domingo, 14 de fevereiro de 2016

Souza Baptista - 6

Conferência
"Da opulência à ventura"
Autor: Inspector Gomes dos Santos

Nota:
Foto inédita-Cortesia Filipe Vidal *(1)









Iniciamos a transcrição parcial, como referimos anteriormente, de uma conferência proferida pelo Inspector Gomes dos Santos em 19 de Março de 1929. Abílio Quaresma escreveu que «o distinto professor primário sr. Arménio Santos proferiu uma interessante conferência subordinada ao tema «DA OPULÊNCIA À VENTURA». Dela aqui ficam alguns trechos, como dizia Abílio  Quaresma:

*****
 
Se considerarmos a «freguesia» o elo mais forte do Estado, - elo que abraça aquele punhado de terra que amamos com esse amor donde irradia o amor da Pátria, até tocar tudo o que, do Guadiana ao Minho, ouviu gemer e cantar na mesma doce língua. - se a considerarmos assim, cada freguesia que se educa, que se torna formosa, que progride, é mais uma parcela de beleza e engrandecimento na Pátria.
Foi essa disciplina local que principiou por fazer da Alemanha o primeiro povo do mundo, levando-o ao fanatismo da sua Terra no «Deutscland über alles», e que a fez surgir dos pavorosos escombros da Guerra, como a Fénix!
Não será prejudicial esse atávico sebastianismo de tudo esperarmos dos governos, demais num país depauperado como o nosso?
A reorganização deveria começar pelas freguesias e municípios, instituições de mera importância na aparência, mas tão valiosas, tão imponentes, que é a sua própria idade milenária, que no-lo afirma.
Conjugassem-se os valores dispersos por essas terras míseras de Cristo; dessem-se as mãos os homens cultos e ricos na cruzada patriótica, e a nossa inculta e arruinada Terra, por quem tantos heróis verteram sangue, deixaria de corar humilhada, ao ver os grandes transatlânticos evitar os seus ancoradoiros, em cujas águas ela outrora se mirou orgulhosa, quando sobre elas se balouçavam as Caravelas das Descobertas e Conquistas, drapejando aos ventos da fama, as quinas gloriosas da idade quinhentista. 

*****

Ora o que a falta de disciplina cívica e os não coordenados esforços para o bem comum não conseguiram, está-o realizando um só homem, a quem a opulência não cegou, e em cujo bloco anímico se amalgamaram, para além do dever, todos os sentimentos do mais puro idealismo, que abrirão perpétuamente à tona do coração, como alva de corola imarcescível.
E assim, é grato ao meu coração relembrar-vos todo o seu carinho pelos problemas primordiais, como a beneficência popular, a instrução, o incremento agrícola e o culto religioso, - o culto religioso que tanta preponderância teve sempre nos nossos feitos heróicos, desde o baptismo da Pátria, no tratado de Zamora, ao Condestabre da Independência ou, até nós, nas asas gloriosas do «Lusitânia», nas quais também floriu a Cruz de Cristo, - essa alva e pura flor de quatro pétalas, que um dia abriu no topo do Calvário; o culto religioso, meus senhores, que hoje, como no tempo da decadência romana, tão imprescindível é, - coroado da sua pureza eterna, e eternamente purificadora.

*****

O Sr. Sousa Baptista não é um «brasileiro» trivial, nem pertence à extensa galeria de Camilo.
Ele levou para o Brasil uma invejável cultura literária e científica, e, o que é mais ainda, um nome honrado de família.
Abalou um certo dia com um grande sonho, sonho congénito de toda a alma humana, mas muito mais enraizado na epopeica e aventurosa alma lusitana, pois foi esse mesmo sonho do desconhecido e da grandeza, que nos fez escrever a mais grandiosa e formidável página da Renascença, que são os descobrimentos.
E realizou, por felicidade sua e nossa, essa formosa aspiração. Ele não dirá como César, ao anunciar ao Senado uma vitória fácil: Veni, vidi, vici! - cheguei, vi, venci.*(2)
Mas, como outro ilustre romano, melhor dirá e «post tantos que labores...»
Sim, meus Senhores, depois de tantos trabalhos é que ele voltou, com uma cultura mais ampla, com uma das maiores fortunas do distrito, e, louvado Deus! - com o mesmo nome honrado.


Fonte: - Soberania do Povo, de 6 de Abril de 1929 (Continua)
*(1)-Inspector Gomes dos Santos, na traseira da sua residência, com as suas pombas amestradas.
*(2)-Palavras de César ao senado romano a respeito da sua vitória sobre o rei do Ponto.
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