quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Brumas da memória - 19

Uma carta de condução?!


A alguma distância, rever alguns documentos ou fotos pode ocasionar reacções diversas. Saudade, nostalgia, alegria, estupefacção (que é o mesmo que admiração) e, talvez, começar a admitir ser impensável as coisas terem sido assim.
Quando olho para o documento aqui exposto, entre o misto de admiração e de espanto, cria-me também uma certa vontade de rir daquela triste figura... digo eu...
É que essa triste e inocente figura sou eu. Exactamente, tal e qual, sem tirar nem pôr!
Aquele documento, que não é original e único naquele tempo, era uma carta de condutor de velocípedes (bicicleta a pedais!). Que pode ser confirmada pelos dizeres impressos. Pois isto vem a propósito de alguma coisa que li neste espaço, àcerca da frequência da EICA - Escola Industrial e Comercial de Águeda, que existia naquele local onde hoje está o emblemático edifício do tribunal de Águeda, agora desmembrado por vários locais da cidade.
Fiz exame de admissão àquele estabelecimento de ensino e só entrava quem fosse aprovado. Mas havia a deslocação, porque não tínhamos autocarros que nos fossem buscar a casa. E as refeições? Quem tinha dinheiro ia comer a umas tascas que por ali existiam. Quem não tinha, levava umas couves cozidas com batatas. E quem não tinha uma coisa nem outra, ficava sem comer. Isto era verdade.
Nessa deslocação havia os comboios (muitos colegas dos lados de Sernada, Paradela do Vouga, Carvoeiro, etc.) e, em alternativa, restavam duas soluções: quem podia, ia de bicicleta, quem não podia, ia a pé.
Eu tive de me sujeitar a estas duas soluções. Mas para me prevenir numa delas, com 10 anos de idade, era necessário aquele documento, porque, se fosse apanhado pela GNR ou PVT, ia uma coima (termo muito comum actualmente e desconhecido naquele tempo) que nem uma semana de trabalho dava para a poder pagar.
Então há que habilitar com um documento, que se chamava, em termos abreviados, carta de condutor de velocípedes, para poder montar numa bicicleta e, desta forma, poder deslocar-se legalmente.
Neste caso, tem o nº 4195 e a chancela da assinatura é do Dr. Fausto Luiz de Oliveira, que foi presidente do município. Curiosamente, só agora reparei que não tem data. Como não importa direi, ao menos, que deveria ter sido por volta dos finais de 1952. Bolas, há tanto tempo já!
E estava legalmente prevista de que «Nos termos da Postura Municipal de 2-8-51, está autorizado a conduzir velocípedes...» 
As figurinhas a que éramos sujeitos...!!!
Mas não pensem que digo isto com outras intenções. Foi bom, muito bom...
Mas lá vem o velho princípio, de não desejar que isto se repita, nem com os meus netos!!!
 
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