segunda-feira, 29 de junho de 2009

Coisas da Guiné - 4

Este post acaba de ser incluído no sítio denominado http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/, que tem aqui um link identificado por Luis Graça & Camaradas da Guiné. Este blogue tem o módico número de 1.111.522 páginas visitadas (há pouco...)

Carabana Xerife era uma tabanca (aldeamento), paredes meias com a fronteira do Senegal, próximo de Ingoré, tendo ainda a meio caminho a tabanca de Ingorézinho.
Haviam informações de que existia a intenção de atacar Ingorézinho. Tomadas algumas precauções, uma secção foi para ali dormir, protegendo, pelas dimensões, estratégia que constituía e a "qualidade" dos seus habitantes.

Não sei a data exacta deste acontecimento, talvez em meados de 1964, porque havia chuva, e muita, como é costume na Guiné na época própria (a partir de Maio). A páginas tantas fomos acordados e foi-nos pedida uma "dúzia" de elementos que pretendessem ir a Ingorézinho, pois as comunicações via rádio davam conta da presença de alguma "malta IN" que estava a chatear, e logo ao fim de mais de um ano, em que se poupou algum no orçamento do Estado, pois toda a gente se limitava a ter em condições de funcionamento as suas armas individuais e as munições eram as mesmas do início. Ou seja, passávamos quase despercebidos... e ninguém se lembrava de nós... era só turismo...

Entre o grupo que foi ao encontro da secção, fiz-me incluir e lá fomos a correr, ao longo da bolanha, em direcção a Ingorézinho. Ainda não havia os acessos que agora existem. Tínhamos de ir a pé... embora talvez existisse um acesso àquela tabanca na estrada que ia para Barro, mas bastante longe, já não me lembro bem.
Ali chegados, juntamente com o comandante de Companhia, fomos mais à frente até Carabana Xerife, a tabanca atacada e destruída, e na presença do furriel que comandava a secção, o capitão perguntou:

-Chegaram a vê-los? Não foram atrás deles?
O furriel respondeu que sim, mas que deram com a fronteira e este entendeu que não devia ir além. Como não tinha ainda decorrido muito tempo, o capitão desata a correr, passa o marco da fronteira, por sinal um marco de dimensões razoáveis, de pedra e cal, que não deixava margem para dúvidas sobre a separação dos terrenos, qual marco que delimita as nossas propriedades, e todos nós atrás dele, entrando numa distância ainda razoável em terreno de outro dono.
Mas nada foi conseguido, porque o grupelho (não seria ainda um grupo organizado para a guerrilha, sem meios, que não fossem algumas facas, catanas e caixas de fósforos) tinha desaparecido.
O resultado desta escaramuça (porque não foi outra coisa comparado com aquilo que, na mesma região e local, passaram camaradas nossos, que têm muitas histórias contadas em blogues e outros locais internautas) resultou na destruição da tabanca pelo fogo ateado.
Nunca vi tanta galinha, cabritos, porcos estorricados com as palhotas todas destruídas. Não tenho fotos do local, há quem as tenha, mas não sei quem...
A população foi recolhida para próximo do aquartelamento, junto a Ingorézinho e, quando regressava da infrutífera perseguição, já o sol raiava, passo junto a uma enorme árvore e à volta dela folhas frescas todas amachucadas, com sinais que o grupo destruidor ali teria estacionado e aguardado o melhor momento para o ataque.

Logo ali, junto daquela árvore, senti uma necessidade fisiológica, ainda dentro do terreno do Senegal. E toca de me aliviar...
Claro, olhava sempre em várias direcções, até que vislumbrei um punhal bastante "jeitoso", que logo o coloquei no cinto das cartucheiras. Quando cheguei junto do capitão, era minha obrigação dar-lhe conta daquela prova do "crime", entregando-lho.
Chegados ao aquartelamento, como nessa altura eu era o "administrador" da companhia (não havia primeiro-sargento e como eu era empregado de escritório, com conhecimentos de contabilidade dos antigos cursos das Escolas Comerciais e Industriais, tinha sido convidado para tarefas administrativas) lá tive de dactilografar o relatório entretanto manuscrito pelo capitão e fomos dar um "passeio" até Bula (comando operacional do Batalhão de Caçadores 507 (Ten Cor. Helio Felgas), depois substituído pelo Batalhão de Cavalaria 790, (Ten. Cor. Henrique Calado), entregar o relatório e o punhal. No meio destas Unidades Militares, convém esclarecer que eu pertencia à Companhia de Caçadores 462, procedente de Chaves.

A história do punhal não ficou por aqui. Não deixei de "chatear" o capitão miliciano Jorge Saraiva Parracho, para que o punhal, que nada dizia e ajudava à solução de qualquer problema (a não ser uma hipotética ligação ao grupo assaltante), me viesse a ser devolvido, já que constituía, para mim, uma "relíquia" da Guiné. E o comportamento deu resultado. Um dia, idos a Bula, incluindo eu como parte interessada, apareceu o capitão com um envelope, que me entregou, e, dentro dele, o punhal que eu tinha encontrado em terreno do Senegal, não fosse o alívio fisiológico que me fez parar. Naquele período de tempo, era uma guerra que até dava para isto... Eis o punhal na foto. Que tem uma baínha feita em cabedal por um artesão de Ingoré.

Penso que posso terminar e dizer o que agora a liberdade nos concede.
Nas "Conversas em Família" do Prof. Marcelo Caetano, dizia que o Senegal protestava pelo facto de, quando em vez, se invadir o seu território pelas nossas tropas. E justificava-se que, em guerra e próximo da fronteira, como resultado da refrega, alguns projécteis saídos dos canos das armas ligeiras (ainda não havia em Ingoré canhões sem recuo, na altura em que lá estive) fossem cair ao Senegal. Mas... invasões? Nunca!...
Ria-me (em casa) porque sabia o que se passava. Mas tinha, para mim, uma outra interpretação. É que os marcos da fronteira estavam separados e só eram descortináveis de longe a longe com distâncias significativas entre si. Quer dizer que, na floresta, numa perseguição, não se dava conta da fronteira, porque não tinha, além dos citados marcos, nalguns casos indetectáveis e camuflados pela vegetação, qualquer vedação, mesmo que fosse de arame ou uma guita...
Mas invadir o território, invadia-se... mas sem querer!!!
Nota final - Esta tabanca foi reconstruída por uma das últimas Unidades sedeadas em Ingoré, de que fazia parte o Manuel Silva Ferreira Martins (mecânico) e o Armando Santos (maqueiro), que esteve ainda algum tempo nesta tabanca, dando a colaboração da sua especialidade à população.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Coisas da Guiné - 3

Uma festa encontrar conterrâneos!!!

Da minha estadia na Guiné, vou falar de conterrâneos.
Pelo menos, anteriormente, citei dois que, não tendo estado comigo, porque foram mobilizados muito tempo depois, têm a particularidade e coincidência de terem estado no mesmo local onde "estacionei" durante dezasseis meses! O Manuel e o Armando, repito. Pelo menos naquele tempo, parecia-me que era fácil encontrarmos alguém conhecido ou, pelo menos, saber onde estavam, nestas coisas da guerra colonial.

Um deles, meu companheiro da adolescência e juventude, (aqui na foto ao lado) chama-se Fernando Gomes de Oliveira, durante vários anos residente em Arrancada e mais tarde casado, "emigrou" para perto, só até Recardães, onde ainda se encontra.
Este meu amigo (porque posso e devo dizer assim), encontrei-o no Quartel General, em Bissau, sendo a sua especialidade radiomontador.
Claro que não é necessário descrever a satisfação, regozijo e alegria de o ter encontrado e de termos estado juntos.

Para que esta história não se torne enfadonha e longa, passo a citar mais dois nomes e que são os seguintes:

Trata-se de António Gomes da Silva, natural de Arrancada, filho do Sr. Anarolindo da Silva, que foi muitos anos o sacristão da capela de Nª Sª da Conceição, naquele lugar, hoje residente na Alagoa, junto à passagem de nível. Também não "emigrou" para longe.
O António desempenhou funções de responsável pelo refeitório dos doentes no Hospital Militar de Bissau, onde, logicamente, sempre esteve.
Outro, o Augusto Domingues da Silva, reside actualmente no Casaínho de Cima, na Rua do Guimarães, nº 155, era de Casal de Álvaro, foi meu companheiro de trabalho na fábrica de ferragens Amaro, Lª, exímio músico da Banda de Casal de Álvaro e, creio que, actualmente, na Banda 12 de Abril de Travassô.
O Augusto era companheiro do António, curiosamente também no Hospital Militar de Bissau, e desempenhava funções de uma especialidade de saúde e, naquele Hospital, era um dos assistentes (ou ajudante) da sala de cirurgia.

A comprovar o que se relata por aqui, ficam apenas duas fotos com os protagonistas, como acima referi.
Não se torna necessário enaltecer e dar a conhecer que quando nos deslocávamos a Bissau, a nossa estadia era passada e feita no Hospital, e, nele, passei trinta dias de férias à borla, pois não tinha meios para vir numa deslocação a Portugal, nos meios normais.
Ainda tentei uma deslocação à «boleia» num dos aviões da força aérea. Mas os pedidos e as "cunhas" no Quartel General eram de tal ordem, que só por mero acaso conseguiria, apesar de ter mencionado, após publicação, um louvor com que fui distinguido, na respectiva Ordem de Serviço da Unidade, do Batalhão a que pertencíamos e da Unidade Mobilizadora em Portugal. Mas nem isso influenciou nada, além da minha própria "cunha" junto do oficial de operações do meu Batalhão Operacional.

Já lá vão, e há muito tempo, estas coisas da Guiné!!!

domingo, 21 de junho de 2009

CRUX FIDELIS

Crux Fidelis, é uma peça musical, cuja autoria é atribuída ao Rei de Portugal, D. João IV, mas que, parece, ainda não estará devidamente comprovado.
Tal como a peça musical que está no post anterior - Avé Maria, de Arcadelt - muito conhecida nos meios musicais corais, também esta, não sendo de duração excessiva, poderia correr o risco de se tornar incómoda e aborrecida, tanto para ensaios, como para apresentações, mas ambas são de uma harmonia muito agradável, espantosa e belíssima.
Porque aprendi a gostar tanto de uma, como de outra, na versão musical que se apresenta, é porque já as interpretei a ambas no naipe de voz no qual estou integrado. E só assim aprendi a conhecê-las, a saboreá-las e a gostar delas (músicas)!
Por isso, tanto esta como a anterior, tenho o prazer de as deixar ao gosto e deleite dos visitadores, para as ouvirem, se estiverem para aí virados...
Agora, virei pr'á veia musical. Vamos lá a ver onde é que isto vai parar...

AVÉ MARIA - JACOB ARCADELT (1505-1568)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

VEJA, POR FAVOR!

VOCÊ, MEU CARO AMIGO OU SIMPLESMENTE VISITADOR DESTE LOCAL, SEJA QUAL FOR A SUA TENDÊNCIA POLÍTICO-SOCIAL, SEJA QUAL FOR A SUA TENDÊNCIA FILOSÓFICA OU A SUA TENDÊNCIA RELIGIOSA (SEJA ELA QUAL FOR), E CASO NÃO CONHEÇA, VENHO PEDIR-LHE QUE DÊ UMA VISTA DE OLHOS NO TEXTO QUE VOU INDICAR, PELA SIMPLICIDADE, PELA SINTETIZAÇÃO DOS FACTOS, PELA FORMA AIROSA DA SUA MONTAGEM. CLIQUE AQUI...
OBRIGADO!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Coisas da Guiné - 2



O JORNAL DA CASERNA

Neste slide estão apenas algumas páginas ao que chamei, naquele tempo, na Guiné, «JORNAL DA CASERNA». É difícil aqui reproduzir tudo, mas não impossível. Também não era necessário digitalizar tudo para fazer uma amostra. O que falta, deduz-se facilmente. Teve muito trabalho pessoal e de um outro militar, de seu nome Armando Augusto Geraldes Soares (Alferes Miliciano), o ilustrador. E colaboração de outros oficiais, sargentos e praças da Companhia.
São eles que quero recordar e homenagear pela camaradagem construída ao longo de quase três anos.
O «Jornal da Caserna», como abaixo refiro, foi constituído por três séries: a primeira, feita com máquina de escrever e só o original é que era ilustrado com os desenhos do Geraldes; A 2ª série passou a ser feita em papel A4, no chapilógrafo (era um género de fotocopiadora que muitos ainda se lembram); a 3ª série era feita também no chapilógrafo, mas a tentar imitar a revista.
Como já disse em anteriores post's, posso afirmar que andei na Guiné, pelo menos durante dezasseis meses, a usufruir de um turismo quase autêntico. Estive numa zona que tinha uma estrada de terra batida (como todas da Guiné, com excepção da que ia de Bissau para o aeroporto e cujo alcatrão ia até Mansoa), cortada por imensos fios de água, que permitiam a passagem de pessoas e veículos pelos pontões feitos de tábuas e troncos de palmeira. E as rodas dos veículos tinham que passar por essas tábuas ao comprido, correndo o risco de, saindo delas, haver um despiste e um acidente. E a malta do volante, eram autênticos azes nestas passagens...
Passemos adiante... Então o que andaste por lá a fazer durante vinte e cinco meses?Muita coisa se fez, nenhuma guerra provocamos, ninguém (dos chamados independentistas) nos chateou, fora algumas escaramuças de menor importância e impacto. Só houve duas baixas na Companhia. Uma, por doença, salvo erro provocada por avançada úlcera que quando rebentou, nem a evacuação de helicóptero para o hospital foi a tempo. Outra, como já antes referi, provocada pelo rebentamento de uma armadilha que o próprio estava a montar num caminho perto da fronteira com o Senegal.
Mas entre muitas actividades desenvolvidas naquele período de paz (outros que para lá foram depois, já têm muito mais que contar), quero recordar o «JORNAL DA CASERNA», titulo e trabalho por mim iniciado, com a colaboração de outros camaradas de armas e que aqui deixo em algumas digitalizações, não esquecendo o Alf. Geraldes (grande artista de desenho livre) que era o ilustrador, a meu pedido, com as sugestões que lhe ia dando, como acima referi. Não esqueço ainda o Alfredo Martins (do Porto), escriturário da companhia, que apelidei de HÉRCULES (por ser muito magrinho), na qualidade de Director do Jornal, e o José de Sousa Piloto, apelidado por Massinhas, como administrador.
Dois ou três pormenores que, talvez, os olhos de quem me leia não conseguem adivinhar. Na evolução deste periódico, que em 24 meses foi feito quinze vezes (ou sejam 15 números), chegando a ser quinzenal, não é uma média muito má.
Queria chamar a atenção para a 2ª Série que aparece com a primeira página e com o cabeçalho, sendo que aquele desenho do cabeçalho retrata exactamente o local do aquartelamento, o edifício (que foi aproveitado de um armazém de produtos agrícolas locais), alguns anexos entretanto feitos por nós (refeitório, cozinha e até a torre de vigia construída com troncos de palmeira). Este desenho retrata de forma fiel e fidedigna o local onde estive com outros companheiros, onde não falta o arame farpado colocado junto à berma da estrada que nos passava em frente.
Neste mesmo local, mas do lado contrário à estrada, foi feito um aquartelamento com infraestruturas adequadas a um comando de Batalhão, onde estiveram, como referi antes, o Manuel da Silva Ferreira Martins, de Brunhido e o Armando Santos, do Carreiro.
No slide uma amostra dessas relíquias...

domingo, 14 de junho de 2009

IMAGENS DA GUINE

Na foto - E vão dois...!!!
AFINAL HAVIA OUTRO!

No post anterior fazia menção da estadia, na Guiné, na localidade de Ingoré, onde estive durante dezasseis meses, do conterrâneo Manuel da Silva Ferreira Martins, residente em Brunhido e com oficina na Póvoa.

Mas, entretanto, e como dizia naquele post, muitos outros por lá calcorrearam as estradas de pó, onde só cabiam as rodas dos jipes e dos Unimog's (uma de cada lado do trilho já estabelecido, como se imagina) mais concretamente um conterrâneo que esteve exactamente neste mesmo lugar, juntamente com o Manuel.

Trata-se do Armando Santos (Armando Dinis Tavares dos Santos) do Carreiro de Arrancada e com loja de ferragens e drogaria em Águeda (Cafer).

Em conversa com o Manuel, este acabou por me recordar que ambos "moravam" na mesma tabanca (camarata) e tinham a cama, como se lembram em termos militares, uma por cima e outra por baixo. Não me recordo agora como é que se chama a este sistema (beliche?).

Antes que o Armando saiba desta minha omissão involuntária, aqui fica o registo.

Prometo trazer mais episódios, pois este é apenas uma correcção.

Se houver alguém que tenha estado na Guiné e, particularmente, na zona de Bula, Ingoré, Sedengal, S. Domingos, Susana e Varela (que belíssima praia, frequentada por franceses noutros tempos!), agradeço contacto, ou a um dos conterrâneos aqui identificados. A minha passagem pela Guiné não se confina só a estes lugares, mas a mais outros que agora não vale a pena mencionar. Mais tarde...
Obrigado...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Coisas da Guiné - 1

O que está escrito na fotografia:
Frente ao Hospital Militar-Bissau. Ambiente rodeante:
Morro de baga-baga, cajueiro e intruso, que sou eu.

Um pequeno apontamento, que certamente vai dar muitos outros com pequenas estórias passadas na Guiné, entre os anos de 1963 - 14 de Julho, data do meu embarque em Lisboa - e de 1965, em 7 de Agosto, data do meu embarque em Bissau.
Isto porque acabei de adicionar a este blogue, mais um companheiro de jornada, todo ele feito por camaradas militares que passaram pela Guiné, a maior parte deles logo após eu ter regressado.

Esse blogue, que tem uma estrutura de organização excelente, com muita gente a colaborar, quase todos os dias publica estórias, fotos e demais elementos sobre a vida militar na Guiné, bem como algumas peripécias, umas com demonstrações de boa disposição dos acontecimentos daquele tempo, outras, está bem de ver, menos alegres e interessantes, para não lhe chamar trágicos. Pode ser consultado, conforme consta na barra lateral deste blogue, na desginação Luis Graça & Camaradas da Guiné.
(Como fazem questão de salientar, é a «Tabanca Grande» onde cabem todos os militares que estiveram na Guiné).

«Tabanca» significa, para quem não sabe, conjunto de moradias de colmo, aldeamento próprio dos nativos.Ali encontrei uma lista de militares falecidos na Guiné, que foram sepultados no cemitério de Bissau e, entre eles, um camarada da minha Companhia, José Gonçalves Rua, que foi vítima do rebentamento de uma armadilha de que ele próprio, no desempenho de uma missão da sua especialidade, acabou por ser vítima.

No blogue surge a indicação "vítima de arma de fogo". Mas não foi bem isso... (embora a diferença não tenha sido muita) foi a armadilha montada por ele, que rebentou. Não assisti a este trágico e fatídico episódio, pois estava deslocado em Bula, em serviço, a uns bons quilómetros de distância do local onde estacionava a minha companhia. E vi os meus camaradas passarem, poucas horas após o trágico acidente, na viatura que transportava o corpo do malogrado Rua em direcção a Bissau. E só agora, passados mais de quarenta anos, através daquele blogue, é que fiquei a saber que o corpo ficou sepultado em Bissau e não foi trasladado para Lamego (Penude), terra da sua naturalidade. Porque era obrigação dos responsáveis de então; políticos e militares. Embora esteja identificada a sepultura onde repousam os seus restos mortais. Quando dei com isto, fiquei vermelho de raiva e revolta... porque estava convencido que tinha vindo para Portugal.

Virei aqui regularmente contar algumas dessas peripécias da Guiné, alertando desde já que não há muitas daquelas que talvez tivessem interesse em ler, pois não tenho pejo em informar toda a gente, que não fui nem terei sido herói na Guiné. Mas casos e histórias, há sempre... que depois conto em pormenor.
Não termino sem dizer que alguns conterrâneos da freguesia estiveram na Guiné (e nem são tão poucos quanto isso), alguns deles no mesmo local, junto à fronteira com o Senegal, onde chguei em 1963. Nomeadamente, não há mal em dizê-lo, um grande amigo, Manuel da Silva Ferreira Martins, residente em Brunhido, o muito conhecido mecânico das motorizadas (e outra maquinaria), com oficina ainda no mesmo sítio (Póvoa do Espírito Santo), que no local onde estive (Ingoré), desempenhou funções de mecânico auto. Mas eu já cá estava e ele foi para lá...

Voltaremos com mais umas coisas...
Até breve.

domingo, 7 de junho de 2009

IMAGENS QUE FALAM





Estas são imagens que andavam por aí deambulando nos ficheiros. Algumas legendadas e outras não por motivos que estão à vista ou que resultam de falta de inspiração para as baptizar. São, pelo menos, o que os nossos olhos e ângulos vão detectando e que achamos que podem fazer alguma diferença. Também não somos grandes peritos e com formação técnica na matéria. Mas penso que há por aí pessoas (e bastantes) que gostam de ver isto ou reverem-se nestas imagens. Fica a promessa de aqui podermos arranjar outras séries de fotos locais ou das proximidades. Aqui aparecem algumas (poucas) de uns locais que visitei no princípio de Maio. Estão identificadas. Espero que valham alguma coisa.

sábado, 6 de junho de 2009

ESTOU EM REFLEXÃO

Tinha dito, por aqui algures, que não me pronunciava sobre determinadas matérias, que não fosse unica e simplesmente a história das «Terras do Marnel e Vouga».
Pelo que tenho visto por aqui, há matéria em demasia que nos desperta e não nos deixa ficar indiferentes e em silêncio perante algumas situações que, talvez, sejam autênticos escândalos.

Ou seja:
Amanhã, vamos votar. Segundo as leis e os cânones, hoje é dia de meditação. Farto-me de rir com esta de ter que meditar... e para o fazer a esta hora terei de procurar um local bem acomodativo, silencioso e com ambiente propício à meditação!!!!!

Votar.
Diz-se por aí que é um direito cívico. Então vamos votar... nem que seja em branco. Também será uma forma de demonstrar alguma coisa... ora vejam se lá percebem...

Depois medito sobre a campanha eleitoral. Só há um termo: vergonha! Ou melhor, não a têm...

Depois tenho que meditar nos candidatos.
E são candidatos ao Parlamento Europeu... não é à nossa Assembleia da República! E o que é que nos disseram, na campanha eleitoral, sobre o trabalho, as ideias que têm para propor? Ouviram alguma coisa, que não fosse só lançar suspeições e acusações de uns sobre os outros?
Porque sobre Europa e o plano e produção do seu trabalho no Parlamento da União Europeia... não ouvi nada.

São quase 23 horas e eu, daqui a pouco, talvez tenha que desligar isto, porque às tantas acaba também o meu prazo e direito de meditação. Tenho que meditar muito mais depressa, para ver se ainda vale a pena votar em alguém e acabar isto... e tenho de encontrar o candidato antes da meia-noite? Ou então, o melhor a fazer, é ir dormir uma boa soneca.
Por falar em alguém, sabe quem são os candidatos? Eu fixei dois ou três... e os outros, quem são? Não sei. E porque é que lhes interessa o lugar no Parlamento da União Europeia? Por isto ... (clique no azul). E isto é já uma notícia de 2003.

Veja e leia tudo. Depois diga qualquer coisa, se quizer... porque às tantas fica já sem vontade de reagir e responder-me.
Até amanhã, no sítio do costume. Não falte, vá...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

ÁLVARO CUNHAL

A biografia de Álvaro Barreirinhas Cunhal é muito extensa. Não vamos nem temos a pretensão de apresentar, a pente fino, toda a história que criou. Ficam apenas alguns flashes, com a finalidade de cumprir o prometido, principalmente para os mais novos.
Álvaro Cunhal nasceu em 10 de Novembro de 1913, em Coimbra, na freguesia da Sé Nova. Seu pai, Avelino Henriques da Costa Cunhal, advogado, republicano e liberal, nunca foi comunista, era escritor e pintor, exercendo advocacia «nas horas livres», como diz José Brandão no site «vidas lusófonas». Álvaro Cunhal herdou as qualidades e vocações do pai.
Sua mãe, Mercedes Ferreira Barreirinhas, era uma católica fervorosa, doméstica e tinha com seu filho conflitos frequentes, principalmente quando vestia o fato de macaco em casa.
Álvaro Cunhal, ainda segundo o mesmo site, foi baptizado em Seia, terra natal de seu pai e para onde se mudou toda a família. Teve por padrinhos o seu irmão mais velho António, que faleceu ainda muito novo, e madrinha Nossa Senhora da Assunção, por influência da mãe.
Teve mais duas irmãs, além do antes referido. Em Seia vai à escola primária donde foge logo no primeiro dia de aulas. Seu pai toma a responsabilidade de lhe dar aulas em casa. E assim fez os estudos primários. Mudam-se, entretanto, para Lisboa, sendo muito próximo de sua irmã mais nova (dez anos), de nome Maria Eugénia. Esta residia na Rua Sousa Martins, nº 17, próximo da esquadra do Matadouro, nas Picoas, que vigiava constantemente esta casa da família Cunhal.
Frequenta o Liceu Pedro Nunes e Camões, acabando o curso neste último. Matriculou-se na Faculdade de Direito e após várias peripécias, não deixamos de contar este episódio, havendo outros antes deste. Foi preso em 1939 e continua a estudar na prisão. Em Maio, próximo do fim da licenciatura, apresenta a sua tese sobre «A Realidade Social do Aborto». Como estava preso, a PIDE entendia que os professores deviam ir à prisão. Mas estes manifestavam-se contra e venceriam. Assim, foi Álvaro Cunhal, sob escolta policial, à Faculdade de Direito defender a sua tese. O Júri (por curiosidade actual ou mera coincidência) era formado pelos professores, próximos do regime, Cavaleiro Ferreira, Paulo Cunha e Marcelo Caetano. Eram todos contra o aborto. Mas a tese (100 páginas) foi classificada de «Bom com distinção». Terminou a licenciatura com a média de 16 valores.

NA REGIÃO DO VOUGA

Esta é apenas uma pequena e ligeira abordagem da biografia de Álvaro Cunhal, na qual apenas constam alguns pormenores que talvez sejam do desconhecimento da maioria dos meus visitadores. Mas como perguntava no post de apresentação sobre este assunto, «o que é que tem a ver Álvaro Cunhal com o blogue «Terras do Marnel» ou com a região do Vouga?».

Aqui se "refugiou" o Dr. Militão Ribeiro (já falecido)-militante do PCP

Explicamos brevemente. Ainda era eu um tanto adolescente e constava-se a meia voz que Álvaro Cunhal teria estado, clandestinamente, numa casa sita nas Cavadas de Cima, já na freguesia de Macinhata, na estrada que vai de Carvalhal da Portela para o Beco e que divide geograficamente as duas freguesias. E isto causava-me alguma curiosidade.
Sabíamos qual era a casa. Mas não tínhamos pormenores. Na foto que ilustra este post, facilmente se identifica. E fomos em busca de elementos históricos, escassos, naturalmente, por manifesta impossibilidade.
Álvaro Cunhal, não esteve refugiado, na clandestinidade, no lugar de Cavadas de Cima. Quem lá esteve seria um outro militante do Partido Comunista, o Dr. Militão Bessa Ribeiro e a sua companheira, que abaixo se refere quando é presa com este e Álvaro Cunhal, no Luso (Buçaco). Era natural que o Dr. Álvaro Cunhal por lá tivesse passado algumas vezes, de visita ao seu companheiro de Partido. Mas também sem confirmação.
Os nossos contactos de pesquisa não me souberam confirmar a data dessa estadia do Dr. Militão Ribeiro. E aqui nasce outra curiosidade. Um outro Valonguense, de todos conhecido e que já não está entre os vivos, António das Neves Martins de Barros, foi preso pela PIDE em 27 de Novembro de 1943. E foram-nos narrados alguns pormenores sobre os procedimentos, a identificação e localização daquele Valonguense.
Estas coincidências são para dizer que o Dr. Militão Ribeiro esteve nas Cavadas depois da detenção de António Barros, quando se admitia e apontava para uma data anterior.
Sucede depois que se admite ter existido uma denúncia (sem confirmação) sobre a estadia do Dr. Militão, cuja casa é “visitada” pela PIDE. Perante esta ameaça, é montada uma estratégia, enquanto o Dr. Militão fugia, pelas traseiras, sendo a polícia feita esperar e entretida pela companheira daquele.
Não tivemos oportunidade de confirmar, mas socorrendo-nos desta passagem do site «vidas lusófonas», talvez não andemos longe da realidade, citando: «Em Março de 1949 dá-se a prisão de Álvaro Cunhal, de Militão Ribeiro e de Sofia Ferreira numa casa clandestina no Luso. Seguem-se uma série de prisões de dirigentes comunistas.»
Isto quer dizer que se supõe que Militão Ribeiro tenha deixado a casa das Cavadas e deslocado para o Luso ao encontro de Álvaro Cunhal, onde todos acabaram por serem presos.
Existem ainda outros factos com interesse histórico (que é apenas o que interessa a este blogue e à orientação que imprimimos desde o seu início), mas que agora não vamos escalpelizar.
Ainda relacionado com esta região e com a freguesia de Valongo, sem confirmação, ter-se-á realizado uma reunião do Comité Central do PCP, em Arrancada, talvez por mais de uma vez. A data que nos foi apontada, 1942/1943, pela sua comparação com outros factos nestes anos sucedidos, carece de confirmação. E quanto à reunião, também não podemos confirmar que se tenha realizado. Mas é de admitir.
Mas, se necessário, a este tema voltaremos. Pelo menos fica aqui exposta, principalmente para os mais jovens, uma faceta histórico-política passada na nossa região e que no post anterior citamos.

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