domingo, 22 de fevereiro de 2009

TOCA A RASGAR! - IV

ACIDENTES E ACIDENTADOS

Ideia original levada à cena em 10, 11, 17 e 24 de Maio de 1980, no espectáculo designado por TOCA A RASGAR. Pela extensão não vamos fazer incidir mais comentários, uma vez que os mesmos já foram feitos antes.

Personagens:
Médico, 3 acidentados, apresentando-se um com a cabeça toda ligada, outro com a cara e pescoço ligados e com adesivos e o terceiro com a cabeça ligada, braço ligado, olho negro, braço ao peito e de muleta. O quadro passa-se em duas cenas.

I Cena

(Passa-se à boca de cena, com pano de fundo a dividir o palco e no pano a cruz vermelha com a palavra “URGÊNCIAS” ou “EMERGÊNCIAS”. Após abrir o pano, entra o Médico, de bata branca e estetoscópio ao pescoço. Dirige-se ao público, em termos de quem se prepara para fazer uma palestra demonstrativa de acidentes).

MÉDICO: - Boa noite minhas senhoras e meus senhores. Aproveitei hoje a vossa presença aqui, para que na qualidade de médico do Posto de Primeiros Socorros desta terra, passássemos além das brincadeiras, das comédias de mau gosto e das quadras todas milimetricamente mal centradas, para falar de coisas sérias, educativas, de formação pessoal e não só, enfim procurar que com esta iniciativa outras se possam seguir do mesmo género. E, como na gíria se diz, FIM DE CITAÇÃO…
Vamos falar de acidentes e acidentados. Como sabemos, há acidentes de automóveis, acidentes de motorizadas, acidentes de trabalho, vulgares acidentes e até acidentes domésticos. Cada tipo dos acidentes apontados possui o seu grau de gravidade. Vamos especificamente referir os vulgares acidentes e os acidentes domésticos. Ora, alguns exemplos:
- O burro do dono que apanha um coice do dito.
-Uma criança, que por excessos de cuidados do pai, deu um pontapé numa pedra, esborrachou os dedos só porque o pai lhe disse: “Foge filho do boi vem para o pé do teu pai que ele marra”.
- Um individuo totalmente turbado com a bebida adorada de Baco, numa noite muito quente, em grandes ziguezagues na estrada, choca com alguns obstáculos (postes, candeeiros, árvores, etc.), a cada um deles tira reverentemente o chapéu, pedindo desculpa e de seguida encostado a um muro, fica hipnoticamente perfilado, julgando que assiste à passagem de uma procissão ou de um funeral, mas com o nariz esborrachado e em sangue.
- Um tipo que faz pontaria para um gato tinhoso e acerta na sogra que era uma santa.
- Uma pessoa, despreocupada, que em plena rua tem um acidente no fecho das calças, sendo olhado avidamente pelos feministas e algumas jovens.
Enfim, há tanta coisa que nos pode acontecer, situações banais, como estas que vamos apresentar ao vivo e saber das suas causas.
Temos quatro situações, ou melhor, quatro acidentados. São casos reais sucedidos no dia-a-dia da nossa terra. Convido-vos pois que analisemos estes quatro casos.

II Cena

(O pano que dividia o palco, abre nesta altura. A cena seguinte, passa-se num consultório médico, com mobiliário adequado, uma secretária à direita de cena e atrás uma cadeira, etc. À esquerda de cena estão três acidentados, sentados, cada um ligado da maneira que se descreveu).

MÉDICO: - Ora, como tinha referido, aqui temos os acidentados, concerteza que cada um vítima de um percalço, mas cada um deles diferente entre si. É com estes espécimes exemplares acidentais, que pretendemos alertar as pessoas para certo tipo de acidentes. Estes, já estão meio tratados e em condições de poderem contar a história do seu acidente, passados os momentos emocionais que resultaram.
(Dirige-se ao primeiro acidentado)
Por exemplo o senhor. Sofreu algum acidente?
1º ACIDENTADO: - Tive sim, Sr. Doutor...
MÉDICO: - Conte lá como foi.
1º ACIDENTADO: - Olhe, Sr. doutor, foi um acidente caseiro!
MÉDICO: - Caseiro!? A casa bateu-lhe, caiu ou foi algum tijolo que se desprendeu?
1º ACIDENTADO: - A minha mulher…
MÉDICO: - (Atalhando rapidamente) – A sua mulher… Ah!, já percebi. Um acidente doméstico…
1º ACIDENTADO: - Não, Sr. Doutor, não foi um acidente doméstico. Para mim foi um acidente selvagem.
MÉDICO: - Não percebo!!! (começa a ficar confuso) Ora, dentro de casa, um acidente domesticado, caseiro ou doméstico, ou lá o que é, e você agora diz-me que foi um acidente selvagem. Duma vez, diga lá se o acidente foi em casa ou no jardim zoológico…
1º ACIDENTADO: - Eu explico. A minha mulher que até há pouco era uma santa parecia um leão a atirar-se à vítima, que sou eu, e conseguiu partir cinco vassouras!
MÉDICO: - E você diz que conseguiu partir cinco vassouras?! Mas partiu as vassouras ou partiu a sua cabeça?
1º ACIDENTADO: - As vassouras, Sr. Doutor, tenho a cabeça muito dura!...
MÉDICO: - (para o público) Ora vejam que fatalidades destas só com pessoas domesticadas, perdão, só com homens de barba rija… queria dizer, de cabeça dura. E vejam também o prejuízo só em vassouras! Neste caso, recomendo cuidado com a força das vassouras.
(Depois dirige-se ao 2º acidentado): - E o senhor é doméstico ou selvagem?
2º ACIDENTADO: - Perdão, Sr. Doutor, veja lá como trata as pessoas…
MÉDICO: - Desculpe, as minhas desculpas. Eu queria saber… queria dizer, se o senhor ainda tem cabeça…
2º ACIDENTADO: - O senhor, como médico, fica mais transtornado que eu. Eu tenho cabeça, mas ia ficando degolado…
MÉDICO: - Oh meu Deus. Mas que acidentes eu havia de ter aqui hoje. Quer dizer que lhe iam cortando o pescoço, ou melhor, queriam tirar-lhe a cabeça do sítio, mas mais por baixo?
2º ACIDENTADO: - Não senhor doutor, mas quase…
MÉDICO: - Quase?! Ó homem explique-se, explique-me e explique a todas as pessoas para se acautelarem…
2º ACIDENTADO: - Está bem, eu explico. Foi um acidente de barbearia…
MÉDICO: - O quê? A esta hora não pagou ao barbeiro… Olhe, quem era e como foi?
2º ACIDENTADO: - Ontem, o Zé Corga, barbeiro, estava com soluços…
MÉDICO: - Esta é grossa! Soluços, navalha, serviço caro concerteza e ainda por cima sujeito a estas consequências. Neste caso (dirige-se ao público) não há nada a fazer, mas aconselhamos um seguro de acidentes contra navalhas de barba.
(Dirige-se ao terceiro acidentado) – E o senhor, cortaram-lhe na casaca? Perdão, como foi o seu acidente?
3º ACIDENTADO: - Olhe, Sr. Doutor foi o resultado de um encontro…
MÉDICO: - Ah! Negócios de saias. Então costuma ver o Dacin Days. Isto é o que se chama um doce acidente. Foi descoberto, apareceu o marido dela ou a sua mulher…
3º ACIDENTADO: - Não Sr. doutor foi com um tipo…
MÉDICO: - Percebo. Ao ser descoberto, a doçura tornou-se fel e vinagre… e você fica nesse estado.
3º ACIDENTADO: - Ó Sr. Doutor, eu ando metido num negociozito de… relógios. Enfim, sabe como está a vida…
MÉDICO: - (Aparte) Já te trato da saúde. (Alto) Tal como com os outros não estou a perceber. Então um simples relógio pô-lo nesse estado?
3º ACIDENTADO: - Eu vendi o relógio a um amigo, porque estas coisas só se vendem aos amigos. Ao outro dia o relógio deixou de trabalhar…
MÉDICO: - Já percebi. Discussão, palavra-puxa-relógio, corda partida, você aguentou e ficou nesse estado…
3º ACIDENTADO: - Também lhe digo. Eu ganho a vida honestamente, mas há por aí alguns concorrentes que às vezes precisavam do mesmo que eu…
MÉDICO: - Para você ficar nesse estado, como ficou o outro?
3º ACIDENTADO: - Ficou no hospital…
MÉDICO: - Caramba! Deram a meias valentemente…
3º ACIDENTADO: - Não Sr. Doutor, ele é lá enfermeiro…
MÉDICO (dirigindo-se ao público): - Ora aqui temos três tipos de acidentes, cada qual com as suas causas, mas com resultados iguais.
VOZ DA PLATEIA: - Mas você falou em quatro acidentes! Onde está o outro?
MÉDICO: - Não falta nenhum. Sim senhor, ainda bem que lembrou que até no quarto podemos ter acidentes. Quem diz num quarto, que é um compartimento de pequenas dimensões, até neste compartimento que é o meu consultório podemos ser vítimas de acidentes. (dirige-se à secretária) Desculpem, um momento só. Vou prescrever alguns medicamentos que possam aliviar o sofrimento destes pacientes e o recibo para mandar para a Caixa. (escreve… depois dirige-se a cada um dos acidentados) Pronto, meus amigos. Tomem esses medicamentos, podem ir ao Zé Falcão aviá-los e se ele não perceber a letra que me telefone. E aqui estão os recibos para mandar para a Caixa. São mil escudos a cada um...
OS TRÊS ACIDENTADOS SURPREENDIDOS E AO MESMO TEMPO: - Mil escudos ???!!!
MÉDICO: - A Caixa sempre dá 150$00!
OS TRÊS ACIDENTADOS: - Ai sim, então aí vai o quarto acidente !!!

(Atiram-se ao médico, que cai no chão, enquanto lhe batem. Passados momentos fecha o pano).
Nota: - Não temos fotos deste episódio
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