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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

OS SENHORES DO MARNEL - 2

    Do romance que nos post's anteriores nos temos referido, existe este capítulo, que não deixamos de transcrever, por acharmos que o mesmo tem lisonjeiras referências às terras do Vouga.  Do mesmo constam estas passagens:


«Pelo caminho, Lopo Mendes disse à filha que era pena estarem tão longe dos primos Pigeiros (em outras passagens este local está identificado por Pigueiros). Ele, preso com os trabalhos da quinta, não podia sempre acompanhá-la e privava-a assim de conviver, de se distrair. Se tivesse uma senhora para andar com ela... Já se lembrara de tomar uma miss ou uma alemã, só para dama de companhia.
Dulce não quis, não tinha jeito de acamaradar com pessoas desconhecidas, indiferentes. Demais não se divertiria longe do pai.
Este insistiu, alvitrava trazer uma das Pigeiros para Jafafe, alternadamente. Entre as primas não se lembrava de qualquer que viesse para a quinta passar com eles o verão? Não tinha uma amiga que convidasse?
- Não pense nisso, meu pai. Estamos muito bem assim.
- Mas viverás num deserto, aborreces-te e tornas-te mais triste, sem teres em que empregar os teus dias.
- O meu piano basta - respondeu a filha.
- Não te quero mona. Quero ver sorrir essa boca, brilhar esses olhos. Quero-te alegre, viva, mexida, como é próprio da tua idade.
- Não preciso disso para ser feliz - murmurou Dulce.
Passado algum tempo, quási ao chegarem a casa, Lopo sorriu-se, olhou para a filha, pousou a mão nas dela e disse:
- Achei.
- O quê, meu pai?
- Companhia para ti.
- Quem?
- A Leonor Meneses.
- A prima Leonor?
- Não gostas dela?
- Gosto. Mas ...
- Não te agrada tê-la cá?
- Agrada, sou amiga dela. O que não sei é se virá. Tem lá a sua vida ...
- Até há-de gostar. Vou escrever-lhe. Queres?
- Pois sim.

    Leonor de Meneses era uma rapariga maior dos trinta, sem pai, nem mãe, nem irmãos, vivendo parcamente, mas sem deixar a sociedade a que pertencia pela família, à custa dos seus trabalhos literários. Escrevia com o anagrama El Noro em revistas e jornais, fazia traduções, publicava volumezinhos de versos e crónicas e assim se sustentava numa independência sem altivez e numa modéstia sem humildade. Na roda de inúteis que a cercava, orgulhava-se de trabalhar; intelectual entre cretinos, não se pejava de ser pobre entre ricos. Se não a requestavam pela mocidade, nem pela beleza, consideravam-na pelo seu merecimento e gostavam da sua conversação fácil, variada e culta. Assim não a entristeceu o transpor solteira a idade dos amores, nem o sentir-se só na existência. Colocada entre duas gerações de primos, tratava por tu os pais e os filhos e era igualmente amiga das mães e das filhas.
    Lopo Mendes apreciava-a e conhecia-lhe o carácter. Era assim a carta dele:

    «Estamos instalados na quinta de Entre-Jafafes, nas pitorescas margens do Vouga. Em Segadães, a duas léguas daqui, estão os viscondes, a condessa de Pigueiros e as filhas. Os rapazes estão no Marnel, a meio caminho de Segadães, com a prima Flâmula, o marido e os filhos, e por estas redondezas, todas lindas, abundam primos e primas alegres, hospitaleiros e desejosos de divertir-se. Os teus trabalhos literários, se te não dão a possibilidade de umas férias, devem lucrar com a mudança de cenário para estes lindos sítios, poéticos, históricos e inspiradores.
    Prepara-se um verão de convivência e distracções.
    Por isto me atrevo não só a fazer-te um convite, mas a pedir-te um grande favor.
  Vem, querida prima, até cá para fazeres à minha Dulce a companhia que não posso dar-lhe, assoberbado com os trabalhos que resolvi tomar a peito, da administração dos nossos campos.
   Queres dar-nos este prazer? Se quiseres irei buscar-te a Lisboa quando me indicares.
    Ficar-te-á sempre grato o
                                                                                            teu primo e
                                                                                        sincero admirador
                                                                                            Lopo Mendes»

    A resposta foi, dias depois, um telegrama lacónico:

    «Chego depois de amanhã rápido Aveiro
    Leonor».


                                                                                                                (Continua)



quinta-feira, 30 de julho de 2020

OS SENHORES DO MARNEL - 1



Igreja de Santa Maria de Lamas, já depois da que existiu na margem esquerda do Marnel


Este título é da autoria de Vaz Ferreira, editado em 1925, pela Imprensa Libânio da Silva, em Lisboa. Sabe-se que o autor residiu em Santa Maria da Feira, onde se admite terá desempenhado as funções de Notário, segundo o que ouvimos por aí.
E, com data de 17 de Junho de 1942, o Arquivo do Distrito de Aveiro, que se publicava, faz inserir, de sua Autoria, uma nota sobre um hipotético lapso na identificação de um facto histórico, não deixando de referir as escavações de Souza Baptista no Cabeço do Marnel, da fundação do Convento de Serém, bem como da beleza das margens do Marnel e do mal tratado rio Vouga.
É ainda de sua autoria o romance histórico com o título encimado, que nos propomos aqui transcrever algumas passagens, porque nos dão imagens surpreendentes do que eram os lugares de Lamas, Pedaçães, Segadães, Fontinha, Carvalhal da Portela, Brunhido, Arrancada, Jafafe e outras que agora nos escapam.
Para quem queira sonhar com o que era paisagem de outrora nas redondezas, principalmente aquela que nos proporcionam aquelas localidades, ficará com uma pálida ideia de que no princípio do século XX seriam muito diferentes.

NOTA: - A Apresentação do blogue está um pouco diferente. Aqui terei de registar uma ajuda de alguém que sabe disto mais que nós, a quem agradecemos. Mas o trabalho vai continuar...

A este assunto voltaremos.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

RECORDAÇÕES DO MARNEL - I

Autor: - Joaquim Soares de Sousa Baptista

Proveniente da uma publicação periódica, emitida pelo Arquivo do Distrito de Aveiro, já referida anteriormente, na qual pontificavam profusos apontamentos históricos, de ilustres colaboradores aveirenses, dos quais destacamos, Augusto Soares de Souza Baptista, que foi residente em Pedaçães, após bastantes anos emigrado no Brasil seguindo as pisadas de seu irmão  Joaquim Soares de Souza Baptista, antes epigrafado e que assinalou a sua presença naquela publicação com interessantes  factos históricos, que se recordam nestas transcrições, tentadas por scanner informático. Por este processo, tentou-se  fazer a «colagem», mas a qualidade que permite a sua leitura é bastante deficiente. Vamos ver o que se segue...

*****

        «Para além, o anfiteatro de Macinhata com seu branco casario espreguiçado ao longo da bem lançada encosta rematada pela edificação ampla onde inúmeras crianças vêm ao ensino das primeiras letras. A poente da planície ergue-se o tabuleiro da Mesa, localidade que este nome obteria em consequência de algum dólmen ali existente, e ora desaparecido, ou pela conformação do montículo em que demora, que a do móvel com igual chamadoiro faz recordar. Montículo prolongado em sucessiva maior altura pela colina de Serém, onde ainda podem observar-se restos do antigo convento e alguns poucos dos vetustos vegetais que pertenceram ao povoamento da que foi a grande e pitoresca mata do referido recolhimento, edifício;  edifício e povoamento hoje substituídos por moderna construção e jardinagem floral e pomareira, limitadas a poente pela estrada nº 10 (?), que em diagonal rasga a vertente, a meio do dorso ou alto desta mostrando-se elegante estância de repouso de onde se desfruta uma das mais belas perspectivas entre as sem conta que Portugal oferece ao turista.

    Para sul, declive menos áspero se desenrola, em cujas largas depressões abundante material tosco e trabalhado com inúmeros objectos de uso caseiro tem sido recolhido, remanescente atestado das fidalgas moradias dos Senhores do Marnel, e desde o seu sopé atoalham as águas hectométrica planície que o separa da outra banda, onde se ergue o monte do Toural em cuja base perduram ainda minguados restos da velha igreja de Santa Maria do Marnel (da qual nos restam algumas fotos que esperamos poder aqui «colar»).

São as águas do rio Marnel. Melhor: do rio do Marnel.

Quer dizer: no que se espraia ou desagua em um marnel, pois Rio Marnel não seria cousa de compreender.
De facto, parece não oferecer dúvida que ao tempo ainda do domínio árabe, as águas do mar, por extenso braço, chegaram até Vouga, localidade a poente da qual viriam reunir-se-lhes as marnelinas através do apertado lamaçal ocasionado pelo estorvo que ao escoamento destas últimas opunha o levantamento do fundo do braço, em consequência do assoreamento neste processado pelo caudal do Vouga; levantamento que, embora atenuado pelo afundimento provocado pela subida da costa marítima, que deu lugar ao aparecimento, mais tarde, da pateira da Boca, no Marnel, e da de Fermentelos, no Cértoma, uma e outra em crescente estendimento, continua em nossos dias, obrigando o Marnel a prolongar seu leito junto à aba da colina de Pedaçães até alcançar altura ou nível em que àquele caudal possa confluir, o que actualmente só consegue a meio caminho da Fontinha, seja a uns dois quilómetros a jusante da primitiva foz.»





Fotos que retratam resquícios de um altar, que ali se conserva à custa de algumas crendices





quarta-feira, 24 de outubro de 2012

História de Serém

Os Fataunços 
 
Surgiu há tempos na minha caixa de correio electrónico um mail que me pedia elementos de familiares dos Fataunços, que foram residentes em Serém. Lá me desloquei e através de pessoas que residem na localidade, fui confrontado com alguns factos que considero históricos.
Porquê Fataunços?
 
Esta interrogação foi esclarecida de imediato. Deriva de uma localidade, com este nome, situada próximo de S. Pedro do Sul, mas, administrativamente, pertencente ao concelho de Vouzela.
Alguns habitantes de Fataunços vieram para Serém, por cá ficaram e assim passaram a ser conhecidos.
A razão desta imigração, admite-se ter tido origem num fidalgo de nome Francisco Rodrigues da Silva Fataunços, pai de sete ou oito filhos, que veio para Serém proceder à cobrança dos tributos, em representação do condado de Lafões, do qual Serém fazia parte. O nome de alguns dos filhos eram a Maria, Engrácia, António, José, Augusto e Francisco, pelo que nos foi indicado.
O Francisco, com o nome completo de Francisco Rodrigues da Silva Reis, casou com Ana Tavares da Silva, governanta da casa, já viúva, do lugar de Serém.
Esta, do primeiro matrimónio, cujo marido foi ferroviário, era mãe de Leonel Tavares Dias da Silva, conceituado comerciante naquele lugar de Serém, conhecedor desta história, que no-la transmitiu.
O referido Francisco Rodrigues da Silva Reis faleceu no princípio dos anos sessenta (séc. XX)deixando um vasto legado a algumas instituições, nomeadamente às Misericórdias de Águeda e Albergaria-a-Velha.
Esta família tem ainda descendentes na freguesia da Trofa (Águeda) e de Alquerubim. (A-A-Velha).
Uma casa senhorial, onde habitaram os Fataunços, cuja imagem aqui se deixa, será do séc. XVI ou XVII, não sabemos bem, uma vez que foi reconstruída depois do terramoto de 1755, por ter ficado, emconsequência deste, bastante danificada.
Junto desta casa está assinalada, na esquina da parede do lado direito da foto, a Estrada Real, que por ali passava, bem como os Caminhos de Santiago. Leonel Tavares Dias da Silva, cujo estabelecimento fica mesmo no cruzamento daquelas ruas, parece que possui uma respeitável colecção de cartas e postais de todo o mundo, que lhe enviam os caminheiros de Santiago, aos quais comprova a sua passagem naquele local, com o carimbo que usa na sua actividade comercial e respectiva assinatura.
 
 
 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Brumas da memória - 3

Da Villa de Serem

Da "Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal..., Lisboa, 1706-1712", do Pe. António Carvalho da Costa, deixamos, talvez já por mais de uma vez, o que consta nesta obra, àcerca de Serém, da freguesia de Macinhata do Vouga.
São duas digitalizações, porque em duas páginas distintas foram encontradas.
É só clicar em cada uma delas e tentar ler na fórmula original do português da época.
Possui algumas curiosidades, nomeadamente quanto à descrição do lugar, importante naquele tempo.
E para aumentar, clique também nas imagens.



sexta-feira, 15 de abril de 2011

História destas terras - 3

Os Senhores do Marnel

A frase anteriormente citada, do escritor Vaz Ferreira, sobre o seu livro com aquele título, dizia assim:

"Mais adiante, de novo fiz referência ao missal do pároco artista e às margens do Vouga".


Igreja do Convento de Serém

Continuemos pois:
«Quando ao dar a volta para a estrada real se lhes deparou um muro alto que excediam algumas copas de árvores, o João Fernandes explicou que ali fôra o convento de Serém, onde um artístico abade começara a pintar um belo missal «iluminado e iluminarado» - dizia o doutor - com cercaduras lindíssimas e páginas admiráveis que constituem perfeitos quadros. Da história do convento pouco podia dizer-lhes. Fundara-o Diogo Soares em 1635, concluindo-o seu filho Miguel Soares e era de capuchos de Santo António. De notável só tinha o ser ali que Estêvão Gonsalves começou e em parte fez a sua linda obra. A Dulce conhecia o célebre missal da Academia das Ciências, tendo-o apreciado muito quando o fôra ver, tanto mais que também ela se entretinha pintando alguma coisa e apreciava a arte especial da iluminura. Penalizava-a não poder folhear de novo essa maravilha. Podia fácilmente. Estava às suas ordens na livraria do Monte Reguengo uma bela cópia editada anos antes com todo o primor. Visto ser apreciadora e manejar pinceis, recomendava-lhe que revisse a obra do inspirado abade, onde era perfeitamente caracterizada, para quem a soubesse examinar, a diferença entre a parte feita ali, em longos anos de serena contemplação das luminosas e quietas margens do Vouga, e a outra trabalhada em Viseu, quando Estêvão Gonsalves já estava cónego. Diverso era o ambiente e dissemelhante a inspiração. Nem se precisava atender às diferentes maneiras como ele assinava».

Continua a narrativa de Vaz Ferreira a dar explicações, uma vez que estava em causa saber quem era Estêvão Gonsalves e a sua ligação com a dita obra de iluminura do famoso missal. E havia, na altura, dúvidas quanto a datas do convento de Serém, as quais estão gravadas no frontispício. Vamos ver como termina a explicação de Vaz Ferreira, quando há alguém - o Dr. António Baião - que comunicou à Academia das Ciências de Lisboa o que outro (Maximiano de Aragão) apurou por investigações.

«Estêvão Gonsalves Neto foi abade de Santa Maria Madalena de Sereijo, perto de Pinhel, desde 3 de Maio de 1613 a 3 de Junho de 1618. Nunca foi abade de Serém, de cujo convento a primeira pedra foi lançada a 16 de Abril de 1635, oito anos depois dele ter morrido a 29 de Julho de 1627.»

E mais adiante, diz:

Entrada na Quinta do Convento de Serém

«O ano de 1610 posto no frontispício marca talvez o início da monumental obra, começada portanto antes da ida do artista para a sua paróquia, onde posteriormente faria essa página de rosto. Em que lugar começou o futuro abade o seu meticuloso trabalho? Virá um dia a descobrir-se?
Uma certeza adquiriu o dr. Maximiano de Aragão: não foram a calma e linda paisagem do Marnel nem as risonhas margens do Vouga que inspiraram as belíssimas iluminuras do missal. Mas mereciam ter sido.
No entanto, devo esta rectificação; e, visto que ela interessa ao nosso distrito e não conto reeditar o meu romance, aqui a deixo no Arquivo; porque, como Aristóteles, a-pesar-de muito amigo do Marnel, sou mais amigo da verdade.

Feira, 17 de Junho de 1942.

Vaz Ferreira»

*****

Tudo isto foi publicado no Arquivo do Distrito de Aveiro, por Vaz Ferreira. Para quem, talvez, não o soubesse, como nós, Vaz Ferreira era de Santa Maria da Feira. No seu romance, «Os Senhores do Marnel», que já foi referenciado neste blogue, tem uma base histórica e quer esclarecer qualquer facto que não estaria historicamente correcto. Por isso refere que não vai reeditar aquela sua obra. E o que não está correcto, será, certamente, a situação e a identificação do abade artista, que foi encontrado perto de Pinhel, falecido em 26 de Julho de 1627. O romance de Vaz Ferreira foi publicado em 1926.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

História destas terras - 1

MARNEL, SERÉM E ESTÊVÃO GONSALVES

Introdução:
Marnel e a água quêda e espelhante
Em arquivos com algumas teias de aranha, que eu deixei criar, encontrei factos interessantes sobre estas Terras do Marnel e Vouga. Admito que quem descobre, pela leitura, algumas preciosidades, não resiste à tentação, correndo até alguns riscos, de as trazer ao público, neste caso, através dos meios internautas.
Por isso, e se nada existir em contrário, trarei à luz algumas dessas pérolas literárias que se transformam em imagens que as palavras lhes proporcionam. Como refere o autor, conhecido pelas suas obras que se referem a esta região, das quais temos apenas uma - «Os Senhores do Marnel» - diz que «nem só de pão vive o homem e a amenidade literária quadra por vezes aos espíritos preocupados de ciência e erudição dos leitores deste Arquivo.» Ou seja, passam despercebidos, ficam esquecidos e o que vale, como cita, é o «Arquivo do Distrito de Aveiro» onde Vaz Ferreira explana a sua generosidade literária sentida por estas terras.
Vamos tentar seguir, fazendo como ele diz, a transcrição do que escreveu e publicou naquele Arquivo de 1942:

A imagem na literatura
«Serém e Marnel, dois encantadores rincões da nossa paisagem, contrastam frente a frente, aos lados da ponte da estrada nacional sôbre o Vouga. Um espraia-se amplo, risonho, com as claras águas do rio serpeando alegres. O outro concentra-se meditativo e mesto na serenidade verdejante da água quêda e espelhante.

A ponte da EN sobre o Vouga

E ambos estão agora na ordem do dia.
Em Serém acaba de inaugurar-se a primeira pousada construída pelo Secretariado da Propaganda Nacional no distrito de Aveiro, em sequência do intuito de mostrar as belezas do nosso país aos portugueses, que as ignoram, e aos estrangeiros que as querem ver.
E porque não será a segunda junto ao Castelo da Feira, onde tantos elementos apreciáveis já existem para tal realização?
Puseram em evidência o Marnel as escavações no Cabeço do Vouga patrocinadas pelo benemérito Sousa Baptista, a visita da Junta Nacional de Educação a essa estação luso-romana e o proficiente relatório publicado no anterior volume deste Arquivo, págs. 227 e 313, e em separata (1), que amável e lisongeiramente cita a minha modesta referência à linda paisagem.
A estas duas joias da natureza engastadas no nosso distrito e uma terceira que enflora a arte portuguesa me vou referir.
Existe na biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa uma preciosidade de iluminura, É o Pontificales missae, feito por estêvão Gonsalves Neto que assinou o frontispício como abbas Sereiiensis. Alguém leu abade sereiense, outros viram serenense, e localizou-se em Serém a feitura desse primor de paciente e artística beleza.»

(1) - António Gomes da Rocha Madahil, Estação luso-romana do Cabeço do Vouga - I - Terraço subjacente à Ermida do Espírito Santo ou da Vitória; Coimbra, 1941.

*****

Vamos continuar a ver o que nos diz Vaz Ferreira sobre o que publicou no Arquivo do Distrito de Aveiro.
Pelo conteúdo da literatura citada, deve ter sido em 1942, ou muito próximo, que se inaugurou a Pousada de Serém, como era e é conhecida (em restauro e remodelação), ou Pousada de Santo António.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Nacos de história - Serém

A vila de Serém

Portão da entrada principal da cerca do Convento de Serém

No livro que abaixo identifico, encontrei uma redacção histórica bastante interessante sobre Serém. Aquele livro já aqui foi referenciado várias vezes. Procurei, com as ferramentas que conheço (poucas) da informática e fazer o «copy-paste» do texto tal como está no referido livro, cuja data mal legível, me parece ter sido editado em 1808 ou 1868, mas cuja finalização da sua escrita terá ocorrido em finais de 1706 ou princípio de 1707. Há ainda outras datas de 1708.
Aqui deixamos, com as ressalvas provenientes de erros informáticos inevitáveis no tratamento do texto tal como o encontramos.
Salientamos aqui a existência de um nome muito conhecido dos antigos alunos da 4ª classe da escola primária. Aquele que a "doutrina" histórica nos apresenta como o traidor Miguel de Vasconcelos que, como já disse de uma outra vez, estará sepultado no convento de Serém. Porém, surge uma dúvida. Penso que este Miguel de Vasconcelos a que me refiro, não será o mesmo chamado de «traidor». Porque este era conhecido apenas por Miguel de Vasconcelos e o outro com interesses em Serém é Miguel Soares de Vasconcelos. Um e outro serão a mesma pessoa ou duas pessoas distintas? Por outro lado, o primeiro foi morto a tiro em 1 de Dezembro de 1640 e o mosteiro terá sido fundado em 1635, havendo apenas entre este e aquele ano uma diferença de apenas de um lustre.
O texto encontrado:

*****

D'uas legoas & meya da Villa de Aveyro para o Nascente, no Bispado de Cqimbra, & Provedoria de Esgueyra, na ladeyra de hum monte está fundada a vila de de Serem, defronte da qual faz sua corrente o rio Vouga, que nas suas inundaçoens lhe visita as ultimas casas, sem lhe entrar dentro; até duas legoas & meya se navega o dito rio em barcos que levaõ sal, marisco, peyxe, & outras cousas de Aveyro para a serra; & trazem madeyras, lenha, frutas, & muita castanha para a dita Villa de Aveyro; com que fica sendo este rio de grande conveniencia para estas terras. Assistem ao seu governo civil dous Juizes ordinarios, Vereadores, hum procurador do Concelho, Escrivao da Camera. hum Juiz dos Orfãos com seu Escrivaõ, outro do Judicial, & Notas, & hum Aleayde. Recolhe algum vinho, milho, & centeyo, & tem boas aguas para curar meadas, & teas. Tem a Villa seis visinhos, & ò Termo setenta, tudo gente pobre, os quaes saõ Freguezes de Saõ Christovaõ de Macinhata do Vouga, que he Priorado rendoso, o apresenta o Marquez de Arronches. Tem esta Villa hum Convento de Frades Capuchos da Provincia de Santo Antonio,'a que no anno de 1635. em 16. de Abril se lançou a primeyra pedra, sendo seu fundador Diogo Soares, do Conselho de Felippe Quarto, & seu Secretario de Estado na Corte de Madrid ; & depois das pazes, estando os bens do fundador na represalia, tirou por sentença o senhorio desta Villa, seu Termo, & da do Prestimo, & o Padroado do Convento seu filho Miguel Soares de Vasconcellos, cuja viuva foy casada com Paulo Carneyro, do Conselho da Fazenda, & Chanceller mor da Corte, & à filha da dita viuva mais velha pertence o senhorio desta Villa & o Padroado do Convento. O seu Termo consta de tres lugares pequenos, & huma povoa |na estrada, que vem de Coimbra para o Porto. Foy esta Villa cabeça de Condado, cujo titulo deu ElRey Dom Joaõ o Quarto a Dom Fernando Mascarenhas, filho de Dom Jorge Mascarenhas, Marquez de Montalvaõ.

Corografia
PORTUGUEZA, E DESCRIPÇAM TOPOGRAFICA
do famoso Reyno de PORTUGAL,

COM AS NOTICIAS DAS FUNDAÇOENS DAS CIDADES, VILLAS, & LUGARES,
que contém ; Varoens illustres, Genealogias das Familias nobres, fundaçoens
de Conventos, Catalogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza,
edificios, & outras curiosas observaçoens.

TOMO SEGUNDO

OFFERECIDO
AO SEREN1SSIMO REY
DOM JOAM V.
NOSSO SENHOR.

AUTHOR
O P. ANTÓNIO CARVALHO DA COSTA,
Clerigo do habito de S, Pedro, Mathematico, natural de Lisboa.
SEGUNDA EDIÇÃO.
Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea
Rua Nova n.° 45.
BRAGA

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A história local

Vista parcial da encosta de Macinhata

Macinhata do Vouga

Circunlocação
Das freguesias mais históricas do concelho, dificilmente, como anotamos, em idênticas circunstâncias, se pode dizer o bastante em tão reduzidas locais. Com um município, das mais belas tradições no seu termo, documentado como cividade: civitas que dicitur Seren - cidade chamada Serém; rio navegável até ao mar e a jusante até Sever; alguns lugares distribuídos em mercês reais, remunerando serviços prestados ou a prestar à Coroa (préstimos), com um próspero mosteiro no período da Restauração, férteis e amplos nateiros do Vouga, rio este tão fértil de história do megalítico e período castrejo, enfim terra a postular e merecer umas boas centenas de páginas para razoável descrição.
....
(Do livro "Município de Águeda-Monografia", vol. II, edição do Pe. Francisco Dias Ladeira, página 134)

domingo, 6 de dezembro de 2009

A história local

Os Impostos e o Convento de Serém

Entrada actual da Quinta do Mosteiro de Serém

Passava os olhos pelo II volume do livro Município de Águeda - Monografia - da autoria do P. Francisco Dias Ladeira, que muitos de nós conhecemos, sempre acompanhado dos seus apontamentos históricos, do respectivo bloco e demais papeis, tem, naquele livro histórico, algumas explicações sobre termos que se utilizavam para definir medidas, impostos, pesos, locais, etc., quando encontrei na página 17 esta explicação que, com a devida vénia, me permito transcrever:

«9 - ANNATA - Imposto que já aparece em 1062, do baixo latim annu, ano: direito ou imposto que anualmente se pagava ao donatário ou senhorio. Cf. Viterbo s.v. Annata. Tendo Diogo Soares comprado o senhorio das vilas de Serém e Préstimo para fundar o convento de Serém, ficaram os povos a pagar a annata ao novo donatário. Mantem-se os marcos a que o povo chama, presentemente «marcos dos foros». Observam-se, por vezes, bem longe: Talhadas, etc.
Mais tarde o Conde Farrobo, como indicaremos em Préstimo e Macinhata, ao limitar as vilas, colocou esses marcos, com as iniciais R.B.Q.: Reguengo Barão de Quintela (Quintela-Farrobo), mas o povo contestou as demarcações e retirou, nalguns locais, os marcos, marcos que delimitavam o concelho de Préstimo, antes conhecido por Soutelo do Monte. Mantem-se, no concelho de Águeda, descendentes dessa família, mais tarde ligada, por casamento, aos descendentes do Marquês de Pombal e do Marechal Saldanha. O povo chama assim à annata, foro. Na sequência foi senhorio de Serém e Préstimo o traidor Miguel de Vasconcelos, que por tal causa está sepultado no Mosteiro de Serém.
Diogo Soares ficou por Castela e, após grandes questões, por terem sido sequestrados seus bens, passaram ao tristemente célebre traidor Miguel de Vasconcelos (de Brito) acima referido. Chamavam à annata foro, como termo mais corrente. Seguidamente foi vendido a este grande comerciante de Lisboa, de que falaremos em Macinhata e Préstimo, a família Conde de Farrobo, que tem uma quinta em Águeda, conde de Farrobo, cuja família, por casamento, é ligada ao Marechal Saldanha, como naquelas freguesias descreveremos, e ao Marquês de Pombal, como vimos insistindo.»

******
Desta leitura ressalta uma surpresa, pelo menos para aqueles que, como nós, sabem da história pelo contacto com estas descrições e da sua leitura. Essa surpresa prende-se com as transacções realizadas em Serém e Préstimo e, mais do que isso, por estar bem explícito, que Miguel de Vasconcelos, o representante dos reis de Espanha durante o seu domínio de cerca de 60 anos, ter sido aquele que foi morto para devolver a independência a Portugal, como comemoramos no dia 1º de Dezembro. Esta suposição é feita pelo facto do Padre Francisco Ladeira ali ter escrito com todas as letras «o traidor». Se outros houve, o que se acha possível, é historicamente mais conhecido por «traidor» o tal Miguel de Vasconcelos. E afirma que o seu corpo foi sepultado no Mosteiro de Serém. Não sabíamos e não estamos em condições de o poder confirmar.

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