quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Coisas e Loisas - 33

Foi em Março de 1997, que um amigo da juventude, Hernâni da Silva Gomes, fazia publicar no jornal paroquial «Valongo do Vouga» daquele mês, uma crónica, que vinha da capital - onde residia e reside - com quem tivemos oportunidade de nos encontrar há dias. Penso que será interessante recordar, até pelo que actualmente se vai vivendo, o que ele dizia com alguma graça. Mas com alguma realidade histórica. Vamos reproduzir seguindo o mais próximo possível a sua apresentação no jornal que nos serve de apoio.

Lendo a Sina em Tom de FADO!

Portugal. A mais antiga Nação Europeia. D. Afonso Henriques. 1143. Período e Pós Manuelino. Descobrimentos. Época Áurea. Brasil. India. Áfricas. Império. Riquezas. Lisboa empório comercial.

Mau aproveitamento. Falta de estruturas. Não consolidação. Ouro volátil. Retrocesso e mediocridade.
Dependência a ascendente inglês. Aliança e Submissão. Tratado Metween, Têxteis. Sufoco de Indústria nascente. Vinhas do Alto Douro reflexo Agricultura Colonial - Offley - Taylor's - Sandeman.
Fogueiras da Inquisição. Expulsão dos Judeus. Recuo ao Medieval.
Antero de Quental e as Causas do Declínio dos Povos Peninsulares.
Ciência e capital desenvolvem a Holanda. Fechamo-nos na concha Feudal.
Brasil. D. Pedro e D. Miguel que andaram ambos dentro da mesma pele.
1822. Cartistas e Absolutistas. Povo. Maria da Fonte, Fontes Pereira de Melo. Fontismo. Avanço e Recuo na perspectiva do Progresso. Agitação. Mapa Cor de Rosa. De Angola à contracosta.
Outra vez a Inglaterra. Ultimatum.
Ideias da Revolução Francesa. Maçonaria. Regicídio. 5 de Outubro de 1910. República. Choque de interesses e de Ideologias. Anarquia. Gomes da Costa. Carmona e Salazar. Ordem, sempre... "A Bem da Nação".

Onde estavam os primos de Rivera e de Mussolini?
Tanto Estado Novo que de tanto se fez velho.
Salazar e ainda o Império. Mas que império.
Ventos da História. Fim dos impérios coloniais.
Inglaterra, França, Itália Espanha, Bélgica. Da Argélia ao Zaire.
E nós fomos resistindo, para quê, porquê e até quando.
1974. O 25 de Abril e os seus traumas. Os "retornados" apesar de tudo exemplarmente assimilados.
Ruiu o Império e Caíu Portugal na Europa. Só na Europa. Na ponta da Europa. Um Portugal pequeno, pobre e atrasado. E Mário Soares e «son ami» Mitterrand. Portugal com vontade de se remediar e avançar.
E cá estamos nós no seio da CEE/EU. Liberalismo, Concorrência, GATT e OMC. A Economia é o Mundo. Aí vem Maastricht e o EURO. Pelotão da frente, obsessão, pelotão da frente... mas o carro vassoura já vai cheio... será que ainda há pelotão. O que vai ser de nós?
E a Espanha aqui tão perto e tão maior do que nós.
Os grandes sempre engolem os pequenos. Os rios correm para o mar.
...Cá temos as Rocas e as Zaras. As laranjas e os tomates da Andaluzia, os carapaus congelados da Galiza.
Até já na TV só se vêm os Barças e os Reais.
O que vamos fazer, que produzir, que vender, se nem sequer produzimos para comer? O que vai ser de nós?
Para quê o 1643 e o 1640? Se nos tomaram Olivença tomem lá Barrancos. Desviam-nos águas dos rios enquanto sãs e dão-nos as sobras depois de poluídas?

O que devemos fazer? Que podemos fazer?
Voltar a África - Investindo e vendendo Massa Cinzenta. Temos matéria e há mercado.
E não estou sózinho nesta opinião - perguntem ao Ernâni Lopes.
Eu chamo-me Hernâni Gomes.

Lisboa, Janeiro de 1997

*****

Era assim, com humor mas realista, que o Hernâni, residente em Lisboa e ali de Brunhido, fazia as suas (pre)visões dos problemas vividos na altura. É de salientar o perfeito resumo de uma história em meia dúzia de linhas e palavras. Tudo isto se agudizou, penso eu. E deixem-me manifestar, abertamente, a minha estranheza, que é esta: Não há (quase) uma semana que o Estado não vá ao mercado pedir dinheiro...
Eu acho estranho... ou talvez não!!!


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