções, alinhamentos e outras questões, mas apenas fixarmo-nos no que uma nota de roda-pé faz questão de salientar. No artº 43º, § único, existe esta redacção: - Na fixação do alinhamento ter-se-á sempre em conta não só a estética, mas ainda o futuro alargamento do cemitério. (1)
Aquela nota (1), remete-nos para a seguinte redacção, em roda-pé, da autoria do prof. João Batista Fernandes Vidal.

«Se aqui tivesse imperado o espírito de bairrismo a pugnar pelos justos interesses da freguesia (em vez da delação, da inveja e do ódio político mal-sofrido, de alguns, que se uniram à inépcia acomodatícia da grei, para se mancomunarem com a injustiça e a mesquinha ambição de estranhos) e todos tivessem formado barreira em volta do nosso projecto de alargamento do cemitério (já lá vão bons trinta e tantos anos) não seria preciso agora novo alargamento. Infelizmente os homens da freguesia não o quizeram compreender assim, deixando perder uma ocasião como outra não volta a aparecer e nós, por falta de apoio do povo, tivemos que ceder. As consequências estão à vista: a necessidade de alargar de novo o cemitério. Mas como e para onde? Que respondam agora os causadores do mal feito. A nós, resta-nos a consolação de termos cumprido o nosso dever em benefício da freguesia. Se mais não conseguimos, não foi nossa a culpa. Valia a pena contar a história; mas, como é um pouco longa e muita gente ainda dela se deve lembrar, abstemo-nos de repeti-la.»

Não temos elementos que esta redacção, um tanto enigmática, possa clarificar de outra e melhor forma. Mas podemos afiançar, pela experiência vivida, que um dos últimos alargamentos do cemitério, para o lado nascente, terá ocorrido nos anos 50, séc. XX. Mais tarde volta a ser alargado, com toda aquela extensão que está adjacente do lado norte, em todo o seu comprimento, iniciada no mandato de António Simões Estima, nos anos 80, séc. XX, e que eu, na qualidade de secretário, também naquela década, participei na sua conclusão. Inclusivé a organização urbanística (chamemos-lhe assim) da sua implantação foi de minha autoria e do meu colega do executivo, António Manuel Portela dos Santos.
Ficamos sem saber as verdadeiras e justificativas razões que o prof. João Batista Fernandes Vidal tinha ou viveu naquele tempo para se referir assim a algum sector da sociedade Valonguense que terá obstado ao alargamento do cemitério. Fica este registo para a história...

Memórias

A fonte da Veiga


No lugar da Veiga, mesmo no que era o centro do lugar, onde me parece que existiu um cruzeiro, na convergência de duas ruas, uma que seguia em frente para o alto da Veiga, Cabeço Gordo, etc. e outra que dava para a direita que hoje constitui sentido obrigatório para o trânsito, onde morava, entre outros, o sr. Manuel Marques.
Na esquina dessa rua morava o sr. Augusto de Almeida Oliveira, pessoa com algumas facetas, entre elas a de caçador, cuja habitação se pode ver na foto que ilustra esta informação.
Afinal o que significa aquela foto, com uma fonte fictícia?
Explica-se que outrora havia ali uma fonte que servia de abastecimento público de água e, simultâneamente, de bebedouro para toda a espécie de gado, principalmente o gado bovino. A fonte fazia desaguar muito boa água dia e noite. A aparar essa água, havia uma pia feita de pedra. A fonte desapareceu, desconhecendo agora as suas causas. A pia fcou por lá, mas parece que já lá não está.
Dado o desaparecimento do que era a original fonte, o amigo Élio Dias de Oliveira, ainda na Veiga de volta da madeira, e porque tinha o material necessário e apropriado para o efeito, reproduz com todo o rigor o que faltava à pia que aparava essa água: A FONTE.
Já lá vão uns bons pares de anos que transferi para a fotografia a ideia do Élio. E a guardei. Por isso, mexendo nestas coisas, descobri a sua existência e aqui estou a partilhá-la com todos os que se interessam por ver aquilo que agora não existe nos nossos lugares e que constituem, talvez, algumas lembranças e nostalgias...

domingo, 30 de maio de 2010

Memórias

Históricas casas da freguesia

Ainda há poucos dias se trocavam impressões com algumas pessoas àcerca de edifícios antigos, que a história, a corrosão dos tempos, incúria e outros interesses indivíduais fizeram com que tivessem desaparecido. Neste aspecto a freguesia está a ficar pobre de vestígios históricos além daqueles que narram os livros. Queremos recordar alguns desses «monumentos», que os registamos em fotografías. Chegou a ventilar-se, na conversa, que se deveriam evitar que estas relíquias não deviam ser destruídas com as suas demolições e que as entidades concelhias deviam ter alguma possibilidade legal de tentar evitar destruições destas históricas habitações.
Recentemente algumas foram totalmente demolidas, embora com possíveis reconstruções copiando as fachadas respectivas, segundo as indicações que correm por aí. Assim o esperamos. Assim o cremos.
Para reviver o que eram ou foram algumas dessas habitações, lembrei-me de ir rebuscar algumas das fotos que guardamos e, nalguns casos, relembrar esses edifícios, que hoje já só constituem lembranças e nostalgias. Outros conservam-se de pé, porque, como árvores, é assim que eles morrem. Vamos ver algumas dessas imagens que guardamos por cá, quer dos desaparecidos quer dos que ainda se encontram de pé.
Destas, para além da sua apresentação arquitectónica, foram grandes casas agrícolas. Porque não tenho as fotografias de todas essas casas, pois é necessário ir ao local captar a sua imagem, sendo uma grande parte delas autênticos monumentos. Vamos vê-las.


Esta casa foi muito conhecida em Aguieira. Como ali tenho gravado, passou assim a ser conhecida mais recentemente. O seu último morador e proprietário foi Guilherme de Vasconcelos. Porém, esta casa chegou a ser propriedade da Quinta da Aguieira.

Esta casa chegou a estar integrada na Quinta da Aguieira. Foi desagregada e tornada propriedade particular de uma pessoa da família do Dr. Manuel José Homem de Mello. Foi conhecida por casal de S. José ou casa de Santa Zita, se não me engano. Chegou a ser o edifício onde funcionavam os serviços da sede do concelho de Aguieira.



Uma grande casa, em Aguieira, teve uma produção de vinhos da melhor qualidade. Esta imponente casa agrícola foi propriedade do Dr. Mário Pinho. Passou depois para seu filho Carlos Pinho, há poucos anos falecido em Albergaria. Consta-se por aí que há interessados nesta quinta para fins que desconheço.


Outra grande casa agrícola, propriedade do Dr. Augusto Santos, em Aguieira.

É inconfundível esta imagem. Quinta da Aguieira, famosa pelos ocupantes que teve e seus proprietários, pela história das Meninas Mascarenhas e dos vinhos ali produzidos. Toda aquela área de vinha e floresta é agora propriedade da Sociedade Agrícola da Quinta da Aveleda, com sede em Penafiel.


Desta casa já aqui falamos. Trata-se de um edifício da primeira metade do século XVIII. Foi demolido recentemente. Rumores há, confirmados ou não, que o proprietário vai ali fazer uma reconstrução, procurando restituir ao edifício as mesmas linhas que tinha antes da demolição. Vamos a ver. É em Brunhido.


Esta casa estava integrada na casa anterior. Ali funcionou uma mercearia durante muitos anos. Tal como a anterior foto a que estava ligada, foi demolida também.

Casa histórica em Brunhido. Da família Correia Simões. E mais conhecida pela Casa dos Talhos


Ainda em Brunhido, a casa da Audiência. O edifício onde funcionavam os Serviços Oficiais ao tempo do concelho de Brunhido. Esta casa também está parcialmente demolida. Consta que o seu actual proprietário tem a intenção de manter a mesma fachada.

Uma arqueitectura  do princípio do séc. XX em Carvalhal da Portela. Foi uma grande casa agrícola e o seu último proprietário, chamava-se Flórido Ferreira dos Santos. Hoje pertence a um dos dois herdeiros, mas não sei quem. Para o efeito pouco interessa agora. Ainda está de pé.

Uma casa com uma original fachada de apresentação, de mosaicos que cobrem a parede frontal. Dos herdeiros de Joaquim Ferreira Rachinhas, em Carvalhal da Portela.


Esta foi a residência de Joaquim Ferreira Rachinhas, de Carvalhal da Portela. Uma casa agrícola de relevo. Aqui residiu o arqueólogo que dirigiu os trabalhos das escavações e outros estudos arqueológicos do Cabeço do Vouga, recentemente falecido.

Uma outra casa colocada em local estratégio da época, para o desenvolvimento da actividade agrícola, ou seja, no meio do campo. Está no sítio denominado Boiça, cujo último proprietário foi  Augusto Fonseca Nogueira, ali residente e falecido e actualmente propriedade dos seus herdeiros.



Uma das casas mais representativas da freguesia, pelo seu estilo e antiguidade, (finais do séc. XVII, princípios do séc. XVIII) ainda em bom estado. Sita em Arrancada do Vouga, ali reside o seu proprietário que é o Sr. Alberto Henriques. Esta casa foi ainda propriedade do Visconde de Aguieira e nela se desenrolou uma parte da história das Meninas Mascarenhas.


Um dia, ao descer de Fermentões, ja quase ao fim da tarde, proporcionou-se ali uma visão apropriada para fotografar a encosta do lugar das Cavadas. Não estando com muita qualidade, dá a ideia de uma panorâmica daquele lugar.


O lugar da Veiga tem também algumas casas antigas. Esta é uma delas, onde residiu o Sr. Ângelo de Almeida Carvlhoso, onde se fabricava o famoso e maravilhoso pão da Veiga, além de outras casas.

Também uma das mais famosas casas da freguesia, pela arquitectura e pela história. Está situada no Sobreiro. Pertence aos herdeiros do sr. Joaquim Rodrigues Arede. Aqui residiu e tinha a sua agricultura Joaquim Mascarenhas de Mancelos Pacheco, o pai das Meninas Mascarenhas, que esteve na origem da famosa história que todos conhecemos.

Na Rua Conselheiro Rodrigues Bastos, ali a seguir ao cruzeiro de Arrancada, estão algumas casas  a merecer uma atenção pela sua antiguidade e arquitectura.

Esta casa merece uma referência especial, como as restantes. Está em Lanheses. O último residente, segundo creio, foi o sr. Alexandre Quaresma. Foi uma casa agrícola marcante neste local.


sábado, 29 de maio de 2010

A Junta de Freguesia na história - 41

Solidariedade resolve necessidades

É isso mesmo. A solidariedade já era, em 1913, palavra séria para resolver problemas sérios da população. Na acta da sessão de 9 de Fevereiro daquele ano, já era notória na freguesia uma união para a solução de problemas que diziam respeito a toda a população. Não estaremos muito longe da verdade, se atentarmos bem na redacção daquela acta, que refere assim:


«E aberta esta sessão, pelo referido presidente João Batista Fernandes Vidal, depois de lida, aprovada e assinada a acta da sessão anterior, e estando presente bastante povo desta freguesia, pelo mesmo presidente foi ponderado que havia assuntos de uma alta importância colectiva a resolver e que a Junta não tinha forças para os efectivar sem o concurso e a boa vontade de todos os cidadãos da freguesia, e que por isso os havia convocado, a ver se estavam dispostos a trabalhar com a mesma Junta na realização desses empreendimentos. E, depois de ter apontado esses assuntos e que são a efectivação da festa escolar da Árvore, a construção de prédios próprios para a instalação das Escolas oficiais da freguesia e a criação da estação do caminho de ferro na Carvalhosa, bem como as vias de comunicação para esta, tendo-se estabelecido nos cidadãos da freguesia uma corrente unânime em reclamar que a administração dos baldios fosse entregue à Junta para a efectivação desses e doutros melhoramentos igualmente urgentes, foi marcada uma sessão extraordinária para o dia dezasseis do corrente, para se tratar do dito assunto dos baldios, ficando no entanto desde já deliberado fazer-se a festa da Árvore.»

Perante a resposta do povo ao chamamento da Junta de Freguesia, resta-nos agora verificar qual terá sido o resultado obtido através da história que possamos encontrar nas actas futuras. Mas há aqui, nestes actos daqueles longínquos anos, uma atitude positiva quando uma Junta se sente incapacitada para resolver alguns problemas, chama os habitantes e conversa com eles para, com um sentido comunitário, tentarem encontrar juntos as soluções que a todos dizem respeito.
Acho que, apesar de algum alto analfabetismo que então grassava na sociedade e principalmente nos meios rurais,  esta situação não tem comparação com a actualidade. Consideremos, no entanto, que tudo mudou nestes cem anos. Mal de nós se não mudava...
E uma questão interessante! O Dia da Árvore, que actualmente se comemora, era, pelo menos assim o deixa antever, uma iniciativa em embrião ou a dar os primeiros passos.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A história local

As Meninas Mascarenhas
O livro - XIX

Terá sido mais ou menos por estes sítios que as Meninas desembarcaram no Porto. Foto no blogue skyscrapercity.com


No último capítulo desta infindável história, tinha o Francisco Veloso, amigo de Joaquim Álvaro e de Silva Pinho, intercedido junto de um amigo, Alves Souto, para que este, junto doAdministrador, os liubertasse e às Meninas.
Joaquim Álvaro tinha ficado em Avintes à espera do Dr. Silva Pinho. Por isso a demora deste, por estar preso sem aquele saber, provocava alguma impaciência. Então o homem de Aguieira fretou dois barcos e meteu-se neles, junto com o abade de Romariz, que os acompanhava desde esta localidade e com as Meninas devidamente enroupadas e agasalhadas, indo com eles os criados Póvoas e Serra.
Joaquim Álvero bem espquisava o Douro à procura do Dr. Silva Pinho, mas nada. Até que chegou junto da ponte e ali se abrigou, esperando sem resultado.
No barco ficaram o abade e o criado Póvoas. Joaquim Álvaro seguiu para Gaia com o criado Serra, mas logo que se apeou foi preso e levado para casa do administrador, como já dissemos.
O Alves Souto, desejava ser agradável a Francisco Veloso, seu adversário político mas seu amigo pessoal, que foi logo a casa do administrador e a essa hora já Joauim Àlvaro e o Dr. Silva Pinho estavam deitados. Exposta a situação ao administrador, logo ali se organizaram as coisas de forma que o José Maria (administrador) e o Carneiro (secretário) se prestaram a tirá-los de tamanha embrulhada. Foi logo arranjado um barco, onde o secretário iria ter com as Meninas a Avintes e foi nessa altura que o Carneiro foi bater à porta do quarto dos dois amigos que estavam deitados na mesma cama em casa do administrador. 
O abade estivera muito tempo debaixo da ponte e o frio era mais que muito, Joaquim Álvaro não chegava  e a noite ia avançando. O abade decidiu regressar a Avintes, mas havia lá um regedor já desconfiado daqueles avanços e recuos. Este regedor chegou a prender o abade, as Meninas, os criados, mandando-os recolher num pátio, fechado mas sem cobertura, com guardas à vista, mas tendo pena das Meninas, que tiritavam de frio, deu-lhes de cear e acendu-lhes uma grande fogueira.
Estavam todos à volta da fogueira quando chega o Carneiro e os soltava dizendo que aquilo era com ele. O bom do abade regressou para o seu ermitério de Romariz, os criados para Aguieira e as Meninas desceram outra vez o rio.
Nesta altura já os Velosos tinham mandado o Silva, da rua de Cima do Muro, preparar alojamento secreto para os perseguidos pela família dos Bandeira. O Carneiro (secretário) desde que partiu para Avintes, ninguém mais dormiu, passando-se o resto da noite a conversar descontraidamente. Até que os calafates já trabalhavam nos estaleiros, e nos armazén dos vinhos os estrondos dos golpes dos tanoeiros faziam sentir que tivera início a labutação do dia. O sol começava a iluminar o zimbório do Seminário fronteiro e a cúpula do convento da Serra [do Pilar].
O tempo estava de feição, azul clarinho, transparente e pelo Douro deslizava com brandura um pequeno barco, que procurava atracar ao cais. Correram todos. Eram as nossas Meninas. Carneiro saltou fora e Joaquim Álvaro entrou no barco, tudo feito de forma rápida. O barco seguiu rio abaixo para margem direita.
Quer dizer que os fugitivos iam entrar na cidade, na qual ainda os esperavam as mais extraordinárias perseguições e as situações mais aflitivas.
O Dr. Silva Pinho, dizia (escrevia) que respirava, enfim, liberto da profunda opressão que durante cinco dias lhe atribulara o espírito.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Junta de Freguesia na história - 40

O Código de Posturas-IV
Pequenas histórias dos baldios

Os baldios passaram a ser, mais ou menos, isto. Porque florestais. Na falta de uma foto local, socorreu-me o blogue dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa, que registamos e agradecemos.



O que posso dizer sobre baldios é apenas uma minúscula parte de um todo que, colocado no tempo, representava um grande avanço nas economias locais, como dizia, na sua redacção entusiasmada, o prof. João Baptista Fernandes Vidal, no roda pé do Código de Posturas.
Quando, em 1976, fui eleito, coube-me por sorte, e não só, ter feito parte do executivo com todas as heranças que o Abril de 1974 nos tinha legado. Entre essas heranças autárquicas, estavam os baldios. A minha função de secretário "obrigava-me" a um contacto minucioso sobre este assunto.
Encontrei livros, escritos à mão, como seria natural, muito bem organizados (que ainda lá estão) com todo o levantamento dos terrenos baldios, principalmente aqueles que tinham sido arrematados (o livro das arrematações também lá está devidamente escriturado), qual livro de matrizes prediais em tudo idêntico aos livros de matrizes antigos e actuais dos Serviços de Finanças.
Posso afiançar, sem receio de errar muito, que eram milhares de hectares de terreno, por toda a freguesia, principalmente, na sua maioria, a área que se encontrava nos montes a partir de Brunhido, Redonda, Salgueiro, Moutedo, Cadaveira, Talegre, Valcovo, Ribeiro, Cadaveira, etc. omitindo aqueles sítios que tinham denominação própria mas todos ao redor destas localidades.
Exititam arrematações de enormes áreas feitas a pessoas da freguesia, funcionando o sistema no regime enfitêutico, o que significa que pela utilização do terreno, o arrematante pagava à Junta de Freguesia uma importância, estabelecida segundo uma determinada fórmula, a que se dava o nome de foro.
Ficamos agora por aqui na explicação deste tema, porque tínhamos de explicar o que era foro, o que era o regime de enfitêutico, etc. e tal.
Nos anos 40 até aos anos 70 do século XX, tais importâncias constituíam uma receita aceitável para os cofres e actividades da Junta. É neste conceito que gostaríamos de colocar o problema dos baldios que o prof. Vidal sabia que por este sistema resultaria em benefício em duas vertentes; uma na direcção da Junta (receitas) e outra no rendimento das árvores que os arrematantes dali tiravam, tiraram e tiram em seu benefício.
As perspectivas e objectivos que a medida oferecia, foi motivo para que muitas pessoas da freguesia, com alguma perspicácia, viram também. Por isso, toca de arrematar áreas enormes, muitas delas medidas a «olhómetro».
Com o advento do 25 de Abril, este problema foi objecto de alguma controvérsia, porque a situação, entendia-se na altura, não permitia um direito de propriedade aos seus arrematantes. Já havia ainda problemas de heranças. Antes de Abril de 1974, já a Junta baseada numa legislação que agora não recordo, procedia e permitia, por requerimento do arrematante interessado, à remissão desses terrenos conhecidos por foros, remissão essa que era feita por uma outra fórmula, passando assim as propriedades definitivamente para a posse plena dos citados arrematantes iniciais.
Por isso é que o prof. Vidal dizia naquelas notas que as pessoas, por meia dúzia de tostões, tinham adquirido valores substanciais com os foros que ele teve a feliz ideia de passarem para a posse da Junta por uma via legalíssima: A compra ao seu legítimo dono da altura, que era a Câmara Municipal.
Não vale a pena dizê-lo mas... imagine-se a riqueza que passou a representar para os proprietários desses terrenos adquiridos pela tal "meia dúzia de tostões". E penso que nada de ilegal foi feito.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A Junta de Freguesia na história - 39

O Código de Posturas-III
A história dos baldios

Os baldios eram mais ou menos isto. Só que foram plantados pinheiros, muitos pinheiros e eucaliptos. Esta imagem é das Talhadas, no blogue http://bttalbi.blogspot.com/2009_04_01_archive.html, com a devida vénia


Continuamos na história do Código de Posturas da Junta de Freguesia, que estiveram em vigor desde Abril de 1947. Embora extenso, vamos referir um facto histórico com grandes repercussões na freguesia e relacionado com os baldios.
No capítulo II, com o título Património Paroquial, diz o art.º 2º: «Todos os terrenos baldios e de logradouro comum existentes na freguesia são bens próprios da Junta - porque os comprou - e constituem Património Paroquial.»
No final deste artigo há uma nota de rodapé, na qual se conta o seguinte:
«Façamos aqui um pouco de história, porque aos vindouros interessa saber a razão porque esta freguesia dispõe dos seus baldios, nos quais eles podem estender a vista no enlevo de viçosos talhões de arvoredo que ali possuam, a troco de uns míseros tostões que pagam à Junta, enquanto que às freguesias vizinhas não é dado gozar de tal regalia. Pois essa regalia de que hoje [1947] se goza nesta freguesia só se deve às nossas canseiras.
A questão da posse dos baldios vinha de longe e já no tempo da Monarquia, em 1883, uma Câmara houve que deliberou considerar paroquiais os baldios de Macinhata e Valongo. Mas outra Câmara veio que anulou aquela deliberação, por inconsistente, e os baldios continuaram em posse do Município.
Com o advento da República quis o acaso que, como agora, presidíssemos aos destinos desta Junta.
Como sabíamos de sobra que o melhor futuro da freguesia - que é pobre - estava na posse e aproveitamento dos seus baldios, encetámos a campanha pró-posse destes baldios, campanha em que encontrámos sempre o melhor auxílio do velho amigo, Snr. Casimiro de Oliveira Bastos, que então era secretário da Câmara Municipal de Águeda. Mas a verdade é que conversações, abaixo-assinados, representações, etc., tudo esbarrava com a mesma dificuldade: a falta de base legal para o reconhecimento dessa posse. Podia qualquer Câmara resolver esse reconhecimento. Mas, como tal resolução não tinha fundamento legal, outra Câmara viria anulá-lo, como já sucedeu no tempo da Monarquia.
O certo é que esta questão vinha-se arrastando havia já meia dúzia de anos sem se descobrir maneira de legalmente ser resolvida. Contudo, não desistimos de cogitar na maneira de resolver o problema que sempre considerámos de vida ou de morte para a vida económica da freguesia. Até que um dia ocorreu-nos uma ideia, ideia Providencial: A Junta compraria os baldios à Câmara!
Esta transacção era inteiramente legal, mediante o cumprimento de certas formalidades exigidas pelo Código Administrativo então vigente, aliás fáceis de realizar.
Corremos logo a expôr ao então presidente da Câmara e nosso amigo, Sr. Celestino da Silva Neto a nossa ideia, que ele achou genial, admirando que tal não tivesse lembrado a ninguém. (É a história do ovo de Colombo «Muitas coisas fáceis não lembram a toda a gente»).
Obtido o assentimento de toda a Câmara, logo se resolveu o negócio e, cumpridas todas as formalidades legais, tanto por parte da Junta como da Câmara, foram finalmente os baldios desta freguesia adjudicados à Junta, por escritura de 5 de Janeiro de 1917, pela quantia de 200$00 (duzentos escudos).
Dos enormes beneficíos que esta solução trouxe à vida económica da freguesia já hoje ninguém duvida. São muitos miulhares de contos que cá ficam e que, sem ela, veríamos ir para fora, como está sucedendo às freguesias vizinhas, cujos homens - como sempre os houve cá dentro - se permitiram de nos censurar aereamente pela solução que demos ao caso dos baldios. Hoje sentimo-nos largamente recompensados dessas censuras ao ouvir dizer aos mesmos ou aos seus conterrâneos: «As nossas freguesias não tiveram, como a de Valongo, quem cuidasse dos seus interesses e por isso lhe estamos agora a sofrer as consequências, porque os nossos baldios passaram à posse da Junta de Colonização Interna (Florestal), privando-nos assim das grandes regalias que os de Valongo estão fruindo com a posse dos seus».
É esta uma grande verdade, verdade que naquele tempo ninguém via, mas que nós nunca descurámos nem descansámos enquanto definitivamente não conseguimos ver resolvido o magno problema da posse dos baldios da freguesia.
E assim fica narrada, com verdade, a história dos baldios de Valongo do Vouga, para os curiosos que desjem conhecê-la.»

*****

Como acima referimos, esta é uma nota de roda pé, inserida no Código de Posturas da Junta de Freguesia, de 1947, da autoria do prof. João Baptista Fernandes Vidal, que em 1917 era presidente da Junta ou da Comissão Administrativa. Penso que é de voltar a este tema, para, segundo o meu ponto de vista, descrever algumas facetas ainda vividas na autarquia a propósito destes baldios.
Não tenho a certeza, também não cuidei em confirmar se esta história já aqui terá sido narrada ou não. Se o foi, repete-se para recordar. Se não foi, ainda bem, aqui fica para conhecer.

domingo, 23 de maio de 2010

Atleta Valonguense no atletismo

Mónica Silva no Douro Vinhateiro

Realizou-se hoje, na cidade do Peso da Régua, a meia maratona denominada Douro Vinhateiro. Eram cerca de oito mil participantes, a caminhar, a saltitar, a correr e a praticar atletismo mesmo a sério.
Pode ver aqui mais pormenores desta prova.
A prova disputou-se de manhã pelas onze horas e a sua transmissão em diferido foi realizada no Canal 2 da RTP durante a tarde.
Naquele canal acompanhei a prova, com alguma curiosidade, só que, contrariamente ao que muita gente já sabia, eu não tinha conhecimento, quer da prova, quer da classificação, porque já tinha sido de manhã e etc. e tal.
Vi tudinho, do princípio ao fim, e, a certa altura, foi realçado os quarenta anos de Fernanda Ribeiro, apresentando-se numa excelente forma, chegando a liderar, durante vários quilómetros, a prova no escalão femininos.
Nos masculinos, entre os seis primeiros, quatro foram para Quenianos, ficando em segundo Rui Pedro Silva, do Maratona (uma excelente prova) e o sexto foi ocupado por Paulo Gomes, da Conforlimpa.
A certa altura alerto os meus comparsas que a transmissão foca-se nos femininos, com Fernanda Ribeiro e Inês Monteiro, lado a lado durante bastante tempo, e as imagens focam uma atleta, numa rotunda, que me faz exclamar: É A MÓNICA!!!
E era. Vai alguém ao meu lado e pergunta:-A Mónica do Ernesto? Isso, respondi.
E nesta prova, a Mónica classificou-se em quinto lugar. A vencedora foi Inês Monteiro, logo seguida de Fernanda Ribeiro.
A Mónica é da freguesia, para quem não sabia, começou a prática desta modalidade na Casa do Povo de Valongo do Vouga, com a qual, ainda miúda, venceu muitas e variadas provas, passou depois pela  ADRECUS, foi para a cidade do Porto, fazendo parte da secção de atletismo do F.C. Porto, encontrando-se actualmente ao serviço do Maratona. De destacar ainda que foi medalha de ouro nos jogos da lusofonia, nos dez mil metros, ao tempo em Macau, nos quais, entre outras atletas de nomeada, participou também Fernanda Ribeiro, segunda classificada.
O comentador referiu-se a esta atleta em termos promissores, fazendo salientar a sua juventude, entrelinhando que ainda se podia esperar algo mais da Mónica. Daqui, deste cantinho, esperemos e desejamos o melhor futuro para a Mónica.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Junta de Freguesia na história - 38

O Código de Posturas-II

Voltamos a este tema, porque ele contém factos curiosos, talvez impensáveis admiti-los em 1947. Após o artigo onde consta a sua aprovação pela Câmara Municipal de Águeda, e lendo este Código numa óptica de disciplina e de civismo, constatamos que ele contém uma validade e expressão fora do comum para aquele tempo.
Quase o podemos titular de um Código de Posturas bastante avançado e progressista para uma época em que tudo faltava. Gostaríamos de o poder transcrever nesta matéria a que nos referimos, mas ocupa um espaço importante.
É o capítulo XI, como Suplemento, em que surge a Associação de Defesa Rural Mútua. Em que consistia esta Associação?
No Artº 51º dizia que tinha por finalidade uma mais eficaz defesa da propriedade, pelo que a Junta, de acordo com os produtores agrícolas que assim o queiram, poderá organizar a Associação de Defesa Rural Mútua.
Dela fazim parte os produtores agrícolas de reconhecida honestidade e de todos os lugares da freguesia.
A sua missão era agir de maneira a pôr cobro à continuação do desenfreado assalto à propriedade alheia, que está tomando um incremento assustador.
A sua acção - que era permanente - exercia-se principalmente em rondas e rusgas nocturnas, nas quais devia sempre tomar parte dois ou mais homens, para melhor eficiência do seu trabalho.
A Associação tinha uma direcção de três membros: presidente, secretário e Tesoureiro. Em cada lugar havia sempre um delegado da direcção, que dirigia os serviços de vigilância desse lugar, de acordo com as instruções recebidas e as necessidades do serviço. Havia ainda os livros próprios para inscrição de sócios, com descarga de cotas, livro de registo de receita e despesa, livro de actas, livro de registo dos delitos e dos seus autores e cadastro policial da freguesia.
Para estas despesas, os associados pagavam o minímo de 1$oo mensal.
Uma disposição curiosa: Os sócios têm competência para autuar os transgressores destas Posturas, devendo enviar os autos à junta para os efeitos legais.
Os serviços eram organizados por forma a que todos os sócios produtores sejam obrigados ao contributo das rondas proporcional à sua propriedade a vigiar, em área e dificuldade.

*****

Deste enunciado se poderá confirmar que isto eram autênticas milicias montadas para vigiar e guardar as propriedades que eram profusamente e constantemente assediadas e assaltadas, roubando-se-lhes o que lá havia. E isto por forma legal, com pagamento de cotas e rondas realizadas e organizadas. Em 1947, existir isto numas Posturas da Junta, era completamente impensável.
E bem me parece que, actualmente, temos de voltar a organizar este tipo de vigilâncias organizadas, a ver se se consegur atenuar o acesso a larápios, que, em pleno dia, são apanhados pelos próprios donos dentro das suas residências.
Além desta situação, havemos de voltar a uma outra que consta naquele Código de Posturas e que se relacionam com a protecção da natureza, em especial dos animais e sua utilização, aves, plantas e outros seres vivos. Nestas posturas havia um autêntica Sociedade Protectora dos Animais. Havemos de ver...


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