sábado, 11 de julho de 2009

Coisas da Guiné - 6

DOMINGOS A CRIANÇA MASCOTE


Agora, quando quero escrever uma história sobre o Domingos, faltam-me as palavras, os verbos e é difícil juntar as sílabas.
Ainda me estão a martelar na cabeça as palavras escritas pelo Engº Pedro Moço, funcionário de uma empresa do grupo Soares da Costa, que, recordo o que disse atrás, esteve 18 meses na Guiné, fazendo parte da equipa que dirigiu a construção da ponte “Euro-Africana”, mas para nós a sempre ponte (onde foi jangada) de S. Vicente. Dizia então:

«Penso que qualquer cidadão europeu devia viver em África, pelo menos 6 meses, para poder dar valor ao que tem disponível no seu país, coisas que para qualquer europeu são banais, tais como, o direito à saúde, educação, o poder dispor de electricidade, água potável, etc., etc. Aqui nada existe, a não ser a tentativa de sobrevivência do dia-a-dia.

Dói a ausência de futuro nos olhos das crianças, dói o nulo investimento na formação, na educação, dói o tipo de vida resignada, dói que a única solução seja emigrar, ainda que precariamente. Dói que o eldorado esteja sempre do lado de lá. Dói pensar nas desilusões de quem passa para o lado de lá e encontra o que não esperava. Dói a ausência de futuro e de estratégias de desenvolvimento. Dói que se morra de “coisas da Guiné”, espécie de doença generalista que agrupa tudo o que mata e se desconhece.»
(O Domingos, encostado à cama, de cócoras, com capacete, ao lado direito dos militares)

Vamos ver a história. O Domingos era uma criança, em 1964. De estatura normal para seus cinco, seis, sete anos, os seus olhitos parece que estavam sempre em permanente melancolia (como os de muitos putos guineenses), mas o seu porte e presença eram já um tanto diferentes.
O Domingos, fazendo fé nas recordações um tanto esfumadas e que o tempo não perdoa, porque não é eterna a sua permanência nas imagens cerebrais de cada um, começou a aparecer com a mãe, que lavava a roupa de alguns militares e que constituía até alguma fonte de sobrevivência para a família.
Tantas vezes lá foi que começou a ter contacto com os militares e que, pelo seu feitio e postura simpáticos, afáveis para uma criança daquela idade, ficou lá connosco um dia, depois, talvez outro e outro, todos o acarinhavam e brincavam com ele e o Domingos ia demonstrando alguma sociabilidade e integração, retribuía, na sua mente de criança de tenra idade, a simpatia pelo trato que lhe ia sendo dispensado.
Até que, para não alongar mais a lengalenga, o Domingos foi adoptado oficialmente como mascote da CCaç. 462. Passou a ter uma farda igual à nossa, com excepção do camuflado e do vestuário de trabalho e nunca teve arma, nem havia permissão nossa para delas se abeirar. Comia connosco, e durante muito tempo chegou a dormir na caserna como todos nós.
Os pais sabiam desta situação, o comandante da Companhia também. Nada de fazer as coisas, com crianças, que fossem bulir com os “cânones” ou com a moral, a responsabilidade, e todos os outros adjectivos inerentes à situação.
Por isso o realce que dei às palavras do Engº Pedro Moço e que peço voltem agora atrás e releiam o primeiro parágrafo. Sobre o seu conteúdo e significado de vida, muitos de nós, estejamos onde estivermos hoje, sabem, conhecem e viveram esta situação, com outros Domingos da Guiné…
É aqui que cabem as palavras do Engº Pedro Moço: «Dói a ausência de futuro nos olhos das crianças, dói o nulo investimento na formação e na educação…» é a síntese mais completa daquilo que ainda muitos não experimentaram na sua vida! Por cá, até se levam e vão buscar as crianças à escola e aqui são alimentadas! Na Guiné, se havia escola, era uma escola vazia de tudo, até nos estômagos...
Depois que, ao fim de dezasseis meses, fomos “embalados” e enviados para Bula, perdemos o rasto do Domingos. E mais o perdemos quando fomos ocupar, pela primeira vez, o território de Có, Ponate, Jolmete e Pelundo, ali na zona de Teixeira Pinto, hoje Cachungo. Perdêmo-lo definitivamente, quando destas localidades fomos para Mansoa.
E nunca mais nada se soube do Domingos, aquela criança (negra) simpática e meiga, de olhos melancólicos, mas doces, que viveu connosco durante algum tempo, quando regressamos no Niassa…
Fica, ao menos, a única foto que tenho dele…

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