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domingo, 7 de novembro de 2010

Coisas da Guiné - 32

Estranha Noiva de Guerra

Comecemos por dizer que há muito tempo não trazia aqui qualquer coisa sobre a Guiné. Temos agora um motivo, que se trata de um romance de Armor Pires Mota, que tem aquele título. Tenho vários livros deste prestigiado escritor, de Águas Boas-Oiã, alguns deles como tema de fundo a guerra que foi vivida na Guiné. Somos amigos há muitos anos e cabe aqui recordar até alguns factos.
Quanto à guerra, sofreu mais o Armor que eu, como por aqui tenho denunciado. Para além do Armor me ter valido e ajudado, moralmente, num momento trágico da minha vida, após a Guiné, bem como sua saudosa esposa, já falecida, aproximou-nos o trabalho, o jornal Soberania do Povo, as reportagens de «O Préstimo a caminho de Lisboa» (antes de 1974) e agora a Guiné e outras coisas que não importam.
É quanto à Guiné que existe a maior surpresa da vida militar de ambos. O Armor foi para um local diferente daquele que me foi destinado. Nunca nos encontramos na Guiné. Teve uma vida de guerra muito sofrida, na sua CCav 490 (se não estou em erro). Uma outra curiosidade, está no facto de ambos, embarcados no mesmo navio, chegamos a Lisboa, sem nunca, mesmo no barco, nos termos encontrado.O navio era o «Niassa». Continuamos com os nossos contactos, por causa disto e daquilo e dos livros, e só de vez em quando.  Ultimamente um pouco mais. Agora por causa do livro com aquele título.
O livro tem uma programação prestigiada para o seu lançamento. E vai ser:
- 10 de Novembro, pelas 18:30 horas, na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa, por Beja Santos.
- 13 de Novembro, pelas 16 horas, no Centro Cultural Élio Maia, no Silveiro, por Beja Santos.
- 19 de Novembro, pelas 21:30 horas, na Livraria Bertrand, do Forum de Aveiro, por João de Mancelos.
Dos direitos de autor, prescindiu ele dos mesmos em favor dos Centro de Apoio de Inclusão Social, da Liga dos Combatentes.
O Dr. Beja Santos também foi um militar da e na Guiné. E é autor de vários livros da sua vivência neste país.
No dia 13 de Novembro, no Silveiro, lá estarei.
Para terminar, este factor importante:
Estava a chegar a casa, agora há pouco, e vi que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, apresentou este livro de Armor Pires Mota. Daí o facto de me ter lembrado desta nota, já longa, aqui. Ainda não tenho o livro e estou curioso e ansioso para o ler.
Em cima uma amostragem da capa, com uma fotografia genuína da Guiné. O Armor ainda me telefonou a perguntar se eu tinha uma foto da Guiné que incluísse aquela imagem de um soldado a ser transportado, ferido ou morto.Queria que a capa do livro tivesse esta imagem. Ele lá sabe porquê. E quando o ler, certamente que ficarei também a saber...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Gente destas terras - 21

Por bem da Língua
Inspector Gomes dos Santos



Voltamos com mais um capítulo do livro do Insp. Gomes dos Santos, porque ficou alguma coisa (talvez mais do que muita) para dizer.
Um dos pormenores que havia a divulgar é que este seu livro de fazer ensinar a escrever bem e correcto, é mais comparável ao nosso conhecido e relativamente actualizado Prontuário Ortográfico que, penso, a maioria terá por casa.
Mas há uma diferença; é que o Prontuário, de 18 de Março de 1997, dá-nos conta das palavras, da fonética, regras, acentuações, sílabas e tantas outras regras de bem escrever. Por Bem da Língua, conta histórias, dizendo com elas como é que se escrevem as palavras, o que significam e o que traduzem quando escritas de uma forma ou de outra.
Lembrei-me desta comparação, que refuto de bastante interesse e curiosidade.
Por bem da Língua, já referi, foi concluído no Natal de 1959 e ficou transformado em livro em 1960.

Para ilustrar o que antes se refere, quero deixar aqui duas ou três histórias do Insp. Gomes dos Santos, inseridas neste «seu prontuário», algumas até com certa piada.

a) - Eu fui o que bebi menos
- Um amigo que ouviu, como eu, numa camioneta, esta frase a um homem do povo, da Mealhada, perguntou-me se era correcta.
Respondi que não é a forma gramatical e culta, visto que essa seria:
- Eu fui o (ou aquele) que bebeu menos.
Mas é perfeita e corrente dentro da índole popular.
O pronome eu (que serve sempre de sujeito) atrai a forma verbal concordante bebi. Eu bebi.

b) - Uma lei nova e uma nova lei, não serão uma e a mesma coisa?
«O Século» do dia 10-12-1959 publicou um artigo de fundo, assim intitulado:
«A caça precisa de nova lei,
que seja uma lei nova.»
Como em português é facultativa a colocação do adjectivo (antes ou depois do substantivo) a significação deveria ser a mesma.
Todavia, aqui, nova lei significa outra lei; e a expressão "que seja uma lei nova" quer dizer uma lei actual.
Portanto, - uma outra lei, actualizada, ou adequada às necessidades presentes.
Pode, pois, modificar subtilmente o sentido, a colocação do adjectivo.
É o caso do homem grande (corpulento), e do grande homem (ilustre, valioso).

E com estas, por cá nos ficamos...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Para inicio de dia

Eu e Ninguém...


Quem sou eu?
Ninguém!
Sou o desconhecido…
Sou o vazio…
Sou aquilo que o teu olhar descreve:
Tristeza?
Amargura?
Não!
Ninguém.


O choro aumenta
A dor rebenta
A revolta espreita
Eu que faço?


Não sei quem sou
Não sei quem és
Pára! Não me obrigues a pensar.
Não quero pensar
Porque sofro
Porque enlouqueço
Nesta incerteza amarga e sôfrega
Em que vivo.
Incerteza que me destrói
E mata!
Não. Não quero pensar para não existir
Deixa-me dormir…
O sonho não me provoca…
Tranquiliza-me.
A realidade,
Essa…
Sufoca-me!!!

*****

Poema (como há outros) de Isilda Maria Duarte Pereira (Licenciada em Línguas e Literatura Moderna - Variante Português-Francês, pela Universidade de Aveiro). A leccionar algures no Algarve. Texto publicado em de Janeiro de 1997, no jornal paroquial «Valongo do Vouga».


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Gente destas terras - X

Júlia dos Santos Magalhães
- A paixão pela cultura -
..

Júlia dos Santos Magalhães

Foi daquela forma que em 5 de Novembro de 1999 intitulámos uma pequena reportagem sobre a vida da faceta cultural de Júlia dos Santos Magalhães.
“Herdeira dos dons de um Homem de armas, também ela, filha do guarda 603, que era, naquele tempo, senão o principal pelo menos um dos principais seguranças do marechal Carmona, teve na sua vida a situação enquadrada no exemplo da peça teatral “Uns Comem os figos…” - dizia na altura a reportagem no «Região de Águeda»(esta levada à cena, recorde-se, mais recentemente num espectáculo revisteiro, aqui já publicado, que foi conhecido por «Toca a Rasgar», no qual participámos).
A sua paixão pelo palco começa na catequese pela mão do então pároco de Valongo do Vouga, padre Manuel Rodrigues Pinheiro Júnior, em 1938, no dia 3 de Janeiro. Participaram outras crianças, que o eram na altura, grande parte delas ainda vivas, como é o caso da apresentadora do espectáculo Maria de Lourdes Matos, esposa de Manuel Augusto Borges de Oliveira, residentes no Covão.
Havia ainda outros, alguns deles já desaparecidos do convívio humano, mas que citamos tal qual os publicamos em 1999: Maria dos Santos, Norberto Morais, Maria Celene Corga, Urbano Estimado, Manuel Corga, José F. Carmo, António Simões Estima, Armando Corga, Armando S. Correia, José Maria Estimado, José Morais, e Homero Magalhães. Havia ainda interpretações variadas onde se apresentavam Maria Augusta Silva, Maria do Carmo Martins, Deolinda Lourenço, Maria Augusta Morais e Benvinda Corga.
Júlia Magalhães intervinha num número chamado “Brincos de Cereja” especialmente feito para si e mais tarde recriados pela sua filha Maria Albertina e pela sua neta Leonor. Um grupo de meninos, cujo solista era Norberto Morais, tinham um refrão que dizia mais ou menos assim:

É que há certa bicharada
Que não presta para nada
Nem é útil a ninguém
Só faz o mal e nunca o bem.

A sua vida de autodidacta nunca parou. Após um tempo de interregno, reaparece em cena com “A Rosa do Adro”. Depois, apoiada pela Casa do Povo, foi ver grupos de teatro por si ensaiados e encenados, chegando a ter inscrito no INATEL um dos melhores grupos do distrito de Aveiro, além de outras actividades. Este trabalho culminou com uma participação na TV, canal 1, no programa “Às dez”, que era apresentado por Madalena Balsa e Sérgio Figueira e entretanto substituído pelo programa “Praça da Alegria”.

No próximo post iremos abordar os livros de Júlia dos Santos Magalhães.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Gente destas terras - IX

Júlia dos Santos Magalhães
- Brunhido -

Andava de volta das pesquisas sobre pessoas da freguesia de Valongo do Vouga que, por um ou outro facto, se tivesse distinguido e que tenha feito história. Coisa que tenho feito nos últimos post’s. Já ia em adiantado estado de “serviço” quando me lembrei que sou um adepto de referências, de homenagens, de distinções, a quem merecer, mas durante a vida das pessoas e não testemunhar públicos reconhecimentos após a sua morte e, em muitos casos, passados muitos anos.
Ora bolas, as pessoas, em vida, já tinham feito história, merecimentos, já tinham justificado essas distinções. Ora, aquela primeira postura – homenagear, distinguir ou enaltecer após a sua morte – parece que quer significar que nos “esquecemos” das pessoas e do que foram e, muito mais tarde, alguém se lembra dos seus feitos e toca de arranjar e organizar homenagem.
Se houver justificação para enaltecer, que se faça em vida, é, pelo menos, a minha modesta opinião.
É esta a intenção que me move, aqui, neste pequeno espaço, mas demasiadamente grande para não se saber até onde vai a figura e obra de Júlia dos Santos Magalhães. Mas estou ciente que vai surpreender e rememorizar outros que estão longe destas terras e que nos "visitam".
E com a tarefa facilitada tendo à mão um espólio bastante completo e praticamente actual, não necessitando de quaisquer elementos mais para aqui traçar, nos post’s que forem necessários, baseado no trabalho que em 5 de Novembro de 1999 tinha feito para o semanário «Região de Águeda», que considero notório, sobre esta figura de cariz e com origens marcadamente populares, nas áreas a que se dedicou por vocação.
Melhor que mais considerações, ficam aqui explanados, na biografia que a própria escreveu e que naquele periódico se encontra, que digitalizamos de acordo com as possibilidades que temos, os primeiros traços da sua vida, demonstrativa de um carisma que a poucos é dado possuir e desenvolver. Aqui voltaremos.

Parte da página do «Região de Águeda» dedicada a Júlia Magalhães

*****
A minha história
(Dizia a D. Júlia)

Nasci em 5 de Maio de 1927, no Porto. Meu pai foi Francisco de Magalhães e minha mãe Benvinda Lopes dos Santos. Sei que foi naquele dia que nasci, embora meu pai apenas legalizasse a situação passados oito ou dez dias. Por isso no Bilhete de Identidade está outra data.
Meu pai tinha as suas origens no Minho, em Cabeceiras de Basto e minha mãe em Macinhata do Vouga.
Após meu pai ter regressado da primeira guerra mundial, veio para o Porto e ingressou na Polícia de Segurança Pública. Minha mãe ficou órfã de seus pais ainda muito cedo e veio para o Porto como empregada doméstica e foi lá que ambos se conheceram e uniram seus destinos.
As minhas origens estão no Porto, visto ter sido primogénita, mas sendo tripeira, sinto-me mais Valonguense, embora sinta grande carinho pela minha cidade.
Meu pai, por motivos de saúde, foi reformado da PSP e como minha mãe tinha família na freguesia de Valongo do Vouga, compraram casa no lugar de Brunhido, onde passei a residir desde os oito anos de idade.
Ingressei no ensino primário no Porto e como naquele tempo a escola não era obrigatória, existiu um interregno de um ano, por motivos familiares, mas no ano seguinte retomei a escola, quase sempre fugindo de minha mãe, porque adorava estudar.
Frequentei a escola de Arrancada, pois naquele tempo ainda não havia escola em Valongo. Quando fiz o exame da terceira classe, chamado na altura de exame do primeiro grau, fui obrigada a abandonar a escola, pois a falta de recursos familiares obrigava-me a trabalhar.
Foi-me vedado o que mais gostava na vida: estudar.
Mas a minha “vingança” foi ler, ler, ler…
Lia tudo o que me aparecia, mas gostei sempre de boa literatura. É a esse gosto que devo, em grande parte, o pouco que sei. Carrego até ao fim dos meus dias a mágoa de não ter ido mais longe e saber mais…
Fui empregada doméstica até ingressar nos quadros da firma António Pereira Vidal & Filhos, Lda., na qual trabalhei durante trinta anos. Passei à situação de pensionista por falta de saúde. Daí para cá, faço a minha modesta e pacata vida de doente e de pessoa idosa.
Quanto à escrita e à poesia, sempre gostei de escrever em papelinhos, conforme o estado de espírito e guardava-os numa gaveta até ao dia em que havia limpeza e ia tudo para o lume.
Mais tarde o saudoso Inspector Gomes dos Santos, ilustre pedagogo e escritor da nossa Terra, que conhecendo-me bem, me incentivava a escrever e a guardar. É a ele que devo algo mais do Dom que possuo. Em sua memória a minha prece de gratidão.
Este um ligeiro esboço da minha vida, que será e é igual à de tantas outras pessoas. Mas esta é a minha modesta biografia.


Próximo post: Resumo da publicação feita no Jornal «Região de Águeda» de 5 de Novembro de 1999 e os livros de Júlia dos Santos Magalhães.

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