segunda-feira, 29 de junho de 2009

Coisas da Guiné - 4

Este post acaba de ser incluído no sítio denominado http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/, que tem aqui um link identificado por Luis Graça & Camaradas da Guiné. Este blogue tem o módico número de 1.111.522 páginas visitadas (há pouco...)

Carabana Xerife era uma tabanca (aldeamento), paredes meias com a fronteira do Senegal, próximo de Ingoré, tendo ainda a meio caminho a tabanca de Ingorézinho.
Haviam informações de que existia a intenção de atacar Ingorézinho. Tomadas algumas precauções, uma secção foi para ali dormir, protegendo, pelas dimensões, estratégia que constituía e a "qualidade" dos seus habitantes.

Não sei a data exacta deste acontecimento, talvez em meados de 1964, porque havia chuva, e muita, como é costume na Guiné na época própria (a partir de Maio). A páginas tantas fomos acordados e foi-nos pedida uma "dúzia" de elementos que pretendessem ir a Ingorézinho, pois as comunicações via rádio davam conta da presença de alguma "malta IN" que estava a chatear, e logo ao fim de mais de um ano, em que se poupou algum no orçamento do Estado, pois toda a gente se limitava a ter em condições de funcionamento as suas armas individuais e as munições eram as mesmas do início. Ou seja, passávamos quase despercebidos... e ninguém se lembrava de nós... era só turismo...

Entre o grupo que foi ao encontro da secção, fiz-me incluir e lá fomos a correr, ao longo da bolanha, em direcção a Ingorézinho. Ainda não havia os acessos que agora existem. Tínhamos de ir a pé... embora talvez existisse um acesso àquela tabanca na estrada que ia para Barro, mas bastante longe, já não me lembro bem.
Ali chegados, juntamente com o comandante de Companhia, fomos mais à frente até Carabana Xerife, a tabanca atacada e destruída, e na presença do furriel que comandava a secção, o capitão perguntou:

-Chegaram a vê-los? Não foram atrás deles?
O furriel respondeu que sim, mas que deram com a fronteira e este entendeu que não devia ir além. Como não tinha ainda decorrido muito tempo, o capitão desata a correr, passa o marco da fronteira, por sinal um marco de dimensões razoáveis, de pedra e cal, que não deixava margem para dúvidas sobre a separação dos terrenos, qual marco que delimita as nossas propriedades, e todos nós atrás dele, entrando numa distância ainda razoável em terreno de outro dono.
Mas nada foi conseguido, porque o grupelho (não seria ainda um grupo organizado para a guerrilha, sem meios, que não fossem algumas facas, catanas e caixas de fósforos) tinha desaparecido.
O resultado desta escaramuça (porque não foi outra coisa comparado com aquilo que, na mesma região e local, passaram camaradas nossos, que têm muitas histórias contadas em blogues e outros locais internautas) resultou na destruição da tabanca pelo fogo ateado.
Nunca vi tanta galinha, cabritos, porcos estorricados com as palhotas todas destruídas. Não tenho fotos do local, há quem as tenha, mas não sei quem...
A população foi recolhida para próximo do aquartelamento, junto a Ingorézinho e, quando regressava da infrutífera perseguição, já o sol raiava, passo junto a uma enorme árvore e à volta dela folhas frescas todas amachucadas, com sinais que o grupo destruidor ali teria estacionado e aguardado o melhor momento para o ataque.

Logo ali, junto daquela árvore, senti uma necessidade fisiológica, ainda dentro do terreno do Senegal. E toca de me aliviar...
Claro, olhava sempre em várias direcções, até que vislumbrei um punhal bastante "jeitoso", que logo o coloquei no cinto das cartucheiras. Quando cheguei junto do capitão, era minha obrigação dar-lhe conta daquela prova do "crime", entregando-lho.
Chegados ao aquartelamento, como nessa altura eu era o "administrador" da companhia (não havia primeiro-sargento e como eu era empregado de escritório, com conhecimentos de contabilidade dos antigos cursos das Escolas Comerciais e Industriais, tinha sido convidado para tarefas administrativas) lá tive de dactilografar o relatório entretanto manuscrito pelo capitão e fomos dar um "passeio" até Bula (comando operacional do Batalhão de Caçadores 507 (Ten Cor. Helio Felgas), depois substituído pelo Batalhão de Cavalaria 790, (Ten. Cor. Henrique Calado), entregar o relatório e o punhal. No meio destas Unidades Militares, convém esclarecer que eu pertencia à Companhia de Caçadores 462, procedente de Chaves.

A história do punhal não ficou por aqui. Não deixei de "chatear" o capitão miliciano Jorge Saraiva Parracho, para que o punhal, que nada dizia e ajudava à solução de qualquer problema (a não ser uma hipotética ligação ao grupo assaltante), me viesse a ser devolvido, já que constituía, para mim, uma "relíquia" da Guiné. E o comportamento deu resultado. Um dia, idos a Bula, incluindo eu como parte interessada, apareceu o capitão com um envelope, que me entregou, e, dentro dele, o punhal que eu tinha encontrado em terreno do Senegal, não fosse o alívio fisiológico que me fez parar. Naquele período de tempo, era uma guerra que até dava para isto... Eis o punhal na foto. Que tem uma baínha feita em cabedal por um artesão de Ingoré.

Penso que posso terminar e dizer o que agora a liberdade nos concede.
Nas "Conversas em Família" do Prof. Marcelo Caetano, dizia que o Senegal protestava pelo facto de, quando em vez, se invadir o seu território pelas nossas tropas. E justificava-se que, em guerra e próximo da fronteira, como resultado da refrega, alguns projécteis saídos dos canos das armas ligeiras (ainda não havia em Ingoré canhões sem recuo, na altura em que lá estive) fossem cair ao Senegal. Mas... invasões? Nunca!...
Ria-me (em casa) porque sabia o que se passava. Mas tinha, para mim, uma outra interpretação. É que os marcos da fronteira estavam separados e só eram descortináveis de longe a longe com distâncias significativas entre si. Quer dizer que, na floresta, numa perseguição, não se dava conta da fronteira, porque não tinha, além dos citados marcos, nalguns casos indetectáveis e camuflados pela vegetação, qualquer vedação, mesmo que fosse de arame ou uma guita...
Mas invadir o território, invadia-se... mas sem querer!!!
Nota final - Esta tabanca foi reconstruída por uma das últimas Unidades sedeadas em Ingoré, de que fazia parte o Manuel Silva Ferreira Martins (mecânico) e o Armando Santos (maqueiro), que esteve ainda algum tempo nesta tabanca, dando a colaboração da sua especialidade à população.
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