segunda-feira, 11 de outubro de 2010

As Meninas Mascarenhas

O LIVRO - XXXII

Tínhamos deixado esta narrativa no momento em que todos festejavam a astúcia da senhora Mesnier, em ter escondido o Dr. Joaquim Álvaro debaixo de uns colchões do seu quarto.
Cogitavam, também, que se o esconderijo do tutor das Meninas foi descoberto é porque havia um denunciante e este não deixaria de continuar a usar os seus maléficos artifícios para o voltar a fazer. E diz o Dr. José Joaquim da Silva Pinho, «que mais tarde se saberá.»
É que, tenho presente de ter lido, que o autor, com uma co-autora das denúncias do esconderijo é adiante descoberta. Mas lá chegaremos.

Não sei se a banheira que escondeu Dr. Joaquim Álvaro era idêntica ou não.
Mas a banheira foi, neste caso, o instrumento do esconderijo.

Dois ou três dias depois destes acontecimentos, a polícia faz nova busca em casa do Pedro Ransam, o cidadão francês  morador na rua de Belomonte, no Porto. O chefe da diligência, como de costume, era o dr. Francisco de Resende, médico, de Aveiro e que aqui já identificamos.
Bateu à porta era ainda manhã cedo. Ransam assomou à janela e percebeu que se iria passar cena idêntica à que já foi narrada.

Pedro Ransam perguntou o que queriam. O dr. Resende respondeu que queriam visitar a casa. E o primeiro disse de imediato que se traziam autorização do cônsul francês, abria imediatamente. Caso contrário, não saía de casa. Mas a autorização estava com o dr. Resende.
Como o dr. Resende sabia da têmpera do Pedro Ransam, acautelou-se. Diz-se que o cônsul se recusou a concordar com nova busca mas autorizou-a a pedido de pessoas das suas relações. Pedro Ransam, procurando demorar, lá veio vagarosamente, abrir a porta.
E lendo a autorização do seu cônsul, disse: - A polícia pode entrar.
O doutor percorreu todo o edifício, fez uma rigorosa busca, mas não encontrou ninguém de suspeito. Mas o dr. Joaquim Álvaro, tutor das Meninas, estava lá.
O dr. Resende ao descer as escadas, num corredor, encontrou madame Mesnier, que estava sobranceira, pálida, quase ofendida, por aquilo que se passou consigo e o dr. Resende, antes, nas buscas a sua casa. Este fez uma reverência ao passar pela cidadã francesa e abandonou a casa, desiludido, desconcertado e aborrecido pelo engano a que o sujeitaram queixas interesseiras.
Logo que se soube que a polícia estava a bater à porta e aproveitando a demora com a troca de impressões, foi madame Mesnier que novamente valeu e teve uma inspiração para esconder o dr. Joaquim Álvaro. Como? Eu conto.
Na cozinha estava uma criada que ensaboava a roupa e a ia colocando numa tábua, junto da banheira comprida. Se a tábua era estreita, logo foi suibstituída por uma mais larga e madame Mesnier ordenou a Joaquim Álvaro que entrasse e se deitasse ao comprido na banheira. Este não hesitou um momento.
Onde ficavam a cabeça e o rosto, arranjou-se de imediato uma outra tábua e o corpo foi completamente coberto pela tábua e pela roupa ensaboada.
Quando a polícia se aproximava da cozinha, depois de ter passado por todos os sítios da casa, a criada ensaboava a roupa e trauteava um bonita canção francesa. O dr. Resende, chefe da diligência, olhou para a criada, olhou para a cozinha e nem sequer reparou na banheira cheia de roupa.
Pouco depois foi uma risada geral na cozinha com mais este expediente da francesa, vendo o tutor das Meninas com o fato húmido da roupa que se lavava e a cara polvilhada do sabão que se desfizera na tábua que cobria a banheira.
Aqui surgiram as mesuras da época, os agradecimentos e reconhecimentos. «Os recursos do seu espírito são inesgotáveis. Rendo todos os preitos à bondade da sua alma», exclama dr. Joaquim Álvaro.
- Sim, sim, tudo isso é muito bem dito, mas vá mudar de vestuário, sr. doutor, e depois se conversará, dizia madame Mesnier.

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