quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A HISTÓRIA E O CONCEITO DA SEMANA - IV

Após alguns episódios descritos em páginas anteriores deste blogue, relacionados com a história e o conceito da semana, determina-me a consciência que, sobre este trabalho, descreva uma vivência pessoal experimentada em tempos não muito recuados.

DE SOL A SOL
Hoje as leis e outros tratados definem o conceito de horário de trabalho semanal de forma clara, inequívoca e sem ambiguidades. Mas ainda vivi, principalmente na agricultura, o que actualmente parece ser inaceitável e inconcebível. É que se trabalhava de sol a sol. Ou seja, o horário de trabalho, como vamos ver em outras circunstâncias, não tinha hora de início e fim.
Iniciava-se ao nascer do sol e terminava ao pôr-do-sol. E o sinal era dado pelos sinos, nos toques das Trindades. Lembro-me com clarividência que até o pequeno-almoço não eram ovos batidos e toucinho (tradicional americano), mas um copo de bagaço ou outro tipo de aguardente, que os mais idosos não dispensavam, antes de iniciar o trabalho, ainda o dia não clareava.

AS HORAS DE TRABALHO SEMANAL
A revolução industrial, que modificou e ampliou muitos conceitos a partir do século XVIII-XIX e dados históricos entretanto publicitados, colocam o horário de trabalho em cerca de 80 horas semanais, principalmente por volta do ano de 1780. O que em boa verdade, era praticamente equivalente a trabalhar de sol a sol.
Já por volta do ano de 1820, as estatísticas apontavam para 67 horas semanais. Em 1860, o horário de trabalho cifrava-se em 53 horas por semana.
Falta-me agora aqui o Estatuto do Trabalho Nacional, uma das primeiras legislações laborais e que falava no horário de trabalho em Portugal.
Mas creio que ainda há muita boa gente a lembrar-se que o horário de trabalho era de 48 horas semanais, de segunda a sábado.
Depois aparecem as definições de “semana inglesa” e da “semana americana” e sua adaptação em Portugal, que abordaremos mais tarde com os respectivos argumentos para as poder utilizar.

OS MOVIMENTOS E O 1º DE MAIO
Todas estas situações históricas desaguaram, muitas delas, em consequências nefastas para muitos trabalhadores, sendo a mais conhecida a revolta e a greve dos trabalhadores americanos da cidade de Chicago, em Maio de 1886, que encheram as ruas desta cidade e reivindicavam a jornada de trabalho para 8 horas diárias, com a participação de milhares de pessoas. Esta acção estendeu-se ainda durante mais alguns dias, havendo um pequeno levantamento no dia 3 de Maio, que acabou com uma escaramuça com a polícia e na morte de alguns manifestantes. No dia 4 de Maio uma nova manifestação foi organizada, como protesto pelos acontecimentos anteriores. Desconhecidos lançaram uma bomba contra a polícia, que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. Em resposta, a polícia abriu fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas de outras. Ficou esta acção conhecida como a Revolta de Haymarket.

Três anos depois, em 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu, por proposta de Raymond Lavigne, convocar anualmente uma manifestação com o intuito de lutar pelas oito horas de trabalho diário. A data escolhida foi o dia 1 de Maio, em homenagem às lutas laborais de Chicago.

Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação ocorrida no norte de França é dispersada pela polícia, dando origem à morte de dez manifestantes. Este acontecimento reforça o dia de luta dos trabalhadores e meses depois a mesma Internacional Socialista, realizada em Bruxelas, proclama esse dia como dia internacional da reivindicação das condições de trabalho.

O TRABALHO E OS REGIMES POLÍTICOS
Sabemos, agora, como até governos houve que se aproveitaram politicamente deste dia para proclamar as suas ideologias, assim como para reprimir, prender arbitrariamente e, até, torturar quem se manifestasse nesse dia.

Em Portugal, como se sabe, o dia 1 de Maio não era feriado. Só passou a ter esse estatuto legal a partir da revolução de 1974, assistindo-se, naquele dia, a uma manifestação de unidade de todo o povo trabalhador como nunca aconteceu, quer em Portugal, quer noutros países onde a democracia já ia de idade mais avançada.

Voltaremos a este tema oportunamente.
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