domingo, 28 de agosto de 2011

As crónicas de Adolfo Portela - 3

O rapé do Senhor Pereira

Segue assim, este terceiro trecho de uma das crónicas e de tantas outras que no livro estão...
Vista parcial da cidade de Águeda

«Na terceira passagem, figura o Senhor Pereira do latim, ou melhor, a sua criada Luzia, beata célebre da terra, que na beatice não ganhou menos celebridade do que o amo na palmatória. Falecido o mestre Pereira, a Luzia, aproveitando o enterro de um amigo dele que teve lugar alguns dias depois, foi-se até ao cemitério, na companhia da saudade, como dizem os poemas... - e, com licença do respectivo coveiro, introduziu no esquife do defunto uma moeda de cinco tostões...
- Diga lá ao Senhor Pereira que é para o rapé; ouviu?...
E recolheu a casa, toda muito tranquila e muito de bem com a sua alma, por ter ficado na certeza de que o Senhor Pereira agradeceria aquele presente, que outro de melhor estimação não podia dar-se a um tabaqueiro vicioso como ele fora em vida.
Olhem se a Luzia se lembrava de o presentear também com dois ou três dos seus antigos discípulos de latim, em cujas mãos a palmatória do amo pudesse matar o outro vício que ele tinha!.... Como seria difícil fazer a escolha de quem melhor a merecia, lá iria por certo toda uma geração de estudantes de Águeda fazer companhia ao Senhor Pereira! E nessa geração (parece que ainda tenho as mãos dormentes!) cabia o primeiro lugar ao desgraçado estudantinho de latim de 1879, que neste momento aqui está a contar a passagem da caixa do rapé...
Mas a senhora Luzia não se lembrou disso, e é natural também que o Senhor Pereira nunca lho fizesse lembrado. E, então, como águas passadas não moem moinho, atiremos com a palmatória do Senhor Pereira ao fogo do inferno, e que Deus Nosso Senhor lhe deixe tomar a sua pitada em sossego...»

-Continua, para finalizar este capítulo

As crónicas de Adolfo Portela - 2

O sapateiro fúnebre

Assim, seguidinhas, aqui vai a segunda crónica de Adolfo Portela, que tinha prometido no post anterior. A terceira crónica deste conjunto fúnebre, está já a seguir em cima.
Esta do sapateiro fúnebre, no seu livro «Águeda - Crónica, paisagens e tradições», é hilariante e do seguinte conteúdo original:
Epitáfio num mausoléu do cemitério de Valongo
«Na segunda passagem figura um sapateiro de Águeda, o qual, tendo mandado construir o seu mausoléu de família no cemitério da vila, se vestiu de lavado em certo domingo, arranchou a família toda em ar de festa, e «foi deitar-se ao comprido no gavetão que reservava para o seu cadáver, distribuindo logo à mulher e seus filhos os lugares que lhes haviam de pertencer no mausoléu. A visita completou-se com um jantar de família no próprio sítio em que hão-de ter descanso eterno.»

Sem mais, nem menos... tal qual está escrito!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

As crónicas de Adolfo Portela - 1

Um esposo inconsolável

Igreja Paroquial de Santa Eulália - Águeda
Agradeço a quem me ofereceu o livro de Adolfo Portela, porque à medida que me embrenho nas suas páginas, mais me apetece descobrir o que este escritor local dizia àcerca das «Crónicas, Paisagens e Tradições» de Águeda. É espantoso, às vezes hilariante, jocoso, enfim de uma graça a roçar o rídiculo, mas sem se desleixar no interesse que estas histórias às vezes provocam no leitor. E depois, não é vergonha alguma confessar a ignorância que havia em nós sobre o conteúdo deste livro - e de outros, concerteza. Desta feita vamos deixar aqui a primeira de três histórias, até porque se não fossem reproduzidas essas três histórias pitorescas de Adolfo Portela, não tinha piada nenhuma e ficava entroncada a graça que encontramos na descrição feita dos acontecimentos. Primeiro o título desta passagem:

4. Um esposo inconsolável. O sapateiro fúnebre, o rapé do Senhor Pereira.

 «E, agora, para fechar o capítulo, cujo assunto, por mais minuciosamente que seja tratado, não oferece barreiras nem estações de repouso, deixem-me narrar-lhe aqui três casos pitorescos da terra, em que o rídiculo surge de entre as próprias baetas fúnebres que o revestem. São passagens de cemitério, em que o Au-delà é tratado com a mais ingénua das irreverências.
Na primeira passagem figura um lastimável esposo do Casainho de Baixo, cujos sentimentos piedosos perante o trespasse da consorte, foram assim tornados públicos, na Soberania do Povo, em Junho de 1891:»

«Haverá um mês, faleceu uma mulher do campo, na povoação de Casainho de Baixo, freguesia de Espinhel. O marido estimava-a imensamente. E, como prova do seu afecto e testemunho da sua saudade pela esposa morta, ele, que já é um velho, prometeu não sair de casa sem trazer ao pescoço, presa a uma longa fita preta, a chave do caixão em que foi envolvido o cadáver da sua doce e amada companheira de toda a vida. O homem chama-se Albino Alves Loureiro, e vem todos os domingos a esta vila, vestido de luto, e com a fita de crepe pendente do pescoço.»

Brevemente apresentaremos o segundo episódio do livro de Adolfo Portela, o sapateiro fúnebre.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Junta de Freguesia na história - 84

Os cidadãos são todos iguais

Mas nem sempre tais cidadãos são iguais. Referimo-nos aos ricos, fluentes, com poder económico e social, que condicionam, de algum modo, a vida, principalmente a dos outros.
Isto para denunciar a nossa curiosidade quando a acta da Junta de Freguesia de 27 de Junho de 1915, faz constar um facto que contraria um pouco esta teoria. Em vez de estarmos a fazer considerações e explicações, faça o favor de ler o que na mesma consta:
Palacete da Quinta de Aguieira, onde residiu o Conde de Águeda
«Foi também deliberado oficiar à Câmara Municipal de Águeda, pedindo para que intime o doutor Manuel Homem de Melo da Câmara (Conde de Águeda) a mandar proceder à limpeza da vala pública denominada vala do "Rego", na parte que atravessa o seu prédio neste lugar de Arrancada, a fim de evitar as inundações dos prédios vizinhos, por falta daquela limpeza, tornando-os inteiramente inabitáveis; e bem assim para que o mesmo cidadão mande proceder ao encanamento da água que do rio de Baixo vai para o seu prédio da quinta do Vale, ao cabo do pontão sobre o mesmo rio, no caminho público que ali passa, a fim de ser depois aterrado e beneficiado o mesmo caminho. Não mandando proceder ao dito encanamento no prazo que lhe for marcado subentender-se-á que desiste da passagem da mesma água, pelo que esta lhe será vedada pelo supradito aterro.»

Só por mera curiosidade face à posição da Junta perante aquele cidadão, que foi o Conde de Águeda, diremos ainda que esta sessão de 27 de Junho de 1915, estava constituída pelos seguintes membros da Junta: Álvaro de Oliveira Bastos, presidente, João da Fonseca Morais, António Gomes de Oliveira e Albano Ferreira da Costa, vogais.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Coisas da Guiné - 37

14 de Agosto de 1965

Este local ficava frente ao Hospital Militar 241-Bissau
Eu bem que tinha colocado no calendário do Outlook, deste dia do mês de Agosto, um lembrete, para ver se não me esquecia! E que chatice, ia mesmo passando... conto o que é:
Esqueci-me por que já foi há muitos anos... (desculpa esfarrapada...)
Porque estas coisas nunca esquecem.
A minha juventude, como a de tantos outros, foi «atirada» para África, concretamente para a Guiné. Os documentos daquele tempo que nos «ofereciam» na tropa não mentem, porque escriturados minuciosamente, onde nada faltava.
Então li e reli e a coisa foi assim, segundo o documento:
«1963. Embarcou em Lisboa, em 14 de Julho, com destino ao CTI da Guiné, fazendo parte da CCaç 462. Desembarcou em Bissau em 21 de Julho, desde quando conta 100% de aumento no tempo de serviço.
1965. Embarcou em Bissau de regresso à Metrópole em 7 de Agosto, desde quando deixa de contar 100% de aumento no tempo de serviço. Desembarcou em Lisboa em 14 do mesmo mês».
Aqui fica a efeméride, triste efeméride (enquanto obrigado a ir e a permanecer na Guiné), alegre efeméride, porque iria, finalmente, ser livre (em parte). E lá tive de ir de comboio, um dia inteiro, em 1965, de Lisboa a Campanhã, depois daqui à Régua e para finalizar naquele comboio «horrível», da linha do Corgo, mas agora saudoso, da Régua até Chaves.
Ali chegámos estava o dia quase a acabar. Tivémos de desfilar, como era da praxe, pelas ruas da cidade. Mas até tinham refeição preparada para a malta comer. E local para dormir. Mas qual quê, ninguém ou poucos comeram (eu um deles) e quase ninguém, ou mesmo ninguém lá ficou. O que eu e outros queríamos era chegar a casa. E metemo-nos numa aventura.
Fomos direitos a um táxi, discutidos preços, lá vem um homem trazer-nos ao Porto. Por ruas e estradas que, actualmente, nem o diabo delas gostaria. Lembro-me de ter chegado, com mais outros, salvo erro 5 camaradas, às cinco da manhã a S. Bento.
Aí mesmo, logo que as horas se tornassem convenientes, toca de requisitar bilhete e vir até Aveiro.
Interessante recordar agora, tinha dito à minha mãe e ao meu pai, que chegaria cerca das 17 horas ao apeadeiro de Aguieira, o mais próximo da minha residência, no comboio (o saudoso Vouguinha) que ali passava mais ou menos àquela hora. Isto já no dia 16 de Agosto, porque entretanto ficámos uma noite em Lisboa no Regimento de Engenharia, de 14 para 15 de Agosto. Já nem sei, tal era a ansiedade, porque pouco tempo lá estive. Penso que apareci, como outros, no quartel, de manhã cedo, para o pequeno almoço e para o transporte até Santa Apolónia.
O que é certo é que ainda durante a manhã do dia 16 já estava em Aveiro. O dia 15 foi passado na viagem de comboio até Chaves...
Mas como tinha informado que a minha chegada era àquela hora (17h), fui passear e rever esta bela cidade capital do meu distrito, tão diferente em dois anos de ausência, almocei já não sei onde, e, chegada a hora, lá apanhei o comboio de regresso a casa.
Ia, finalmente, acabar de vez com as preocupações principalmente da minha mãe (e de tantas outras, ao tempo), pois meu pai tinha ido a Lisboa ao Cais de Alcantâra, se não estou em erro.
E assim, foi aquele dia 14 de Agosto de 1965, que terminou no dia 16 por volta das 17 horas.
Que deixou dois anos de marcas, menos incisivas que as de outros camaradas...

domingo, 14 de agosto de 2011

As Meninas Mascarenhas

O LIVRO - XLVII

Como já tinha dito na última postagem sobre esta série, as Meninas Mascarenhas não chegaram a embarcar numa praia abaixo de Vila Nova de Gaia. De seguida há uma série de textos de respostas publicadas nos jornais de Lisboa, em nome de Joaquim Álvaro, tutor das Meninas Mascarenhas, até se chegar a outros tantos textos, longos, próprios dos tribunais e tal qual os documentos eram apresentados nessas instâncias. Por isso não os vamos citar.
Foto retirada do site www.funchal500anos.com/
Mas o expediente de que se serviu o tutor das meninas mantinha-se nos seus horizontes, como solução segura e adequada, era a emigração. E assim foi decidido. Situa-se esta história no mês de Setembro de 1848. Os amigos do Dr. Joaquim Álvaro, no Porto, tinham prevenido que ia sair do Douro um brigue francês com carregamento para Bordéus.
E foi nesse navio que as duas meninas foram para Bordéus com o seu tutor. No dia em que o barco saiu da barra, havia mar chão, ondas tranquilas e azuis. Era um barco elegante, todo pintado de branco, seguro e ligeiro. A bagagem ja estava no navio enquanto fundeado no Douro.
No local previamente estabelecido, o barco pairou durante algum tempo, dele saíu um escaler que fora lançado à agua e fora até à praia receber as duas órfãs e o seu tutor. Terá existido ainda alguma dificuldade mas as crianças lá foram, corajosamente, para bordo. E pouco depois, desfraldadas todas as velas e tocado pelos ventos do norte, rompeu as águas do mar e seguia para França, que seria a terra da libertação e da paz.
E as primeiras notícias vindas de França foram muito agradáveis. A viagem correu de excelentes feições, com uma travessia tranquila e feliz. Diz-se ainda que o passadio de bordo e os ares do mar tinham feito muito bem às Meninas.
De seguida veremos algumas ocorrências em França, cuja estadia durou dois anos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Soberania do Povo

Àcerca do livro de Adolfo Portela «Águeda, crónica, paisagens, tradições» é interessante, historicamente falando, deixar aqui um nadinha do que aquele escritor da Terra deixou sobre o início da publicação do jornal «Soberania do Povo». O primeiro número saiu em 1 de Janeiro de 1879.
«As tradições da velha política de Águeda - com os ódios, lá ao fundo, a ferverem, e o João Ribeiro a despachar comunicados para o Campeão...(1) - dissiparam-se de todo, ao aparecer na rua um rapaz da terra, a apregoar:
- É a Soberania do Povo!
Estava feita a revolução - uma revolução profunda nos processos e na literatura da política de Águeda.
O pregoeiro da gazeta nova trazia na garganta, sem o saber, um vibrante clarim a anunciar uma alvorada de triunfo. - Aleluia!»

E mais aidante...
«Não era só um campeão (1) novo que aparecia nas boticas. Não. Era o ensinamento e a proclamação de um direito, a afirmar-se num grito de revolta.
Os Paços do Concelho - onde uma Câmara estava a matar o tempo com palestras ociosas, encoimando os inimigos para lisonjear os amigos - eram também uma casa do povo e não só um palacete para hospedar as vaidades e os orgulhos de quem quer que fosse.»

É uma delícia ler estas crónicas do século XIX da velha Águeda e apreciar sobremaneira aquilo que as palavras deixam reflectir de como era a vida da vila e das suas gentes, importantes, morgados, até...
Vamos passar um pouco adiante, embora muito mais haveria a transcrever...
«Entre um barqueiro e um cavador, chegou a compreender-se isto: o recenseamento político não é um rol de nomes, é um cadastro de cidadãos; o voto não é um foro a pagar, é um direito a registar e a respeitar.
- É a Soberania do Povo!
E para terminar:
«Ainda se distinguiam lá ao longe, os derradeiros compassos dos hinos guerreiros, com que as filarmónicas partidárias da nossa terra se acometiam. Os silveiros e os canários tentavam mostrar os dentes, ainda. O serpentão do Salvador Galheta rouquejava de lá, com as bombas perras do azebre.
Mas tudo isso ia desfalecer em breve, ao cantar rebelde dos hinos novos.
- É a Soberania do Povo!
(E o Zé Chicha, que era já, a esse tempo, uma relíquia histórica do velho partidarismo regional, mordia o bigode significativamente...)»

(1) - O Campeão que o autor alude no texto era o título de um jornal que antecedeu a Soberania do Povo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Junta de Freguesia na história - 83

Pagar as escolas

Cruzeiro de Arrancada, há muito tempo
(Foto cedida por Filipe Vidal)

Demos conta que ainda não havia terminado a transcrição história da acta da sessão da Junta de Freguesia de 6 de Junho de 1915.
Efectivamente nela ainda consta que:

«Tornando-se indispensável pagar ao empreiteiro, foi deliberado levantar a quantida de quinhentos escudos, que esta Junta tem na Caixa Económica. Foi igualmente deliberado oficiar ao Director das Obras Públicas deste distrito de Aveiro, para mandar vir o respectivo fiscal vistoriar, medir e avaliar os trabalhos já executados da casa da Escola, a fim de se fazer o primeiro pagamento ao respectivo empreiteiro, e bem assim para organizar o precatório para o levantamento da respectiva quantia da Caixa Geral de Depósitos.»
 
 
E lá iam andando, devagar, devagarinho, as obras das novas escolas no ano de 1915.

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