sábado, 14 de fevereiro de 2009

TOCA A RASGAR! - I

RELEMBRAR
Nos dias 10, 11, 17 e 24 de Maio de 1980 (já lá vai a módica quantia de quase 29 anos), um grupo de “jovens” com aquele tempo, que agora, para não ferir susceptibilidades e para não correr o risco de alguma omissão (involuntária), não importa mencionar (mas que alguns ao lerem esta transcrição talvez se recordem), levaram a efeito na Casa do Povo de Valongo do Vouga um espectáculo, à moda revisteira, a que foi convencionado chamar-se ‘TOCA A RASGAR’.
Era um grupo muito homogéneo, muito inspirado mas, também, muito sério, brincalhão, explodindo boa disposição por todos os poros. Estas particularidades podem ser provadas pelos escritos que, durante alguns capítulos, aqui me permito rescrever.

Foto cedida por Fernando Vasco Batista (o primeiro da esquerda)

Convém ainda acrescentar que o grupo era conhecido por NAC - Núcleo de Actividades Culturais, inserido na Casa do Povo. Ora, quem parte e reparte… (a informação) vamos começar por apresentar um número que era da minha autoria e de outro companheiro, o “Vasquinho” (ainda hoje assim o trato), cujo nome próprio é Fernando Vasco. Eu escrevi esse número desde o princípio até um certo momento. O Vasco achou graça àquilo e continuou desde esse momento até ao fim.
Parece-me curial lembrar que estes jograis visavam alguma sátira social e outras particularidades de hábitos, costumes e até pessoas, algumas delas já desaparecidas do nosso convívio. Para elas e pelas suas características a minha saudosa homenagem.
Chamava-se esse número JOGRAIS DE VALONGO e foram “construídos “ da forma como segue, num grupo de quatro elementos, todos homens. E começavam…

TODOS:
Minhas Senhoras e meus Senhores
Temos a honra de apresentar
Os Jograis de Valongo
Que vos irão falar.

Vamos fazer a conferência
Na nossa maneira de ver,
Como anda a Freguesia
Na sua forma de viver.

1 – São operárias
2 – São operários
3 – São lavradores
4 – São proprietários

1 – São comerciantes
2 – E industriais
3 – Os que não fazem nada
4 – E outros que tais

TODOS:
Frequentadores de café
Adeptos da bola
Nesta terra há de tudo
Até de casaca e cartola

1 – Vendedores ambulantes
2 – Negociantes de gado
3 – Alguns aldrabões
4 – E cantadores de fado

1 – Há palradores
2 – Sisudos e calados
3 – De risos enganadores
4 – E os que nasceram cansados

TODOS:
Nesta Freguesia rica
Há de tudo um pouco
E de muito berrar fica
Quase tudo rouco.

Há técnicas e técnicos
Ninguém pratica o tédio
De um pouco sabem tudo
São grandes enciclopédias

1 – E não é só isto
2 – Há muito mais
3 – Vejamos as curiosidades
4 – Dos apetites estomacais

1 – Carne de porco
2 – Carne de vaca
3 – Frangos e presunto
4 – Isto toda a gente mata …

1 – Boroa e trigo da Veiga
2 – De sabor divinal!
3 – É a grande especialidade
4 – Desta terra bestial

TODOS:
E amantes de Baco?
De apetites aguçados,
Consumidores de tabaco
Outros chupam rebuçados.

1 – Construção civil
2 – Supermercados
3 – Tascas
4 – Tipos esfolados

1 – Joga-se poker
2 – Joga-se sueca
3 – Joga-se Slots
4 – Joga-se lerpa

1 – E pescadores?
2 – Não é baralhal !!!
3 – Há por cá muitos
4 – Alguns em Carvalhal

1 – O António Matos
2 – E o Eduardo Gaiteiro?
3 – Grandes pescadores
4 – Seja de cacete ou fueiro

1 – O Manuel Pirocas
2 – É fenomenal
3 – O peixe foge
4 – E parte o canavial

1 – A pesca tem avarias
2 – E o Beto bem arrota
3 – Até se dá ao luxo
4 – De pescar gaivota

TODOS:
Mas há outros
Já pescados e ratos
É um regalo vê-los
A pescar nos pratos.

E nestas matérias
Mais havia a dizer,
Mas vamos analisar
Outras formas de viver.

1 – E o que há mais?
2 – Sejamos amáveis
3 – Há coisas bestiais
4 – Há coisas formidáveis.

TODOS:
V ejamos por exemplo
Os nossos Organismos
Até nem estamos
No tempo dos “ismos”

1 – Estamos em democracia
2 – Vivemos em liberdade
3 – Há quanto tempo não via
4 – Tanta amabilidade

4 – Tivemos eleições
3 – E o povo vota
2 – Nem que seja preciso
1 – Andar de porta em porta

1 – A Junta que muito se “estima”
2 – Apareceu em blocos
3 – Só esperamos que não saiam
4 – Todos com os pés tortos

1 – Esta coisa de Junta
2 – Não é situação banal
3 – Tão completa está
4 – Até tem regente musical!

TODOS:
Tivemos o Zé Ferreira
Mai-lo o Zé Falcão
E o Zé Fernandes ainda
Não deram safanão.

Aí vai adivinha
Para matutar
E vejam lá
Se conseguem acertar

1 – Com apenas duas letras
2 – Se escrevem quatro linhas
3 – Nada disto são tretas
4 – Foram quatro maravilhas

TODOS: - Nós ajudamos, nós ajudamos…

1 – Então como é?
2 – Já acertaram?
3 – Não têm um lamiré?
4 – Palermas ficaram!!!

TODOS: - Nós apelamos, nós apelamos…

1 – J. F.
2 – J. F.
3 – J. F.
4 – J. F.

TODOS: - Nós reclamamos, nós reclamamos…

1 – Eu explico
2 – Tem cá uma alegria
3 – Então não vêm?
4 – Foi a Junta de Freguesia!

TODOS:
Mas faltam mais três
É bem verdade!!!
Então quem são,
Na realidade?

Ei-los agora contentes
José Ferreira, scretário espertalhão
José Falcão ex-Presidente
José Fernandes, tesoureiro mandrião.

1 – E os outros?
2 – Quais?
3 – Os de agora...
4 – Os actuais...

TODOS:
Uma maravilha
Na perseverança
O que dará
A santa aliança?

1 – Mas ainda há
2 – Quem acredite
3 – Na doença
4 – Da conjuntivite?

TODOS: - Esperemos que não, esperemos que não …

1 – E a Casa do Povo
2 – O que nos dá?
3 – Um grande salão
4 – P´ra dançar xá-xá-xá

4 – Já passava despercebida
3 – Outra actividade
2 – Que muito está
1 – Na actualidade

TODOS:
Mas esperem
Não se trata d’amores
Muito simplesmente
De caçadores

1 – Esta terra de fenómenos
2 – Tem encantamento
3 – Mas mais parece
4 – O Entroncamento

1 – No fenómeno da caça
2 – Esta é de pasmar.
3 – Algum dia viram
4 – Um melro caçar?

1 – E não fica por aqui
2 – Esta coisa de passarinhois
3 – Também há quem cace
4 – Só com rouxinóis

1 – E o Amigo Chancas?
2 – Tantos como as mães
3 – Quando vai à caça
4 – Nada de coelhos – só cães!

TODOS:
Este Grupo de Jograis
Em perfeita sinfonia
Vai falar dos musicais
Cá da nossa Freguesia.

De pequenino se torce o pepino
- Dizem os mais sabedores –
Por isso há que começar
Pelos “pequenos cantores”

1 – O Sr. Adriano, maestro
2 – Em constante irritação
3 – Manda dois murros no micro
4 – E atira as estantes ao chão

1 – Alto e pára o baile !!
2 – Donde vem este ruído espesso?
3 – Lá está o Sr. Zé Morais
4 – Com a partitura do avesso.

1 – E quando chega o Sr. Augusto
2 – Às vezes mete-nos medo
3 – Quando dá um «mi» agudo
4 – Parte os vidros no Moutedo

TODOS:
Ali, a manter o compasso
Com o bigode em rascunho
Fica o Sr. Amílcar
De maçaneta em punho

Outros há mais controversos
Não escondendo a preguiça.
Fazem da viola gravata
E arranham o órgão na missa.

1 – Por falar no órgão…
2 – O Vasco não está esquecido
3 – Quando os outros tocam em Dó
4 – Ele toca em Fá sustenido!

1 – E o Sr. Neca Morais?
2 – Quer vício tão fraco!!!
3 – Enrola os papéis de música
4 – No bolso do casaco.

4 – Para transportar o saxofone
3 – Sem querer ser drástico
2 – Vamos comprar mala de couro
1 – P’ra substituir o saco de plástico.

TODOS:
Os músicos vão para um lado,
Para o outro a garotada
Disfarçam as catequistas
Berrando em voz esganiçada.

Resumindo e concluindo
Como resultado final
Lá vai o nosso Povo
Para a nossa Catedral.

1 – Nesta ronda musical
2 – Aos craques da freguesia
3 – Não era possível esquecer
4 – A orquestra ex-Cotovia.

1 – Hoje em dia renovada
2 – Toda ela Evolução
3 – Passou do piar da cotovia
4 – Ao roncar de um avião.

TODOS:
À frente vai o regente
Sempre cheeinho de pressa,
Leva o trompete no bolso
E uma pipa à cabeça.

1 – E agora, aqui para nós
2 – É tão esquecido esse tipo
3 – Põe uma aduela no trompete
4 – E uma surdina num pipo!

1 – Então, quem são os outros?
2 – São de fácil dedução.
3 – O Lima, O Zé Vítor e o Jorge
4 – E uma última aquisição.

1 – O Lima de tanto solar
2 – Apanhou insolação.
3 – E o Zé Vítor no contra-baixo
4 – Parece que só come feijão.

1 – Outro salta, esbraceja, gesticula
2 – Qual baterista Evolução,
3 – Atira as notas pela janela
4 – E consegue espetá-las no chão.

RESUMO FINAL – TODOS:

E nesta deambular
Pela nossa freguesia,
Apenas quisemos dar
Um pouquinho de alegria.
Não haja ressentimentos
Nem qualquer reacção,
Porque aquilo que fizemos
Foi de boa intenção.
Não nos anima a ideia
De qualquer derrotar,
Porque já basta
De tanto chorar.
E esta vida são dois dias,
Dois dias a penar,
Valha-nos ao menos isto
Para recrear.

E o que desejamos afinal,
São muitas felicidades
Para todos em geral
E que haja progresso
No nosso torrão natal.
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