domingo, 1 de setembro de 2013

As crónicas de Adolfo Portela - 12

Cinco reizinhos para os Passos
 
 
Cá estamos agora em pleno Domingo de Passos, com o sino grande do Senhor Jesus, à capucha, a despejar badaladas tristes para cima de todo o Vale de Águeda. A  voz do sino, cavada e rouca, despenha-se do campanário, ruidosamente, e vai, ladeira abaixo do adro, como uma levada caudalosa de soluços a arrancar dum peito ferido... Parece que, ao passar deste dia na nossa terra, se condensa à flor de todas as coisas um neblina de tristeza que nem o vento das primaveras tem alma de desfazer. - Anda tudo de luto carregado, homens e mulheres, em sincera obediência ao preceito da igreja.
Entretanto, a perfumar o ar de tristeza que se espalha pela terra, o aroma fresco do junco e da erva doce espalha-se pelas ruas, a botar o pregão ingénuo duma festa de aldeia... Passam tabuleiros de folares à cabeça das padeiras, e os cartuchos de amêndoas  encastelam-se nos balcões das mercearias.
- Vá lá, meninas! Meia quarta da torrada, que veio agora mesmo de Coimbra!
Em outro tempo, houve em Águeda quem fabricasse a amêndoa coberta com todo o jeito e arte de quem sabia. Um lume bem esperto, o tacho de cobre bem lavadinho e bem baloiçado... - e a amêndoa da terra não receava que a de Coimbra lhe viesse disputar a primazia em qualidade. A indústria, porém, foi esmorecendo até morrer; e a receita da boa amêndoa da terra perdeu-se de todo, ao fechar a cova das velhas doceiras de Águeda, que as houve por lá de grande nomeada.
 
*****
 
Desde todo o amanhecer, que o rapazio da vila, com as suas bolsinhas de chita pendentes do pescoço, anda por essas ruas a perseguir quem vai no seu caminho:
- Cinco reizinhos para os Passos.
O peditório tradicional dos cinco reizinhos tinha, no meu tempo, estes dois fins: - era, com essa colheita de pequeninas esmolas, que nós forrávamos pé de meia para comprar umas tréculas novas para a Semana Santa; e era, ainda, a pedir a esmolinha para os Passos, que os afilhados, decerto sem darem por isso, preveniam os respectivos padrinhos de que a Páscoa estava a cair de aí a duas semanas, e que eles, os mesmos afilhados, se mantinham no propósito de não prescindir do velho direito do folar que a tradição lhes garante...
- Cinco reizinhos para os Passos...
E sorria-nos a esperança de que as nossas tréculas haviam de ter um jogo inteiro de três maços, e que o nosso folar da Páscoa havia de ser do grandôr da roda de um carro...
- A sua bênção, meu padrinho.
- Deus te faça um santo, afilhado.
E os padrinhos sorriam; sorriam os afilhados. A festa, assim, tocava-se dum religioso ar de bondade que escorria de todos os corações...

Veja aqui um vídeo, de quatro, no Youtube. Sobre a Procissão dos Passos, ou então no post anterior. É só clicar no botão...
 
Fonte: Águeda - crónica, paisagens, tradições, de Adolfo Portela, 2ª edição, Gráfica Ideal, 1964.
 
(Continua)
 
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