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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gente destas Terras - 27

Histórias da minha vida
A Beatriz da minha infância - II

Engº Bastos Xavier

- Olhe - continuava a Beatriz - na viela do Rego, à meia-noite, aparecem porcas com pitos e nunca ouviu falar ao que aconteceu ao Zaías?
- Não.
- Pois o Zaías tinha a avó doente no Sobreiro. Um domingo foi lá vê-la e levava ao ombro um bolo. Vai, ao chegar ao Pinheiro Manso, viu no caminho uma galinha negra. Apanhou-a e meteu-a no saco e pôs o bolo no bolso, e lá foi. Quando chegou disse à avó: «trago aqui um presente, minha avó!»
Abriu o saco e viu que ele não tinha nada dentro! Nem a galinha! Nem o bolo no bolso! Há coisas, meu menino!
Então eu disse com a face no seu regaço: «Eu tenho medo, Beatriz!»
- Olha agora, medo! O padre que o baptizou disse-lhe todas as palavras do baptismo; não deixou nenhuma atrás. Eu estava a tomar conta. Por isso quita de ter medo.
Eu era muito lá da Igreja, desde o tempo do prior Calado.(1) Quando seu avô morreu teve ofícios. Quem trouxe o jantar para os padres, num açafate coberto com uma toalha de renda, fui eu. Pus a mesa. Tudo de bom e do melhor. Depois de estarem lá que tempos à volta da essa: réu! réu! quem morrer vai p'ró céu, os padres subiram a escada e foram comer. Já desabotoavam a batina, já a cara lhes ardia numa fogueira e lá iam sem paga - que havia padres na família!
.......

domingo, 8 de agosto de 2010

Gente destas Terras - 26

Histórias da minha vida
A Beatriz da minha infância-I


Engº Bastos Xavier
Preâmbulo:
Dizia no post anterior de «Gente destas Terras», que ainda havia de trazer aqui alguns escritos da autoria do Engº Bastos Xavier, que ele publicava no Jornal Paroquial «Valongo do Vouga» e que com a vénia devida aqui procuro recordar, entre eles uns contos a que dava o título de «A Beatriz da minha infância».
Não vale a pena explicar os significados e os conteúdos dessas histórias, que mais não são que algumas crendices populares, que eram lendas tratadas numa pureza de linguagem que nos faziam acreditar que tudo aquilo era uma verdade indesmentível de uma vida vivida tal qual as palavras procuravam transmitir. A  primeira era assim:

*****

Foi a Beatriz quem, com outras já mortas, me revelou o mundo em que vivemos. Viu-me no berço, vai ver-me no caixão.
Com beijos saudou a minha entrada na vida, com lágrimas se despedirá de mim na sepultura.
Guiou-me os primeiros passos no mundo, agora só lhe resta ungir-me para o túmulo, finalizando assim uma vida cheia de preocupações, como é a da maioria.
Aqui está ela na minha infância, esclarecendo-me a minha história, contando-me «casos».
- Pois quando V. era menino era muito debilzinho de cor. Não tinha uma pintazinha de sangue na carinha. Um dia disse à sua mãe: «O menino é muito esmaleitado, deixe-me ir com ele à passagem de um enterro.» Ela consentiu, eu levei-o à Ferradeira, pus-me por trás de um cômoro e, quando ia a passar o caixão, disse: «Leva o ar deste menino e deixa-lhe o teu». E assim foi. Ficou còradinho que era um regalo! Era a admiração de toda a gente. Rico menino, quem lhe deu esta cor de saúde?
Tinha sido eu... Esperei pela Feira do Beco, comprei-lhe uma figa de azeviche encastoada em ouro, porque é preciso muito cuidado com as bruxas.

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