quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Leandro Augusto Martins - 3

A inauguração do palacete da Póvoa


O palacete da Póvoa, actualmente na posse de outros proprietários, foi inaugurado com muita pompa e circunstância (como é hábito dizer-se) no dia 8 de Setembro de 1925. Neste dia, o proprietário que o mandou construir - Leandro Augusto Martins - festejava o seu aniversário natalício. Há uma divergência de um dia, que não constitui problema de maior; outras fontes apontam que o aniversário se verificava a 7 de Setembro. Se houver tempo e pachorra, a este assunto voltaremos, com vista a colocar os pontos nos ii.

No post de 25 de Outubro passado, onde anunciamos dar nota da história desta inauguração, foi colocada a digitalização da notícia da Soberania do Povo, de 5/9/1925. Agora vamos tentar transcrever para ser convenientemente legível o seu conteúdo, respeitando a grafia tal como foi utilizada. E aqui a repetimos.

"No dia 8 do corrente passa o dia do anniversário natalício do nosso ilustre e presado amigo sr. Leandro Martins. N'esse dia inaugura este abastado capitalista e grande industrial do Rio de Janeiro, a sua bella vivenda na Póvoa do Espírito Santo, da freguezia de Vallongo, mandando fazer a benção do lindo palacete pelas seis horas da tarde, e offerecendo em seguida um lauto jantar aos seus numerosos amigos, que virão de differentes pontos do país felicitar o disntincto cidadão, que soube alcançar uma grande fortuna, pelo seu trabalho, pela sua intelligencia e pela sua honradez.
As suas casas de mobiliário no Brazil constituem a mais poderosa organização no genero em toda a América do Sul. É uma honra para todos nós que um patrício nosso tanto se tivesse notabilizado no commercio e na industria do Brasil.
O palacete do sr. Leandro Martins tem todas as commodidades modernas que o bom gosto do seu distincto proprietário soube crear com a prodigalidade que lhe proporciona a sua fortuna.
A banda militar de Infantaria 24 tocará no jardim do palacete desde as 5 horas tarde até às 2 da madrugada, tendo o nosso amigo sr. Leandro Martins requisitado à Companhia do Valle do Vouga um comboio especial para conduzir os seus numerosos convidados até à cidade de Aveiro, logo que termina a encantadora festa. O bello e amplo jardim do palacete será profusamente iluminado a luz electrica.
Ao sr. Leandro Martins cumprimentamos pelo seu anniversario, que sua ex.ª festeja este ano por esta forma, por ser a primeira vez que vem a Portugal depois de concluída a sua magnifica vivenda."

Fonte: - Soberania do Povo de 5 de Setembro de 1925

Essa vivenda ainda está de pé, como é sabido, mas modificada, se comparada a foto original com a moradia tal como está agora. Não vi bem, mas parece-me que se trata do torreão do lado direito.

*****

Esta narrativa presta-se a alguns comentários, talvez despropositados, dirão, mas por que constituem bastante curiosidade para a época e para o nível e forma de vida então vividas.
1 - Uma nota bastante curiosa é a utilização do termo «abastado capitalista», numa época em que proliferava já por toda a Europa a influência dos ventos de leste. Um amigo diz-nos que em seu entender era mesmo assim que a sociedade de então distinguia estas pessoas.
2 - "O palacete tem todas as comodidades modernas ...que o seu proprietário soube crear com a prodigalidade que lhe proporciona a sua fortuna" Pudera! Onde está a admiração? Então o senhor era rico, fez do seu dinheiro o que quis e, dele, distribuiu em trabalho, em dinheiro e em obras que pagou, fazendo movimentar (e bem) a economia local e não só.
3 - Uma terceira curiosidade interessante: alugou à CP - então Companhia dos Caminhos de Ferro do Vale do Vouga - um comboio especial para transportar os seus convidados, que a notícia não menciona, mas que terão desembarcado e embarcado (no regresso) no apeadeiro de Valongo. Só não se especifica também, como é que se deslocaram do Arrável até à Póvoa do Espírito Santo. Já vimos essa notícia, mas admitimos que a estrada ainda não estava pavimentada a "mac adam".
4 - E para terminar. A festa foi abrilhantada por uma banda de música militar, que «esteve de serviço» desde as 5 horas da tarde até às 2 da madrugada. Coitados dos militares, fartaram-se de soprar nos instrumentos as notas musicais, pensamos, até de madrugada! Foi muito tempo e muito reportório!
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