segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As Meninas Mascarenhas

O LIVRO XXXIV


Vista do bairro das Fontainhas no Porto

Ficámos em contar como é que o segundo «assalto» de que se salvou Joaquim Álvaro, quando foi «obrigado» a deitar-se na banheira cheia de roupa molhada por cima do seu corpo (embora com uma tábua a separar) foi provocado por uma indiscrição de uma criada de fora, que era conhecedora do que se passava dentro da casa de Ransam.
Esta contou ao seu namorado, que era sargento da guarda municipal, que um indivíduo que acompanhava as Meninas Mascarenhas se tinha escondido em casa dos seus patrões.
Este sargento, espertalhão, como o anterior, pensou também que poderia ganhar algumas moedas de ouro prometidas e deu (parte) conhecimento aos seus superiores desta informação da namorada.
Tanto o pai de uma das discípulas de madame Mesnier como o sargento da municipal ficaram logrados. Neste caso repetiu-se o mesmo quando passaram por Eixo (Aveiro). Aqui, a criada da D. Maria Júlia foi dizer ao namorado que estava gente suspeita em casa da sua ama. No Porto, a criada de fora de Pedro Ransam contou ao seu apaixonado o que se estava a passar na casa de seu patrão. Estes dois factos são equivalentes através do mesmo sentimento. E semelhantes quanto ao desfecho.
Dizia o Dr. José Joaquim da Silva Pinho que havia apenas uma pequena diferença: o enamorado de Eixo era cambaio e torto, o enamorado municipal era esbelto e direito.

Claro que é preciso evidenciar que o Silva Santos, o solicitador encartado, tinha colocado as duas órfãs em segurança absoluta. A mais velha fora levada da casa fronteira ao convento das freiras para uma casa a jusante do muro das Fontaínhas. Ninguém iria suspeitar que D. Maria Mascarenhas aí estivesse.
O local era habitado por um oficial do exército, na situação de reformado, e que fora até deputado às cortes em 1845, e era um carlista assanhado. O seu nome era Tibúrcio e na vida política tinha um nome péssimo. Foi acusado de alguns actos pouco decorosos, tendo sido muito atacado no parlamento pelo valente grupo dos dez deputados que constituía a valente e patriótica oposição que representava o círculo de Évora, o único do país que tivera o desassombro de eleger candidatos adversos ao governo dos Cabrais.
Ora, a pessoa e os actos do deputado Tibúrcio foram tão acesamente discutidos e apreciados no parlamento e na opinião pública que, por esse tempo, quando se aflorava um caso de desonestidade política ou pessoal - ontem, como hoje -  se inventara e aplicara o vocábulo tibúrcias, usado constantemente na imprensa e nas conversas.
Mas aquele solicitador confiava completamente no amigo e correligionário Tibúrcio e afiançou a sua lisura e prudência. O Dr. José Joaquim da Silva Pinho algumas vezes foi falar com D. Maria Mascarenhas, à casa próxima das Fontaínhas, usando de todas as precauções para não ser visto e seguido e que, por ele, não fosse descoberto o paradeiro da primogénita.
A outra órfã, D. Casimira, continuava em casa do cirurgião Lima, estando ora na casa de Belomonte, ora, se se recorda bem, muma outra casa que possuía na rua da Aguardente. Não a procurou nem a viu nunca. Pelo menos nesta fase da estadia no Porto.

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