segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Gentes destas Terras - 43

Souza Baptista
Faleceu em 28 Outubro 1963
Com este pequeno titulo, pretende-se lembrar um grande Valonguense. Talvez o maior de todos os tempos. Joaquim Soares de Souza Baptista.
Porque hoje, 28 de Outubro de 2013, completam-se cinquenta anos após o seu falecimento, naquela data de 1963.
Deixamos aqui este pequeno registo. Porque esquecer esta data seria uma ignomínia!
Não houve tempo para completar mais este apontamento, porque naquela data - 28 de Outubro de 1963 - estávamos na Guiné...
A intenção era ir rebuscar notícias de 1963 que nos permitissem uma imagem mais real do que teria sido a manifestação de pesar que naquele dia aconteceu. As  notícias que nos chegaram àquela pequena parcela de território de África negra, de terra vermelha e suor tropical quase impossível de suportar, principalmente nos primeiros tempos, foi de que na realidade o cortejo, as manifestações e as presenças foram inimagináveis.
Foi cumprida uma das suas vontades; ser sepultado em campa rasa, sem grandes floreados monumentais, como agora se vêm.
Era nossa intenção registar o facto. Aqui fica.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Conselheiro Rodrigues de Bastos - 1

Introdução

Capa da 'Vida e Obra do Conselheiro José
Joaquim Rodrigues de Bastos' na encadernação
da autoria do Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra,
com a devida vénia.
Há já vários anos que tentava "conhecer" melhor a Vida, Obra e História do Conselheiro Rodrigues de Bastos, que, em 8 de Novembro de 1777, nascia no lugar do Moutedo.
Não será de espantar e de ficar de boca aberta se ao perguntar a alguém, que uma rua no lugar de Arrancada do Vouga, tem o nome deste Conselheiro e se completar a pergunta, procurando do entrevistado se sabe dizer quem foi este grande nome dos tribunais, da política, da literatura, cuja placa o imortaliza ali mesmo perto do cruzeiro, que tem como vizinho o Largo da Praça, certamente que poucos saberão responder.
Ingratidão de um povo que esquece os seus maiores, poderá afirmar-se com toda a legitimidade!
Isto para dizer que a freguesia teve grandes nomes que a projectaram em tempos idos, e valem tanto como os contemporâneos que por ela deram muito!
Acrescentar ainda que recentemente fui surpreendido pelo contacto de pessoas descendentes do Conselheiro Rodrigues de Bastos.
Como nos propomos dedicar algumas páginas a este vulto da nossa História local, teremos de acrescentar  ainda que de um desses descendentes, o Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, ilustre jurista formado na velha Universidade de Coimbra, do Instituto Português de Heráldica, cujo primeiro trabalho, admitimos, sobre aquele familiar, tetravô, consta de uma Separata do Boletim Municipal de Aveiro (Ano V-Junho de 1989 - Nº 11). Esta foi a primeira obra histórica do Conselheiro que me chegou às mãos, além do Tomo  I original, numa terceira edição de 1854, denominada «Collecção de Pensamentos, Máximas e Provérbios» (respeitada a grafia da época), que se encontram na barra lateral deste insignificante cantinho, que rapidamente esgotou.
O Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, por intermédio de um familiar residente na freguesia da Trofa, deste nosso concelho de Águeda, teve a gentileza de nos brindar com mais três obras originais do Conselheiro e que são: Meditações ou Discursos Religiosos, 5ª edição, 1850; Os Dois Artistas ou Albano e Virgínia, 2ª edição, 1853; e o Médico do Deserto, 2ª edição, 1864. Todas estas obras logo foram «devoradas» pelo público, mal saíram do prelo.
Do Dr. Rui Guerra temos a promessa de poder vir a conseguir ainda outras obras, que, diz, está a «investigar» o seu paradeiro, porque a maior parte delas estão religiosamente guardadas na sua importantíssima e valiosíssima biblioteca, a calcular pelo que me tem dito e outras, de tal maneira valiosas, que só algum alfarrabista ainda as possa preservar.
Para terminar este Introito, dizer ainda que da parte do Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, tivemos o privilégio de receber uma interessante encadernação de um trabalho inacabado, intitulado «Vida e Obra do Conselheiro José Joaquim Rodrigues de Bastos» nele fazendo menção ao blogue «Do Marnel ao Vouga», numa alusão a António Trajano, que aqui postamos há já bastante tempo, sobre uma página que dedicamos ao Conselheiro e na qual aquele nome, de origem brasileira, dizia que teve por professor na Universidade de Coimbra, onde estudava, um latinista de nomeada. Ele não era mais que o «jovem» da época, Rodrigues de Bastos, e agora acrescida de uma foto de nossa autoria da placa que está gravada em mosaicos numa parede da referida rua de Arrancada, que identifica e confirma a história que a ela está adjacente. E já inserida naquele recente trabalho e com um post aqui incrustado em 24 de Setembro passado.
Fiquemos por aqui...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Coisas e Loisas - 44

Os concelhos de Vouga, Aguieira e Brunhido
 
Pouco temos transcrito da Monografia de António Simões Estima, «De UALLE LONGUM a VALONGO DO VOUGA», Subsídios Monográficos, 2003, edição patrocinada pela Casa do Povo de Valongo do Vouga.
Neste trabalho há factos que são de realçar, como este dos concelhos, agora que tanto se fala em reformas administrativas, a nível das freguesias - e pouco a nível de concelhos - para se confirmar que Portugal esteve sempre mergulhado nestas andanças que, salvo opinião avalisada, eram constantemente alteradas, cheirando sempre mais a interesses pessoais, do que a facilidades de reorganização do território e sua administração. Vejamos este exemplo que nos narra António Simões Estima, na página 48 da Monografia citada:
 
 
 
«Já depois de criados os municípios de Aguieira e Brunhido, em 1514 e 1516, o município de Vouga, em 1689, abrangia os lugares de Arrancada, Carvalhal da Portela, Lanheses, metade de Aguieira (parte nascente do rio), Veiga, Sabugal, Cadaveira, Moutedo, Salgueiro, Viade, Redonda, Beco, A-do-Fernando, Cavadas, Troviscal, Toural e Levegadas.
Mas tarde, no chamado período de «danças» dos concelhos, tal a fartura de alterações concelhias, sofreu várias modificações. Pelo decreto de 28 de Junho de 1833, o concelho de Vouga ficou reduzido às freguesias de Macinhata, Valongo e Vale Maior.
Em 1850 o concelho tinha 2 juízes ordinários, dos órfãos e das sisas, 2 vereadores, 1 procurador, 1 escrivão da câmara, 4 escrivães do público, 2 almotacés, 1 alcaide, 3 capitães de ordenanças e 1 carcereiro, para além de outros empregados.
Os seus juízes, clérigos e militares, viviam nos principais aglomerados urbanos do concelho, como era o caso de Arrancada do Vouga, que chegou a ser sede provisória do município de Vouga, e aonde se realizavam os principais actos, como a arrematação de bens, no largo do Cruzeiro, então denominado Largo da Praça.
No Archivo dos Municípios Portugueses, de 1885, ao falar-se de Vouga, diz-se:
"A capital nominal deste concelho era a pequeníssima villa do mesmo nome, mas a sua verdadeira sede era o lugar de Arrancada."
Na Memória Sobre Foraes, a p. 164, diz-se: "Arrancada, com um cruzeiro com sua abóbada e a imagem de Cristo, ao pé do qual se arrematam as fazendas que se haviam de vender no Pelourinho do Vouga, e se faz só no lugar de Arrancada por costume antigo."
 Foi monteiro-mor deste município o Dr. José Agostinho de Figueiredo Pacheco Teles e seu administrador João Baptista de Figueiredo Pacheco Teles, da casa da Quinta de Aguieira, respectivamente, pai e irmão do Visconde de Aguieira e seu Capitão-Mor José Pereira Simões, da Quinta do Laranjal - Arrancada do Vouga.
Este concelho viria a ser extinto pelo decreto de 31 de Dezembro de 1853, tendo a sua área de jurisdição sido incluída no concelho de Águeda, criado em 1834.»

As Meninas Mascarenhas

O LIVRO - LXVII
 
Rainha D. Maria II, in Wikipédia.
Nome completo: Maria da Glória Joana Carlota
Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de
Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga
Os Cabrais tinham sido vencidos e começava uma época de regeneração política. O duque de Saldanha que ia já em retirada para a Galiza, praticamente desbaratado, recobrou forças e colocou-se à frente do movimento revolucionário que acabaria por triunfar.
Constituído o novo governo, pacificada a nação, lança-se um programa de tolerância política, de fomento económico, que devia levantar o país do atrazo e da prostração em que tinha até aí vivido.
A esse governo presidia o duque de Saldanha e faziam parte do ministério Rodrigo da Fonseca Magalhães e Fontes Pereira de Melo, este ministro pela primeira vez. Foi em 1851.
O governo mostrava-se seriamente empenhado no progresso e no adiantamento moral e material do país, resolvendo que a rainha visitasse as províncias do norte.
E meados de 1852, D. Maria II partia para o Porto. Os habitantes das terras que ela percorria aclamavam-na entusiasticamente. Cidades e vilas estiveram em festa à chegada da Boa Mãe, como a história lhe chama. No Porto os festejos foram brilhantíssimos.
Não havia ainda estradas boas nem caminhos de ferro, mas a cidade encheu-se de gente estranha que foi assistir à recepção feita à imperante pela briosa população das margens do Douro.
Ora, desta visita da rainha, invertem-se as previsões de Joaquim Álvaro na demanda com os Bandeira da Gama, por causa das órfãs. Nem ele poderia ter admitido tal plano urdido pelos seus adversários.
Joaquim Álvaro mantinha certo o seu triunfo, porque tinha por si a lei e o testamento de seu sogro, as autoridades locais eram-lhe favoráveis, pelo que as preocupações quase que tinham desaparecido.
Desta feita, os Bandeiras foram mais hábeis do que os Teles, formando um plano inteligente e simples que procuraram executar. Estavam saciados da justiça e dos tribunais, nos quais gastaram rios de dinheiro, aborrecidos e transtornados por tantas dilações e canseiras, pelo que nada queriam com os juízes que nunca lhes davam razão e lhes ganhavam nos emolumentos.
O novo plano de Torredeita foi organizado como no próximo capítulo se irá descrever.
 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Solidariedade

Quem pode (alguma coisa) a quem mais precisa
 
A Lucília e a Isabel, através do seu blog aqui lançaram uma campanha, vendendo por valores simbólicos, uma grande parte dos artigos de artesanato que confeccionam.
Tendo em vista a dinamização da iniciativa, aqui postamos o screen do seu blog, que clicando ali em cima, na palavra vermelha, vão ficar surpreendidos com o que fazem e, com isso, o quanto podem ajudar.
Ajude você também e aplique algumas moedas, de algumas que ainda lhe restam, e faça a sua boa acção, porque, com elas, também pode ajudar.
É uma frase feita, mas cabe bem aqui: Ajude a ajudar...

Marcha - Cidade Invicta


Banda Castanheirense - Águas do Botaréu-114º Aniv. (Cap. Amilcar Morais)


Gente destas terras - 42

Capitão Amílcar da Fonseca Morais

Para fazer uma pequena biografia do valonguense capitão Amílcar da Fonseca Morais, natural de Lanheses, onde nasceu 17 de Março de 1931, nada melhor que consultar a grande quantidade de literatura e vídeos que andam pelo espaço cibernauta.
São disso prova, os vídeos que acima pode ver. Só por amostra...
O capitão Amílcar da Fonseca Morais, cf. António Simões Estima, in DE UALLE LONGUM a VALONGO DO VOUGA, Subsídios Monográficos, edição patrocinada pela Casa do Povo de Valongo do Vouga, 2003, cedo demonstrou uma grande vocação musical. Seus irmãos mais velhos, Manuel, José e António - já falecidos, também pessoas muito interessadas pela música, davam-lhe as primeiras lições, chegando a fazer parte da antiga Banda Valonguense, da Casa do Povo, de vida muito curta.
O irmão Manuel foi fundador e primeiro mestre dessa Banda, em colaboração com o grande benemérito Souza Baptista. Os outros dois foram executantes enquanto a citada banda existiu; posteriormente colaboraram com vários agrupamentos musicais da região.
Fez parte da Banda de Águeda, da Orquestra do Rancho da Rua de Além, de Assequins, e do Grupo Musical dos Vicentes, de Coimbra.
Alistou-se como voluntário do ex-Regimento de Infantaria de Coimbra, seguindo a vida militar. Aqui, durante vários anos, estudou e realizou composições musicais.
Cumpriu missões militares em Moçambique e Angola. No primeiro, foi trompetista da Orquestra de Salão da Rádio Club de Moçambique e em Angola leccionou acústica e história da música, na Academia de Luanda.
A convite da Câmara Municipal de Ponte de Lima, foi autor do Hino Limiano, da ilha dos amores do poeta António Feijó, publicado no Almanaque de Ponte de Lima, em 1980. Também é de sua autoria  o hino da Liga da Multi-Secular Amizade Portugal-China, gravado pela Banda da Guarda Nacional Republicana.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O que a política provoca

A fiscalização das eleições
 

É para brincar, no meio de coisas sérias.
Ontem, 29 de Setembro de 2013, aconteceram as eleições para as Autarquias. Sei que todos sabem...
Nunca deixei por mãos alheias os meus deveres cívicos. Lá fui participar.
Entro na sala onde se desenrolava o acto e qual não é o meu espanto quando reparo num canídeo refastelado debaixo de uma das mesas. Dormia... talvez com o estômago a necessitar de ser reabastecido, não sei...
O que sei é que após exercer o meu direito, muni-me da máquina fotográfica, pedi autorização e registei o acontecimento que a foto confirma.
Não tem nada de especial, dirão. Também sou da mesma opinião.
O certo é que de acordo com a versão dos membros da mesa, o cão terá entrado (sem pedir licença, pelo que percebi), procurou (talvez após ter cheirado) um local que lhe pareceu adequado, ninguém o maltratou, o canídeo sentiu-se acolhido e ali se deitou e dormiu... dormiu... que nem deu pelas eleições.
Alguém que ali exercia funções, sempre foi gracejando, afirmando que houve reclamações por falta de segurança. O canídeo terá exercido as funções dessa segurança a inteiro contento.
Resta acrescentar que o animal não era conhecido de ninguém da mesa de voto...
Este blogue não é político, mas este facto e o momento não podia deixar de ser registado.
Isto será ilegal a ponto de anular as eleições?
 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Coisas e Loisas - 43

Enfeitar rotundas
 
Pois é. Parece que a moda pegou e, embora sem confirmação, que não foi possível obter, admitimos que por iniciativa da Junta de Freguesia, a rotunda do lugar da Aldeia está a ser devidamente "ornamentada".
Sem entrar em explicações, que não são necessárias, aqui fica um desses enfeites, por sinal, na minha opinião, não fica mal aquela serra de madeira ali "plantada". Não sabemos, mas ainda havemos de investigar donde veio aquela serra e se a mesma é em memória das serrações que ali existiam, uma mais conhecida empresa, ou se Arménio Ribeiro Lamas, que residia ali mesmo ao lado.
Ainda hoje lá andava alguém a tentar colocar algumas peças, que, certamente, seriam ainda necessárias. Um lamiré, que nada tem de depreciativo!
Será que aqueles ferros estarão lá muito tempo?
 
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A saudade da Pantera



Isto é apenas para variar de temas e recordar a boa disposição que nos proporcionava a Pantera cor de rosa, através de um mail hoje recebido. Façam o favor de se divertir...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Gente destas terras - 41

A Rua Conselheiro Rodrigues de Bastos

No lugar de Arrancada do Vouga, desta freguesia, na rua que começa no cruzeiro e até próximo da igreja de Santo António, está uma placa cuja foto abaixo confirma:
 
Este é o mosaico que identifica o início da Rua Conselheiro
Rodrigues de Bastos, cuja foto só hoje (25/9/2013) foi obtida.
O algarismo 8, que é visível, é o número da porta que fica por baixo
deste mosaico, datado assim: C.M. em 17-12-1907.
Clique na imagem para aumentar.
 Num estudo bibliográfico da autoria do Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, cujo exemplar,  como foi antes referido, teve a gentileza de me oferecer, a páginas 81, refere:
«A rua principal de Arrancada, bem próximo do lugar de Moutedo onde ele nasceu, tem o seu nome, homenagem que a Câmara Municipal de Águeda lhe prestou segundo noticia o jornal Soberania do Povo de 11-1-1908:
Vista geral do início da rua Conselheiro Rodrigues Bastos,
vendo-se ao fundo a igreja de Nª Sª da Conceição. A rua
termina um pouco mais acima da curva. Do lado esquerdo da
foto, numa parede, está o mosaico antigo a identificar a rua
A câmara municipal de Águeda, não a comissão interina que, contra lei expressa se apoderou dos Paços do Concelho apoiada na força das baionetas, mas a verdadeira e legítima câmara, deliberou, na sua última sessão de Dezembro, que algumas ruas de povoações importantes do concelho fossem condecoradas com nomes de conterrâneos que souberam honrar a pátria ou pelos seus talentos ou pelos seus serviços. Assim, à rua principal de Arrancada foi dado o nome de rua do Conselheiro Rodrigues de Bastos, o conhecido escritor que produziu admiráveis obras de literatura e de ciência e nasceu na nossa freguesia de Valongo; à rua principal de Aguieira o nome de Visconde de Aguieira, que foi presidente da Câmara municipal, administrador do concelho e deputado da nação; à rua principal de Macinhata para comemoração do Dr. José Joaquim da Silva Pinho que foi vereador da câmara, administrador do concelho e presidente da junta geral do distrito, e ao largo da Capela da Mourisca o nome Largo Saraiva Lima como recordação do Dr. Sebastião Correia Saraiva Lima que foi vereador da câmara municipal de Lisboa, presidente da Associação Comercial da mesma cidade e era natural da Mourisca.»
 
Aqui fica a história de duas ruas da freguesia, cuja toponímia é bastante antiga.
 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Gente destas terras - 40

Conselheiro Rodrigues de Bastos
Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra
 
(Clique na imagem para aumentar)
Já por várias vezes por aqui tenho feito o devido realce histórico desta figura que foi o conselheiro Rodrigues de Bastos, natural do lugar do Moutedo, tendo desempenhado altos cargos da Nação, no século XIX.
Há dias uma senhora residente no lugar da Trofa telefonou-me. Lá fiquei a saber quem era e dei-lhe as informações que o telefonema originara.
Com alguma surpresa recebi um mail de um ilustre descendente do conselheiro Rodrigues de Bastos, o Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra. Como sabemos, a rua conselheiro Rodrigues de Bastos, cuja história aqui ainda havemos de registar, em Arrancada do Vouga, pertinho do lugar onde nasceu, pretende destacar esta figura, natural daquele lugar e não de Arrancada. Esta rua esteve quase para ser mudada para Rua Souza Baptista, em tempos não muito recuados.
Esse mail anunciava-me o envio de um trabalho histórico-biográfico daquela ilustre personagem, cuja bibliografia, feita à minha maneira e com os elementos de que disponho, por aqui tenho postado, quando hoje sou surpreendido com um envelope A4 na minha caixa de correio.
A direcção estava correcta.
O remetente, pelo nome, não me era estranho. Desconfiei e acertei.
Abri e nele vinha um interessantíssimo exemplar, cuja capa digitalizada aqui fica reproduzida.
Ao autor, residente no Porto, já tive oportunidade de agradecer. Nesta cidade falecera o conselheiro Rodrigues de Bastos, no ano de 1862.
 
A parte mais curiosa e surpreendente, porque de imediato o comecei a ler, é que logo na página 6, diz que o conselheiro se matriculara no primeiro ano jurídico da Faculdade de Direito, como tem sido escrito em vários locais, em 31 de Outubro de 1790, voltando a inscrever-se, no segundo ano, em 1800, tendo sido premiado num dos anos jurídicos, terminando o curso em 1804. Houve um hiato de 10 anos. E o Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, diz, textualmente, no parágrafo seguinte:
 
«Parece, contudo, que não ficou inactivo pois, à conta do que foi escrito no blog «terrasdomarnel.blospot.pt», da autoria de José Marques Ferreira, no capítulo «Do Marnel ao Vouga», o brasileiro António Trajano escreveu no jornal do Brasil O Puritano que, em Coimbra onde estudara, tivera  como professor de latim o ilustre conselheiro José Joaquim Rodrigues de Bastos, latinista de nomeada.»
 
Segue o texto da história. Por nós ficamos cientes do destaque que foi dado a este modesto blog que, em jeito de conclusão, tal pormenor não seria tão conhecido como podia admitir-se, e repetindo o que aqui já foi escrito, também no Brasil era citado como ilustre personalidade da cultura e da literatura, talvez mais do que em Portugal e, particularmente, na sua freguesia.

domingo, 22 de setembro de 2013

Casa do Povo de Valongo do Vouga - 34

A primeira direcção

Busto de Souza Baptista, inaugurado em
 4 de Dezembro de 1988, entretanto
retirado por motivos de segurança.

Relativamente ao conteúdo da página 33 da série dedicada à Casa do Povo de Valongo do Vouga, vamos retroceder um pouco no tempo, para nos  situarmos em 1942, data da sua fundação.
A sessão realizada em 12 de Julho de 1942 (a primeira terá sido em Junho de 1942), cuja numeração, desta data, corresponde à Acta Nº 2, transcrevemos mais abaixo uma curiosidade, não sem antes mencionar que essa reunião se verificou no salão nobre da Casa do Povo, estando reunida a direcção, composta pelos cidadãos João Baptista Fernandes Vidal, Joaquim Ferreira Rachinhas e Eduardo Vasconcelos Soares.
Deste modo se conhece que a primeira direcção foi constituída por estas personalidades da freguesia. Contudo, como não podia deixar de ser, as actas devem descrever, embora sucintamente, tudo aquilo que se passou. Por isso, menciona ainda que teve a assistência do senhor Joaquim Soares de Souza Baptista, presidente da Assembleia Geral. Era seu hábito acompanhar os acontecimentos em que se tinha envolvido.
A curiosidade:
Nesta acta está ainda registado, o seguinte: "A seguir procedeu-se à leitura do expediente, que constava de cartão de visita de agradecimento do senhor doutor Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros, e ofício da Casa do Povo de Alquerubim, felicitando a nossa Casa do Povo e desejando-lhe um próspero futuro, oferecendo os seus serviços. Foi deliberado oficiar, agradecendo e retribuindo."
No segundo caso, dá a entender que a Casa do Povo de Alquerubim já existia. No primeiro caso, constituía um hábito de Salazar. Enviava sempre um cartãozinho pessoal a agradecer qualquer coisa ou acusando a sua recepção. Coisas de outros tempos, outras eras...

domingo, 1 de setembro de 2013

As crónicas de Adolfo Portela - 12

Cinco reizinhos para os Passos
 
 
Cá estamos agora em pleno Domingo de Passos, com o sino grande do Senhor Jesus, à capucha, a despejar badaladas tristes para cima de todo o Vale de Águeda. A  voz do sino, cavada e rouca, despenha-se do campanário, ruidosamente, e vai, ladeira abaixo do adro, como uma levada caudalosa de soluços a arrancar dum peito ferido... Parece que, ao passar deste dia na nossa terra, se condensa à flor de todas as coisas um neblina de tristeza que nem o vento das primaveras tem alma de desfazer. - Anda tudo de luto carregado, homens e mulheres, em sincera obediência ao preceito da igreja.
Entretanto, a perfumar o ar de tristeza que se espalha pela terra, o aroma fresco do junco e da erva doce espalha-se pelas ruas, a botar o pregão ingénuo duma festa de aldeia... Passam tabuleiros de folares à cabeça das padeiras, e os cartuchos de amêndoas  encastelam-se nos balcões das mercearias.
- Vá lá, meninas! Meia quarta da torrada, que veio agora mesmo de Coimbra!
Em outro tempo, houve em Águeda quem fabricasse a amêndoa coberta com todo o jeito e arte de quem sabia. Um lume bem esperto, o tacho de cobre bem lavadinho e bem baloiçado... - e a amêndoa da terra não receava que a de Coimbra lhe viesse disputar a primazia em qualidade. A indústria, porém, foi esmorecendo até morrer; e a receita da boa amêndoa da terra perdeu-se de todo, ao fechar a cova das velhas doceiras de Águeda, que as houve por lá de grande nomeada.
 
*****
 
Desde todo o amanhecer, que o rapazio da vila, com as suas bolsinhas de chita pendentes do pescoço, anda por essas ruas a perseguir quem vai no seu caminho:
- Cinco reizinhos para os Passos.
O peditório tradicional dos cinco reizinhos tinha, no meu tempo, estes dois fins: - era, com essa colheita de pequeninas esmolas, que nós forrávamos pé de meia para comprar umas tréculas novas para a Semana Santa; e era, ainda, a pedir a esmolinha para os Passos, que os afilhados, decerto sem darem por isso, preveniam os respectivos padrinhos de que a Páscoa estava a cair de aí a duas semanas, e que eles, os mesmos afilhados, se mantinham no propósito de não prescindir do velho direito do folar que a tradição lhes garante...
- Cinco reizinhos para os Passos...
E sorria-nos a esperança de que as nossas tréculas haviam de ter um jogo inteiro de três maços, e que o nosso folar da Páscoa havia de ser do grandôr da roda de um carro...
- A sua bênção, meu padrinho.
- Deus te faça um santo, afilhado.
E os padrinhos sorriam; sorriam os afilhados. A festa, assim, tocava-se dum religioso ar de bondade que escorria de todos os corações...

Veja aqui um vídeo, de quatro, no Youtube. Sobre a Procissão dos Passos, ou então no post anterior. É só clicar no botão...
 
Fonte: Águeda - crónica, paisagens, tradições, de Adolfo Portela, 2ª edição, Gráfica Ideal, 1964.
 
(Continua)
 

A procissão dos Passos em Águeda 2011 - parte 4



Um vídeo, de quatro, de António José Leitão Canotilho. Este vídeo está relacionado com o post acima. Ver aqui  os restantes.


sábado, 31 de agosto de 2013

Coisas e Loisas - 42

DIABRURAS DE CUPIDO
Um alarme infundado


Uma importante casa de Aguieira
desde o princípio do séc. XX.
No fim desta transcrição, explica-se melhor o conteúdo, que foi publicado no periódico paroquial Valongo do Vouga, de Junho de 1995, sendo seu autor Carlos Pinho. Aquele título e sub-título eram de uma notícia que foi publicada e que dizia assim:
 
«Valongo do Vouga, 8 - A pacífica população de Aguieira, foi anteontem à noite alarmada por um grito uníssono em que se afirmava que uma das mais formosas raparigas daquele lugar, saíra precipitadamente de casa com o fim de se suicidar.
Em forte gritaria, muita gente acorria em todas as direcções, sondava os poços, vigiava as árvores, a ver se ainda a encontrava com alguns sinais de vida.
Demorou, felizmente, pouco tempo esta aflição, pois em breve chegava a notícia - apesar das comunicações não estarem ainda restabelecidas - de que a ausente se encontrava a salvo, junto do seu namorado, que a transportava para lugar seguro!»
 
Comentava ainda Carlos Pinho:
 
«Conhecemos o casal que vive feliz e, de quando em vez, muito prezamos em o visitar, pois há sempre «coisas» que se recordam ainda com saudade e que revelam eloquência firmada e estampada nos rostos de quem ousou enfrentar a realidade, tomando como canção o aval da sua PALAVRA DE HONRA!!!
Hoje os tempos evoluíram velozmente, permitindo uma abertura mais circunstanciada, aliada a uma liberdade igualmente mais exigente e menos compreendida!
Daqui, a resultante de uma força impulsionadora, que «obriga» os jovens a cometerem excessos, expondo-se denodadamente e... «à la volonté»!!!
Há «coisas» que requerem recato e muito senso. Lembrem-se, Jovens, que celebramos o Ano Internacional da Família [em 1995] - a célula basilar de todos nós - a quem devemos respeito, dignidade e honorabilidade.
Respondam, pois, à chamada com mais prudência e senso, e... menos euforia.
 
Maio/95
Carlos Pinho»
 
*****
 
Foi uma pequena história passada em Aguieira. Estaríamos em finais da década de trinta, início de quarenta, séc. XX. Quem me despertou e chamou a atenção para este episódio que o saudoso Carlos Pinho, da bicicleta, retratou em 1995, foi um dos filhos do casal, cuja amizade prezamos - e muito - para além de todos os interesses que a vida proporciona. Lá desfolhámos o Valongo do Vouga até encontrarmos  o comentário daquele conterrâneo que, habitualmente, ocupava as páginas daquele periódico, com a sua já interessante rubrica a que chamava «O Nosso Banquinho». Um banquinho onde desenvolvia estas e outras conversas, muitas delas reais, outras imaginárias.
Como o Carlos Pinho em 1995 não denunciou a identidade da pessoa envolvida na história, atitude  eticamente  correcta, também não somos nós que, agora e aqui, o vamos fazer. A pessoa em causa, já falecida, que conhecemos e com quem mantínhamos as melhores relações, merece essa privacidade, agora na pessoa dos seus descendentes e outros familiares.
O que antes se transcreve está antecedido de um longo comentário a propósito do acontecimento, que não se publica aqui, porque nada mais acrescenta ao que está dito. Aquela notícia, dizia Carlos Pinho, foi transcrita do recorte de um jornal que guardava.
A «rapariga» que esta história recorda, teria entre 18 a 19 anos de idade, ao tempo daquelas décadas. O ano do seu nascimento foi em 1921.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Coisas e Loisas - 41

1946 - Sociedades irregulares


Estes três amigos nada têm a ver com a oficina aqui citada.
Manuel Marques Soares (sacristão), «Neca Varela», como era
vulgarmente conhecido, já falecido e Manuel da Silva Pinto da
Carvalhosa. A oficina ficava do lado direito do local onde estão
estes três amigos.
É verdade! Em 1946 havia já as chamadas sociedades irregulares.
Encontramos um papel, que já não sabemos porque carga de água nos veio parar às mãos, que achamos curioso e original.
Os intervenientes eram conhecidos e ao filho de um deles, o Avelino dos Santos Gomes, demos conhecimento da sua existência, que achou interessante, nostálgico e saudoso, porque, dizia, que naquele tempo seu pai - Porfírio Augusto Gomes - poderia ter obtido avultadas vantagens, pela atribuição exclusiva da representação das afamadas marcas Sachs, Zundapp e outras.
O documento é uma declaração, pela qual os intervenientes colocam fim a uma sociedade irregular que mantinham, cujo conteúdo era este:
 
DISSOLUÇÃO DE SOCIEDADE
 
Os abaixo assinados, Porfírio Augusto Gomes, casado, comerciante, de Aguieira, Valongo do Vouga, e Jerónimo da Silva Bouceiro, casado, empregado industrial, de Arrancada do Vouga, declaram o  seguinte:
1º- que dissolveram nesta data a sociedade comercial irregular que existia entre ambos, com estabelecimento em Arrancada e Valongo, que girava sob a firma Gomes & Bouceiro, Lda. e que se destinava à indústria de reparação e comércio de bicicletas;
2º- que todo o activo e passivo da sociedade dissolvida fica adjudicado ao signatário Porfírio;
3º- que, feitas as contas e considerando a actual  desvalorização dos materiais, se fixou, por acordo, em Esc. 32.000$00 (trinta e dois mil escudos) a quantia a entregar pelo sócio Porfírio ao sócio Bouceiro para liquidação integral da cota e suprimentos deste último;
4º- que a referida importância foi nesta data entregue ao sócio Bouceiro;
5º- que os signatários constatam ter havido durante a gerência da sociedade extinta alguns mal entendidos, não deixando todavia de haver uma certa correcção e honestidade.
 
Arrancada do Vouga, 9 de Março de 1946.
 
Porfírio Augusto Gomes
Jerónimo da Silva Bouceiro
 
Nota: Os mais antigos lembram-se destas oficinas, principalmente a de Valongo, junto ao adro da igreja, onde funcionou até há pouco tempo um café.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Casa do Povo de Valongo do Vouga - 33

O Primeiro Relatório e Contas
 
Retomamos a apresentação de algumas situações após a fundação da Casa do Povo, destacando o 1º Relatório e Contas, referente ao ano de 1942, cuja gerência oficial teria começado em Junho deste ano, porquanto, como já foi referido, o Plano e Orçamento deste ano apenas dizia respeito ao período de Junho a Dezembro.
A acta de 7 de Fevereiro de 1943 faz referência à aprovação do 1º Relatório e Contas, de seis meses do ano de 1942.
Apesar da extensão, para aqui ser transcrito, ficaria este trabalho incompleto se o seu conteúdo ficasse espartilhado por mais de um post. O que encontramos foi isto:
 
Actuais instalações administrativas e de
produtos agrícolas
Volvido um ano de existência desta Casa do Povo, não será descabido dar ao público um síntese dos benefícios que ela já proporcionou aos seus associados, tanto mais que, de vez em quando, se ouvem uns injustificados e maldosos murmúrios que é preciso desfazer.
A Casa do Povo apareceu nua época anormalíssima, no predomínio de um estado social de feroz egoísmo, e daí, talvez, a principal causa de certas más vontades, por parte de pessoas para quem o largar um tostão que seja, em benefício do seu semelhante, é ódio de morte.
Mas que teria sido de tantos desgraçados - crianças e adultos - se o pequeno sacrifício  que se exige para a Casa do Povo não tivesse vindo em seu auxílio?
Para que, pois, a ninguém mais seja lícito duvidar dos altos benefícios sociais que a Casa do Povo já prestou neste curto espaço de tempo de um ano, aqui se dá um resumo desses benefícios, até 30 de Junho findo: (1)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Junta de Freguesia na história - 104

O Escrivão da Junta em 1942
 
António das Neves Martins de Barros,
à esquerda, na companhia de Pedro
Fernandes, numa mostra de artesanato
realizada na Casa do Povo de
Valongo do Vouga, em que ambos
foram expositores.
Saímos, como antes já dissemos, da ordem cronológica de datas sobre histórias da Junta, para evidenciar um facto que, em 1942, e por motivos que hoje não fazem diferença alguma, são de enaltecer. No número 103 se refere e agora resume-se.
O sr. Joaquim Ferreira Rachinhas desempenhava as funções, que, na época, se designavam por  Escrivão da Junta. Pediu a sua demissão. Foi nomeada outra pessoa para aquelas funções.
E como consta na acta da sessão de 12 de Maio de 1942, foi nomeado o sr. António das Neves Martins de Barros, residente na Carvalhosa, pessoa íntegra em todo os factos de uma vida, nomeadamente por ser dos poucos (mas havia alguns) que eram declaradamente contra o regime político vigente. Sofreu as consequências, como outros o sofreram.
Inusitado e deveras surpreendente, para alguns, terá causado a sua nomeação para a Junta de Freguesia. É que as personalidades cuja postura de democrata e íntegro, mas discordando - que não se podia manifestar - raramente ou quase nunca eram nomeados para cargos públicos.
Por isso registamos que este conterrâneo foi aceite e desempenhou o cargo de Escrivão na Junta de Freguesia de 1942, que era composta por João Martins Pereira, presidente, Ernesto Gomes da Silva, secretário e Abílio Simões Gomes, tesoureiro, substituindo o aludido Joaquim Ferreira Rachinhas. A redacção da acta é a seguinte:
 
«Escrivão da Junta: - Foi nomeado o cidadão, António das Neves Martins de Barros, que, estando presente, entrou imediatamente ao serviço.»
 
Nos anos 50, séc. XX, houve contactos próximos com esta personalidade, éramos ainda uns imberbes adolescentes, do qual guardo algumas recordações, nomeadamente pelo facto de ser um artista autodidacta, que nos ofereceu, feito em barro, um emblema do F. C. Porto, porque sabia, já naquele tempo, que éramos, como ele, simpatizantes destas cores futebolísticas.
 
 
 

Coisas e Loisas - 40

O azeite roubado
A colheita da azeitona
 
Dos alfarrábios bibliotecários amarelecidos, encontramos duas notícias na Soberania do Povo de 27 de Novembro de 1943, quando, por outros motivos, na Biblioteca Municipal Manuel Alegre, andávamos na pesquisa de elementos sobre outro assunto. E essas notícias, que transcrevemos, com a devida vénia àquele semanário, eram do seguinte teor:
 
Valongo do Vouga
8 de Novembro
 
Os gatunos entraram na igreja matriz e roubaram parte do azeite destinado à lâmpada do SS. (Santíssimo Sacramento)
 
 
Carvalhal da Portela
15 de Novembro
 
Nesta região está quase concluída a apanha da azeitona, que é animadora. Oxalá que a boa farturinha venha a produzir apreciáveis efeitos. O lagar de azeite de Arrancada, que, segundo dizem, é o que nesta área maiores rendimentos dá ao lavrador, graças aos modernos maquinismos de que é provido e à conscienciosa maneira como é dirigido, encontra-se em plena laboração.
 
A primeira, na época de quarenta, séc. XX, demonstra que o móbil do crime era um. Se fosse hoje,  certamente que não tinha interesse o azeite.
Na segunda notícia, o que fica destacado era o lagar de azeite de Arrancada, cuja montagem, cremos, foi da responsabilidade do sr. Manuel de Bastos Xavier e que laborou durante muitos anos, até a azeitona ter desaparecido. Actualmente, já vai aparecendo novamente em certas quantidades, que, nalguns casos, já justifica a sua colheita.
O autor destas notícias era António Rosa da Silva  Magalhães, de Fermentões.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Os nossos locais

Arrancada e o cruzeiro
 
É no que dão as novas tecnologias. Não é necessário sair de casa, gastar dinheiro em máquinas fotográficas, imprimir fotografias e coisas do género. Está tudo à distância de um clique, aqui mesmo dentro de casa.
Por falar em cruzeiro, eis uma curiosidade pequenina!
 
Por exemplo, no largo dum Cruzeiro,
(Que devia ser bem respeitado,
pois está ali há trezentos e tal anos Jesus crucificado),
Sim! No Largo chamado do Cruzeiro
- E hoje do Chiadinho e do Chiado -
é ali, aos domingos, tal sólheiro,
tal falatório, tal palavriado,
que eu julgo que não há nenhum cordeiro
que ali não tenha sido tosquiado!...
 
 
(Excerto da Revista Valongo à Vista, apresentada na Casa do Povo de Valongo do Vouga, em 2 de Outubro de 1943, da autoria do inspector Arménio Gomes dos Santos, Abílio Quaresma e outros, de um trabalho de pesquisa que estamos a realizar.)
Em 1943 era aquele o retrato. E hoje? Terá mudado muito? Admitimos que sim... mas...
 
Retirado da Internet (Google)
 

A Junta de Freguesia na história - 103

A sede da Junta
Substituído o Escrivão e o Zelador
 
Por trás, do lado direito desta foto, era a sede da Junta de
Freguesia citada no texto, na conhecida Casa da Fábrica.
Saímos um pouco da cronologia de datas para recordar uma história de 1942, que é feita pelo conteúdo da acta de 12 de Abril deste ano.
Começamos por saber que nesta data a Junta ainda não possuía uma sede, o que veio a acontecer mais tarde, como aqui já destacamos. As reuniões realizavam-se na casa do adro de Valongo, mas chamando-lhe «sede da Junta de Freguesia de Valongo do Vouga, concelho de Águeda.»
Por esta acta sabe-se que quem realizava o trabalho administrativo da Junta de Freguesia, e naquele tempo designado por Escrivão, era Joaquim Ferreira Rachinhas, que morou em Carvalhal da Portela e sobejamente conhecido.
Não sei lá porquê, mas a acta apenas menciona que «por motivos dos seus afazeres particulares, pediu a demissão do cargo de escrivão desta Junta o cidadão Joaquim Ferreira Rachinhas, o que lhe foi concedido ficando a despachar o expediente até à próxima sessão da Junta, data em que será substituído.»
A Junta era constituída por João Martins Pereira, presidente, Ernesto Gomes da Silva, secretário e Abílio Simões Gomes, tesoureiro.
Quanto ao substituto, dedicaremos proximamente um espaço porque constitui um facto histórico, atendendo ao tempo político que se vivia.
No que ao Zelador diz respeito, transcreve-se na íntegra:
 
«Zelador Paroquial. Em virtude de não corresponder aos fins para que foi nomeado, foi exonerado de Zelador da Junta o cidadão Francisco de Magalhães, do lugar de Brunhido, e nomeado para o referido lugar de Zelador paroquial, o cidadão José Gomes da Silva, do mesmo lugar de Brunhido.»
 
Actualmente, mesmo nestas funções, a terminologia e a linguagem seria outra...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

As Meninas Mascarenhas

O LIVRO - LXVI

D. Maria II, em gravura da Wikipédia.
Coroada em 11 de Julho de 1828, teve um
reinado desde 26 de Maio de 1834 a 15 de
Novembro de 1853.
A narrativa desta história tem um interlúdio centrado na passagem da rainha por Vouga, para depois entrar numa descrição histórica, relacionada com a política que o país vivia, e que se descreve no próximo post.
A passagem da rainha foi pela estrada real de Vouga, na ponte que ruiu há pouco tempo, em direcção ao Porto.
Estas festas reais foram invocadas para desculpabilizar a família de Torredeita e de Aguieira. Aguieira falou nelas. Torredeita também falou. Mas interrogava-se: Qual das partes foi mais hábil e mais feliz?
Joaquim Álvaro sentia-se seguro e certo que tinha o êxito das suas intenções assegurado, de que se falava muito. Dizia-se que ele desejava casar com a sua cunhada Casimira, logo que esta atingisse a idade legal de contrair matrimónio, por corresponder ao pensamento intimo  de seu falecido primo, o fidalgo do Sobreiro.
Este, Joaquim Mascarenhas, se tinha ordenado a aliança do primo com sua filha mais velha, certissimamente havia de querer que se realizasse o casamento de sua filha mais nova, morta a primogénita, e malograda a união que tanto recomendara no seu testamento.
Com este tipo de boas reflexões, Joaquim Álvaro, logicamente, parece que se podia defender bem das acusações que lhe iam ser feitas. Tendo o sobrinho Dr. Guilherme Teles à frente da administração do concelho de Vouga, pensava considerar-se intangível na sua segurança individual e na defesa dos seus direitos de tutor.
Por isso sossegou e limitava-se a entreter, por intermédio da irmã, a expectativa de uma conciliação, em que ele mesmo não acreditava. Ele bem sabia que por trás de D. Maria Carolina, a mãe das órfãs, estavam seus irmãos, que a aconselhavam e dirigiam, mas nunca supôs que um golpe audacioso viesse perturbá-lo no seu descanso e no trato dos negócios da sua casa.
Tinha terminado o período sangrento da luta civil. A paz reinava, enfim, em Portugal.
A partir daqui inicia-se a descrição histórica das lutas e da situação política referida no início.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Souza Baptista-Brasil 1932

MARMETAL, SA
Rio de Janeiro
 
Admitimos que a vida e obra de Souza Baptista, principalmente durante o tempo de permanência no Brasil e da acção desenvolvida, não é de todo conhecida.
Vem a propósito uma publicação datada de 1 de Dezembro de 1932, no DIÁRIO OFICIAL (creio que uma espécie de Diário da República) do Rio de Janeiro, que descreve uma assembleia geral de uma sociedade denominada, MARMETAL, SA, da qual fez parte, assim como seu irmão Dr. Augusto Soares de Souza Baptista.
Começa assim essa publicação, da constituição desta sociedade anónima: «ACTA DA ASSEMBLEIA GERAL DA SOCIEDADE ANÓNIMA "MARMETAL, SA", REALIZADA EM 1 DE DEZEMBRO DE 1932. A um de Dezembro de mil novecentos e trinta e dois, às dez horas e quinze minutos, no prédio número cento e vinte e quatro, da rua Evaristo da Veiga, estando presentes todos os subscritores, com exceção do senhor Joaquim Soares de Souza Baptista, que se fez representar pelo seu procurador Dr. Augusto Soares de Souza Baptista, conforme procuração que este exibiu...» seguindo-se a linguagem normal de uma acta daquele ano de 1932.
A procuração, passada em nome de seu irmão, sabe-se e justifica-se, pois em 1932 já estava em Portugal, onde regressou em 1927. Por aqui se confirma que a sua ligação aos negócios no Brasil ainda se mantinham activos.
Logo no início da publicação há uma espécie de resumo, que se transcreve: «Por procuração de Joaquim Soares de Souza Baptista, Augusto Soares de Souza Baptista.... 30 ... 15:000$000» (era assim que se escreviam quinze contos de reis).
Mais abaixo, surge descrito na acta o nome de Augusto Soares de Souza Baptista, com a subscrição de 40 acções, no valor de 20 mil reis e uma firma denominada "Souza Baptista & Comp., Ltd.", oitenta acções, no valor de 40 mil reis. A seguir surge ainda o nome de Souza Baptista (Joaquim) com 1.000$000 reis, que representariam duas acções.
O capital social desta sociedade anónima era, naquele ano, de 100.000$000 (cem contos de reis, como está descrito). Por estes números é de confirmar que Joaquim Soares de Souza Baptista e seu irmão eram accionistas maioritários.
A sociedade, sob aquela denominação tinha por objecto o comércio de mármores, metais, móveis de ferro ou quaisquer outros ramos de negócio que a diretoria julgar convenientes, sendo o prazo da sociedade de dez anos, prorrogáveis «pela assembleia geral, a juízo da diretoria.»
Regista-se também aqui o nome de Souza Baptista, ligado aos mármores, a que não é alheia alguma história desta actividade, com bastante probabilidade de saírem de Portugal para aquele país.
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A romaria de Santo António d'Arrancada

E o tempo passa!

Quase que faltava tema que fosse de interesse para os amigos visitantes, quando me lembrei que ontem festejou-se, à maneira actual (e não à antiga), o Santo Padroeiro do vetusto lugar de Arrancada.
Dizemos assim, porque penso que ao que parece, temos cá todos os Santos populares na freguesia. Sei que está por aí o S. João, mas não recordo, de momento, onde. Quanto a festejos, parece que o Santo António apresentava-se, entre todos, o mais vaidoso, porque no lugar a festa que lhe faziam era de arromba. Quer dizer, a de maior impacto de todas.
Não vamos agora criar ciúmes aos restantes, porque o Padroeiro da freguesia, São Pedro, coitado, sempre se contentou com poucas ou quase nenhumas festas durante o seu 'reinado' de orago paroquial.
Além de vir a propósito da festa que teve o seu ponto alto ontem, dia 4 de Agosto, deste ano de 2013, vem também mesmo a jeito poder-se recordar o que era o ambiente destas festas no já passado ano de 1952, a 30 de Agosto, quando o jornal Soberania do Povo, publicava a propósito: 
«Realizam-se amanhã e segunda-feira grandes festas a Stº António, com missa solene, sermão e procissão.
Quermesse, corridas de bicicletas, a pé, sacos, Zés Pereiras, etc.
Uma aparelhagem sonora funcionará no recinto das festas.»
É caso para dizer com alguma mágoa: como era, como foi e como é... as coisas dos tempos.
Não parece despropositado, em Agosto, uma festa a Santo António? Pois parece, mas não é. Teve uma origem, uma intenção, mas quem sabe disto é o Joaquim Matos Branco, que conta a história direitinha. Também a sabemos, mas contada por ele fica melhor... porque foi real a partir de 1931, se não estou em erro a intenção de celebrar o Santo António em Agosto.
A foto acima é do Filipe Vidal, que as «distribuiu» ontem pelo Face... e a outra imagem é da Internet. Uma curiosidade! Quando fazíamos pesquisa, encontramos muitas (como é de calcular) imagens do popular Santo António. Sabíamos que é representada com uma criança ao colo. A dita curiosidade é que a criança, numas imagens, está ao colo sobre o braço direito e noutras sobre o braço esquerdo. Porque será?  Alguém sabe?

Aniversário de Ouro da A. D. Valonguense

Recordando os 50 anos do Valonguense
16 de Outubro de 2010
 
Foi naquele dia, pesem embora algumas dificuldades, mas, mesmo assim, assinalou-se e festejou-se o 50º aniversário da A. D. Valonguense.
Tinha por aqui algumas fotografias. Bastantes. Retirei algumas, na ordem em que foram tiradas, fez-se uma montagem e colocaram-se a passar de um lado para o outro. Pela forma como estavam. É natural que algumas devessem ser excluídas, não porque estejam a 'desvirtuar' a efeméride, mas por motivos que cabe a cada um admitir e verbalizar.
Mas pensando melhor, parece-me que até há situações que mais parecem de «apanhados», com alguma graça, pelo que se recordam agora, passados que foram quase três anos. Estas actividades e respectivas fotos são de 16 de Outubro de 2010, como acima se intitula.
Se houver alguém que, por qualquer motivo, não as queira aqui publicadas, é só dizer que se retiram de imediato e com facilidade.


Algumas destas fotos mereciam legenda adequada.
Mas, enfim, já passou... fica para a história.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Casa do Povo de Valongo do Vouga - 32

Na era da fundação

Os nacos históricos e, actualmente, curiosos, dos primeiros tempos de vida desta Instituição, no limiar das bodas de diamante, continuam a constituir uma lição de estoicismo por parte das pessoas que dos seus corpos sociais faziam parte. De vez em quando, como hoje acontece nas Instituições, lá são despoletados alguns problemas que, certamente, desestabilizam e incomodam, principalmente os que depositam grandes esperanças e confianças naquilo que representam.
Pormenor destacado do painel representativo das
diversas valências sociais da Casa do Povo.
Em 1942, quando a Segurança Social era quase
uma desconhecida, a Casa do Povo e o seu
Instituidor já pensavam que «60 anos pedem
repouso e protecção». Progressismo nos anos 40.
Esta Instituição nasceu num meio bastante pobre. Por isso a sua fundação. Será lugar-comum afirmar-se que se toda a gente vivesse bem, a Casa do Povo ou outra era dispensada, por desnecessário...
Nos apontamentos que ainda nos restam, já poucos, há indícios de que as coisas não corriam de feição, porque em Abril de 1946, a 28 deste mês, há relatos da demissão dos vogais da direcção José Henriques da Silva e Eduardo Vasconcelos Soares. O primeiro aqui recentemente referido, quando foi eleito.
Não são esclarecidas as razões desta situação, mas o prof. João Baptista Fernandes Vidal, que era o presidente da direcção, continuava no seu posto e os novos elementos a eleger, diz a acta, terminariam o triénio em curso, que correspondia ao tempo de mandato da direcção em exercício. Nesta reunião, estiveram presentes 86 sócios efectivos. Proximamente daremos mais pormenores da evolução destes acontecimentos.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Brumas da Memória - 43

Presidente da República em Valongo do Vouga

Este título pode suscitar curiosidade e surpresa. Só para os mais novos. Mas aconteceu.
Tenho por aqui uns apontamentos, já antigos e descobri este que a seguir reproduzo:
16/8/1969 - VISITA DO ALMIRANTE AMÉRICO THOMAZ À HANDY E ANTÓNIO PEREIRA VIDAL & FILHOS, LDA.
Fundada no princípio dos anos 60, séc. XX, foi a segunda
empresa do País a  fabricar cantoneira perfurada, de patente
inglesa. Foi a primeira, no concelho de Águeda, a fabricar
móveis metálicos de escritório. Fabricou também estruturas
para cargas pesadas e prancha perfurada.
Dispensa legenda e explicações complementares. Esta era
parte da secção de fiação e penteados de uma grande
empresa do ramo de lanifícios, António Pereira Vidal
& Filhos, Lda., que chegou a constituir grande
fonte de riqueza local e nacional. Há por aí blogues
com histórias e fotos desta empresa.

Pormenorizando:
Aquela personalidade ocupava o cargo de Presidente da República em 25 de Abril de 1974. Resolveram criar uma Fundação com o nome Salazar, dando origem à Fundação Salazar, como é óbvio.
Criada naquele ano de 1969, foi extinta por Decreto de 26 de Setembro de 1978, promulgado pelo que ocupou o mesmo cargo, General António Ramalho Eanes. A primeira frase do preâmbulo do Decreto-Lei 295/78, daquela data, dizia textualmente o seguinte: A Fundação Salazar, instituição particular de utilidade pública geral, foi criada em 1969 com intuitos manifestamente alheios a uma autêntica política social.  Mas existiu, com legados, rendimentos e donativos de várias procedências.
O Almirante Américo Thomaz, veio até à freguesia de Valongo do Vouga, certamente com o intuito de obter alguns apoios que permitissem a subsistência daquela Fundação. Após a extinção, a 'herdeira' foi a Casa Pia de Lisboa.
Visitou as firmas, já extintas, Handy Portuguesa e, em Arrancada do Vouga, António Pereira Vidal & Filhos, Lda em 16 de Agosto do referido ano de 1969.
A curiosidade deste facto, não fica só pela visita do mais alto Magistrado da Nação a uma aldeia (actual vila) como a nossa no território de Valongo do Vouga.
Passados uns dias, no semanário Soberania do Povo, o correspondente António Rosa da Silva Magalhães, pessoa que sempre se manifestou apoiante do regime político então vigente, mostrava-se  pouco agradado com a visita, porque considerava que a magistral recepção feita ao Presidente da Nação e sua ilustre comitiva, no Centro Industrial de Arrancada-Póvoa, foi apoteótica, popular e estrondosa.
Justifica o estrondo, porque o fogo ali queimado foi demais, chegava a estontear, e como militar da Grande Guerra (cremos que a primeira, 1914-1918), odiava o tiroteio e amava a música harmoniosa e o canto alegre dos passarinhos.
E já lá vão quase quarenta e cinco anos que se vivia este ambiente e se produziam estas e outras afirmações cá pelo burgo.

domingo, 21 de julho de 2013

Os Senhores do Marnel - 4

A estrada real em Carvalhal da Portela

Ao desembocar na estrada real, a do Carvalhal da Portela, havia uma venda, a cuja porta chegou uma rapariga para ver quem vinha no carro.

Pelas descrições, o autor do livro «Os Senhores do Marnel»,
colocava neste local a 'tasca' da Ritinha e de seu pai, o Niza,
onde havia o cruzamento das estradas de Vouga-Macinhata
 e Valongo. As barreiras de cimento, eliminaram a estrada,
por causa da passagem de nível da via férrea. O que existe
actualmente é de tempos mais contemporâneos... ou seja,
não existia...
- Fazes-me favor, Ritinha, - disse Pero chamando-a, depois de ter mandado parar o cocheiro.
A rapariga aproximou-se, embrulhando no avental os braços arremangados, risonha na sua carita rubicunda e fresca, emoldurada em cabelos escuros e fartos, e volveu os olhos castanhos e vivos para as senhoras a quem cumprimentava, baixando-se nas repetidas cortesias aldeãs.
- Muito boas tardes, minhas senhoras.
- Boas tardes, menina.
- Boas tardes, Ritinha - correspondeu Leonor, repetindo o nome que ouvira ao primo, para conquistar a simpatia daquela mocetona bonita, porque não há dezoito anos feios e, alegre, porque rara é a tristeza em tal idade.
- Olha, Ritinha. Tem paciência, manda-me aí alguém lá a casa dizer ao António, ao criado da cocheira, que vá buscar o meu pigarço a Macinhata, a casa do senhor Fonseca, que o leve  ao ferrador e depois mo vá pôr em Segadães. Percebeste bem?
- Percebi, sim, senhor morgado. Então não havera de perceber.
- Que o leve ao ferrador e depois a Segadães - repetiu D. Pero.
- Desferrou-se-lhe? Logo meu pai disse quando aqui passou: o morgadinho... assim dizemos na ausência... É perdoar! Pois meu pai disse logo: não vai longe o morgadinho; leva uma das ferraduras a bater.
- Das do cavalo, salvo seja - riu Leonor de maneira que a Ritinha não ouvisse.
- Então não te esqueças, manda lá depressa.
- Vou já mandar o pequeno. Nanja que me esqueça. Basta ser o pedido de quem é.
- Obrigado, Ritinha. Em paga dou-te um beijo à volta - acrescentou D. Pero, quando o trem já se afastava.
A rapariga acenou negativamente brandindo o braço no ar, mas olhou-o rindo, como se o braço dissesse: - sape, gato - e os olhos: - quem mo dera. -

Fonte: Os Senhores do Marnel, de Vaz Ferreira, 1925, Imprensa Libânio da Silva, Lisboa.
 

As Meninas Mascarenhas

A Genealogia

Por acharmos de interesse e historicamente curioso, deixamos esta transcrição, com a devida vénia ao autor, António Martins Rachinhas, do seu livro "A Paróquia de S. Pedro de Valongo do Vouga", sobre uma parte da genealogia de Joaquim Álvaro Teles de Figueiredo Pacheco, que veio a ter o título de Visconde de Aguieira, como mais abaixo se menciona e um dos participantes na história da demanda sobre as tuteladas Meninas Mascarenhas, que tanta tinta fez correr. Diz o seguinte:
 
Casa da Quinta da Aguieira, vendo-se em primeiro plano,
do lado direito, a capela de Nª Sª Bom Despacho
b) - Possuidores da Capela e Casa de Aguieira
A capela de Nossa Senhora do Bom Despacho e Casa de Aguieira vieram no século XIX à posse do visconde de Aguieira, Joaquim Álvaro Teles de Figueiredo Pacheco, bisneto dos instituidores da dita capela (João Gomes Martins e Maria Eufrásia Gomes Pacheco, ele natural e residente em Aguieira e ela natural da Quinta do Sobreiro).
A descendência que conduziu ao visconde foi esta:
Maria Eufrásia Pacheco Teles (ou Maria Eufrásia Gomes Pacheco) casou com João Gomes Martins (1724), e tiveram, além de outros, a filha:
-Joana Josefa Teles Vidal Pacheco que nasceu no dia 1 de Junho de 1730, e casou com Nicolau Baptista de Figueiredo Távora de Morais, nascido a 21 de Março de 1726, na freguesia de Dardavaz, Tondela. Do seu matrimónio tiveram, entre outros filhos:
-José Agostinho de Figueiredo Pacheco Teles, proprietário da Casa de Aguieira e capela de Nossa Senhora do Bom Despacho. Nasceu a 8 de Agosto de 1752 e faleceu a 5 de Maio de 1812. Casou com D. Maria Luísa de Magalhães, natural de Brunhido, que nasceu a 3 de Abril de 1758 e faleceu a 8 de Maio de 1821.
Tiveram dez filhos, sendo o mais novo:

quinta-feira, 18 de julho de 2013

As crónicas de Adolfo Portela - 11

A Visitação dos Passos


Cemitério Paroquial de Valongo do Vouga
Recolhida a procissão na capelinha de Assequins, logo daí desabelham, aos ranchos, os devotos da Visitação dos Passos.
Onze horas da noite. Todo o Vale de Águeda se apagou. O balbuciar baixinho das rezas assinala a passagem dos devotos que vão agora visitar os Passos.
Aí vem o Almiro da Borralha; e, atrás do Almiro ou do Manuel Ceguinho (que poucos, como eles, sabiam conduzir e manter as boas regras duma devoção), ajuntaram-se em bando homens e mulheres que respondem à sua reza.
O primeiro Passo era dantes à entrada da Cancela, na estrada velha de Assequins - o Passo dos Apóstolos, com Jesus no horto e os apóstolos a dormirem para ali, encostados às ripas do palanque...
- «... Esta primeira estação representa o lugar, em que o Nosso Salvador, depois da agonia no Horto, no qual suou gotas de sangue que chegaram a regar a terra, sem piedade lhe descobriram os ossos de entre a carne, patenteando-os rubros de sangue... - Padre Nosso, Avé-Maria...»
E a voz trémula do Almiro da Borralha chegava a comover os mais indiferentes pela sinceridade das crenças que ela acusava.
- «... Teceram logo uma coroa de setenta e dois espinhos, e, pregando-lha na sagrada cabeça, rebentaram de novo setenta e dois rios de sangue...»
E uma beata do bando, em delíquio espiritual, com a voz embargada por um soluço profundo, gemia lá do escuro: Ai... - E o ai da beata ia, de boca em boca, a desafogar o coração simples de todo o bando: Ai!...
Ao fim de tudo, percorridos os Passos do João Ribeiro, de Além da Ponte, do Crespo e todos os mais a que a rubrica ingénua das cartilhas chama a «contemplação em particular dos tormentos da Paixão e Morte de Cristo», seguia-se, já na igreja, «a consagração em geral» dos mesmos tormentos.
O mestre de cerimónias da Via Sacra dizia assim - tudo de cor e de enfiada, que era de mais devoção:
- «Sete quedas deu o nosso amorosíssimo Jesus desde o Horto até casa de Anás!»
E os devotos, em êxtase, respondiam:
- «Louvado seja para sempre tão bom Senhor!»
Tornava o director de lá:
- «Seis mil quatrocentas e setenta e duas feridas teve em seu santíssimo corpo!»
E o coro, logo, sempre em voz carpida:
- «Louvado seja para sempre tão bom Senhor!»
E pela cartilha fora - ... «144 pontapés, 6.666 açoites, 109 suspiros» ... - até que o mestre de cerimónias rematava:
- «As lágrimas que chorou foram seiscentas mil e duzentas!»
E todo o bando respondia, por fim:
- «Louvado sejais, meu amado Jesus, que, para nos salvar, tanto padeceste, até que deste a vida por nós!».

(Fonte: «Águeda, crónica-paisagens-tradições, de Adolfo Portela, 2ª Edição, Gráfica Ideal, 1964)

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