domingo, 14 de julho de 2013

Coisas da Guiné - 40

14 de Julho de 1963
14 de Julho de 2013
E lá vão 50 anos!!!
 
À beira da estrada para o aeroporto.
Do lado oposto ficava o Hospital Militar.
É evidente que, por estes números, para quem não conheça ou não saiba, haverá por aí gente a pensar que está, deste lado, um «cota» dos diabos. E é, em parte, uma verdade. Mas a aparência é diferente... obrigado, se o pensou...
Faz hoje precisamente cinquenta anos que, nos cais de Alcântara, me enfiaram, como quem transporta animais, num barco velho, a cair de podre (quase), chamado «Sofala», e me enviaram para a Guiné, onde desembarquei em 21 de Julho de 1963.
Não quero relembrar saudosamente a data. Preferia que não tivesse existido, que não tivesse acontecido. Como a tantas centenas de milhares de jovens que, como eu, naquela data, tinha feito 20 anos em Dezembro anterior. E tantos outros da nossas terras.


Primeiro distintivo a ser usado na Guiné pela CCaç 462,
mandado fazer em Lisboa com a minha participação e de
outros camaradas da Companhia. Passados tempos,
já iam as unidades munidas do seu distintivo próprio.
Mas o acontecimento não pode fazer esquecer momentos de ansiedades, de medos, de riscos incalculáveis, de possíveis situações dolorosas, de sacrifícios, doenças, etc. E que para muitos foi fatal...
Poderia ocupar por aqui muito mais espaço, tentando debitar algumas ténues lembranças, algumas das quais o tempo se encarregou de passar a borracha pelos carrilhões encefálicos.

*****

Do livro «Estranha Noiva de Guerra», de Armor Pires Mota, 2ª edição, Setembro de 2010, Editora Âncora, romance ficcionado, sendo o tema de fundo a guerra na Guiné, respigamos estas parágrafos, que dão uma pequena imagem do que fora vivido há quase cinquenta anos:

«Quando voltei à tenda, um rais-parta-a-guerra soltou-se-me dos lábios sonolentos.  As garrafas, enforcadas no arame farpado, agitadas pelo vento, eram canção impossível. Fiz um esforço para me acalmar. Não havia um segundo que não lembrasse a boa e doce Mariama. John, na sua gaiola de canas de bambu, batia as asas, picava nas canas. Estava deveras inquieto. Quando deixei de ouvir John, um tiro solitário saltitou, estalando fino. Já não tive tempo para esperar outro e outro. As sentinelas abriram, de imediato, fogo cerrado para o mato. O ataque começava. Só tive tempo de enfiar a G-3 em bandoleira e as cartucheiras. Em bandoleira, não, bem aperrada ao quadril. Correndo, de torso curvado, quase rasando o chão, fui acaçapar-me no abrigo de António Mestre, que logo havia esquecido os «pintelhos» (era assim que ele dizia), da madrinha de guerra. A fuzilaria feroz e cerrada vinha de todos os lados, dos morros de bagabaga, de árvores bem copadas, da pista de aterragem, até da tabanca, os morteiros mais ao largo. Via-se que estavam perto. As armas espirravam estrondos, faiscavam pirilampos de fogo devastador, mesmo à boca do mato. As tarimbas rangeram. Em menos de um ámen, todos enfiaram o capacete, as cartucheiras. O ânimo também. Em menos de um ámen empurraram as armas para o quadril, arrastaram cunhetes e granadas de mão. Alguns nem sequer tiveram tempo para pensar que iam de berimbau ao léu ou mesmo de cuecas. Tanto fazia morrer nu como vestido. S. Pedro não reparava para essas coisas tão terrenas.»

Nota: - O John era um periquito ou papagaio do protagonista do romance, José Joaquim Bravo Elias.
 



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