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sábado, 8 de setembro de 2012

Onde a serra começa

CADAVEIRA: Terra longe do mundo (Parte II)

(Continuação)
 
A segunda parte do que está antes deste, foi assim:
 
CADAVEIRA
NÃO PODE TER AMANHÃ (Em 1971)
 
Capela de Santo Amaro na Cadaveira.
Hoje só há ruínas e escombros ou nem isso
Todos sabemos que os homens de amanhã são as crianças de hoje. Cadaveira não pode ter amanhã. Uma única criança que lá existe [hoje com mais de cinquenta anos] não pode perpetuar ali a vida dos séculos. A vida vai-se escoando, como por misteriosa ampulheta do tempo. É filho da Sr.ª Gilda Fernandes. Tem dez anos. Vai à escola do Salgueiro. Conversámos com ele: Demoro pouco menos de uma hora. A minha mãe, de inverno, vai comigo até às casas da Gândara, porque saio de noite. Disseram-me que havia lobos. E tenho medo.Vocês não têm? Quero estudar, ser engenheiro electrotécnico...
A escola do Salgueiro. Estivemos lá. Não falta o asseio e a limpeza, um recreio largo, amplo e saudável. Uma única nota discordante pregada na parede, até para os menos atentos: não figuram lá os actuais governantes do país. Porquê? Perguntamos nós. A professora Emília Lopes Teixeira, que tem dado o seu melhor esforço para a cultura das crianças dos lugares em volta, oficiou duas vezes para a Câmara, mas em vão. Uma anomalia que, infelizmente, não é única.
A única criança da Cadaveira quer estudar, mas os problemas surgem: não temos meio de transporte. Não há camioneta da carreira no Moutedo. Só em A-dos-Ferreiros, mas vai para Águeda muito cedo e chega muito tarde. Agora, que miséria, a que miséria chegámos. nem podemos atravessar o rio Marnel, pois o pontão estreito, onde não passavam carros, só a pé, caiu. E não haverá quem se disponha a substituí-lo?
 
ISOLADOS DO MUNDO
 
Dos campos, chega-nos o Sr. Américo Fernandes, que ajuda a conversa: Quando o vento nordeste não bate os terrenos, a batata é boa. As vinhas dão-se bem, mas não há quem as cave. Isto de puxar à enxada não dá dinheiro. E de relance sobre os problemas: A fonte é um chafurdo, sobretudo no inverno. É miserável. De verão, a água, chapéu. Temos um caminho de cabras, caminho de pé posto. Para passar é um castigo. Se houver uma pessoa que parta a espinha, tem de morrer sem médico. A minha tia que partiu uma perna, teve de ir de carro de bois até ao Moutedo.
E rebentam mais lamentos do outro lado: Vivemos isolados do mundo. Apetece fugir daqui para fora. Se não fossem os terrenos a prenderem-nos... Por minha vontade, ia já hoje - concluiu a mulher.
Um velhote se chega - Este é o lugar mais antigo de toda a freguesia. Conheci isto só com três moradores. Hoje tem onze.
Cadaveira, que, pelo nome, sugere um lugar antiquíssimo, cemitério de povos remotos ou coisa do género, hoje [em Abril de 1971] tem onze moradores, que não são o bastante para eternizar esta terra. Cadaveira não tem um acesso fácil e tem sede de verão, porque não tem uma fonte e tem de ir, de tarecos e cântaros à ilharga, buscar a água às poças das corgas. Cadaveira quer resistir ao tempo. Mas, se melhores dias não chegarem para esta gente, os pinheiros hão-de gemer, um dia, não muito longínquo, à partida do último camponês.
 
*****
 
Este é um fiel retrato escrito do que era a Cadaveira há pouco mais de quarenta anos. Que fez história numa reportagem publicada no semanário Soberania do Povo de 17 de Abril de 1971. Os intervenientes nesta reportagem, onde estão?
Pouco tempo depois, foi fustigada, quase eliminada do mapa da freguesia, pela catástrofe do incêndio de Agosto de 1972. Foram horas de pavor, cujas chamas lamberam literalmente a capela de Santo Amaro, ceifando também a vida de uma idosa, cujo nome já não recordo.
Do jornal paroquial Valongo do Vouga, de Abril de 1974, retiramos a imagem que ilustra este facto. A capela ainda inteira. Ainda se realizaram tentativas para a fazer renascer das cinzas, mas nunca passou disso, apesar de algumas promessas por entidades que poderiam ter ajudado. Dedicada a Santo Amaro, como na página anterior citamos, tinha uma festa que se realizava a 15 de Janeiro de cada ano.
 
 

Onde a serra começa

CADAVEIRA: Terra longe do mundo (Parte I)

Sobre este assunto, há que relembrar um pouco que nos idos anos de 1971 participamos em reportagens do jornal Soberania do Povo, no qual exercia as funções de chefe de redacção um particular amigo, Armor Pires Mota. Durante uma série de semanas, calcorreávamos as serras e os caminhos de pedra e lama, que davam a locais onde sobreviviam pessoas, cujos acessos e distâncias nos pareciam enormes, e o seu conhecimento era quase nulo, porque ninguém visitava as gentes que por ali habitava. Não haviam meios, entre eles, estradas, água, electricidade, quando hoje as primeiras  até têm rotundas e mais rotundas.
Fazia parte deste lote de lugarejos - era mesmo assim que se apelidavam, não pela originalidade, mas em termos pejorativos - porque longe de tudo e de todos e de todas as coisas mínimas que outros aglomerados mais populosos já tinham.
Recordados esses tempos, em que através do jornalismo se fazia sacudir as consciências e se reivindicava dos poderes instituídos o que era básico para a população. Vamos dividir esta transcrição de uma reportagem, publicada naquele semanário em 17 de Abril do ano referido. Outra parte será postada separadamente para não aborrecer... e começava assim:
 
*****
 
Imagem de Santo Amaro do blogue
Camacha.wordpress.com
Atacado um caminho nem sempre muito favorável, cheio de barrancos e, por vezes, de raízes gordas, que o solo é bastante forte, a avaliar pelo verde esmagador e absoluto dos pinheiros novos e dos eucaliptos, atingimos, alcandorada num pequeno monte, a Cadaveira, que nos recebeu com uns vagos perfumes de mimosas secas, entre o ladrido atrevidote de dois cães, que nos farejaram os calcanhares, sem, todavia, ousarem qualquer proeza.
 
Milagres velhos
 
A capela de Santo Amaro (1) denuncia a pobreza do povoado. O chão é atapetado de junco.«Antigamente era uma grande festa. Agora há outras viagens mais longe e a sítios mais bonitos. O povo já não se lança a terras como esta. O Santo Amaro tinha muitos milagres e promessas. Acorria aqui muita gente, todos os anos. Hoje, menos. Não temos estrada....» - diz-nos a Sr.ª Gilda Fernandes. E dentro do pequeno templo «antigo como os mouros»: «Estes são os milagres velhos de Santo Amaro» - e mostrava-nos na mão algumas figuras de cera de pernas e braços humanos, bem como bois e cavalos e porcos, enegrecidos pelo tempo. Continuou a Sr.ª Gilda:
«Não temos uma fonte pública. A gente vai a uma poça, é mesmo uma poça, onde se mete o cântaro.» Quisemos ver. Fica um pouco abaixo da povoação.
«A Câmara prometeu-nos a fonte. Isto não é nada. Entram sapos, rãs, entra tudo. A água é boa, mas está aqui, não está lá em cima. No inverno dá. No verão, não. Os que não têm poços e só eu é que tenho, vão-se às poças das corgas, onde as há. A água nasce da rocha, onde foi cavado um pequeno tanque. O Sr. Engº Bastos Xavier também prometeu ajudar.»
 
(Continua)

(1) - Da capela, apenas existe o local. Foi destruída por um violento incêndio, que aqui já foi reportado, e devastou a freguesia - e outras - em Agosto de 1972.

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